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Depois da chuva, por Reginaldo Moraes

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Estas são impressões pessoais. E, claro, bem pouco relevantes. Como dizia o poeta, “ Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O julgamento de Lula, em 24/1/2018, teve o resultado esperado, a condenação. Foi um pouco além do esperado, porque nem sequer houve um questionamento deste ou aquele aspecto da sentença. E a extensão da pena (com números que evidenciam uma combinação prévia) tem todo o cheiro de cálculo político: evitar prescrição.

Fora o esperado, há o que fazer daqui por diante.

Vejo muitas avaliações lamentando os erros. Sim, os erros que cometemos foram muitos, vêm de longe. Erros do PT, dos governos liderados pelo PT, da esquerda em seu entorno, da esquerda fora do entorno. Bom, cada um fará seu balanço.

De minha parte, venho errando (e eventualmente acertando…) desde que tenho memória de envolvimento político. E tento sempre fazer esse balanço para ver se aprendo algo para o futuro imediato.

Estava agora mesmo pensando nas duchas frias que nós, da esquerda, já levamos, nessas décadas todas, desde 1966, quando comecei a me meter nisso. Uma atrás da outra. Primeiro, como secundarista, um movimento também forçado à clandestinidade nos anos 1960. Depois, em um partido que optou pela tática do foco guerrilheiro e foi praticamente destroçado, em 1971. Depois, com a reconstrução desse partido, com base em outras formas de luta.

E acho que as derrotas maiores não foram necessariamente as da repressão. A repressão foi dura e sangrenta, suas marcas foram visíveis e, em grande medida, feitas de fora para dentro. Mas houve outras marcas, derivadas de outras derrotas. Foram aquelas que nos derrotaram pela incapacidade de formular saída nova para situação nova. Depois da derrota militar, no começo dos anos 70, começamos uma conversão que durou uns 10 anos e foi em geral bem sucedida, pelo menos para os padrões que podíamos ter. Bem ou mal, contribuímos para organizar uma resistência popular ao golpe – nas fábricas, sindicatos, bairros populares. Foi isso que desgastou a ditadura pelo lado de baixo e preparou a emergência do PT e da CUT (do MST um pouco depois). Mas nós não soubemos ter uma clara (e consistente) tática para a combinação das duas politicas – a de massas, extra-institucional, contra-institucional e instituinte, e a institucional, aquela que é determinada inteiramente pelo campo deles. Isso foi uma constante e tem sido. Não apenas para o PT. Para o PCdoB também. E para os ultra-esquerdistas, também, até mais.

Agora estamos diante de uma bifurcação. Se o regime se estabiliza, se “normaliza”, corremos o risco de mais uma década cinzenta de reconstrução, em condições muito duras de cerco, isolamento e repressão. Se não se estabiliza, a velocidade da crise pode ser maior do que a nossa. E daí, a saída da direita-direita pode ser vitoriosa. Com resultados igualmente duros.

Ontem, a derrota pesou. Visivelmente. Um soprozinho de vida veio do final meio surpreendente da manifestação aqui em S.Paulo, com a marcha para a Paulista. Era uma aposta perigosa, ninguém sabia o que aguardava os manifestantes, ali na boca do lobo – onde ruminavam uns cincoenta coxinhas, rodeando um caminhão de som e protegidos pelo choque da PM que era várias vezes maior do que o número de manifestantes que comemoravam a sentença. Ainda assim, uma grande massa subiu a rua da Consolacao, uma bela e longa ladeira de uns 3 km, para invadir a avenida Paulista. É sinal de alguma disposição. Vamos ver se dura e se cria instrumentos mais cotidianos de ofensiva. Mal comparando, lembrou-me, em contexto bem diferente, o significado de outra marcha proibida e bem sucedida, aquela do primeiro de maio que nos levou do largo da Matriz para o Estado de Vila Euclides, em São Bernardo. As lideranças da greve presas e persguidas, o estádio ocupado, a cidade cercada pela PM e exército. A marcha seguiu, o estádio foi ocupado pela massa, tínhamos avançado uma importante trincheira pelo desgaste da ditadura. E tínhamos soldado alianças e crenças.

O ânimo dos manifestantes de ontem, na praça da República, certamente foi ampliado com o discurso de Lula, que enfatizou uma idéia: nem pensar em desistir, nunca, não abaixar a cabeça. Não é o Lula que está em jogo, é a vida de todos nós, os de baixo. Para manter os manifestantes vivos, era essencial que ele desse esse recado, que não estava fora do jogo e que iria voltar para a rua e para a disputa. O ato não podia se desfazer em lamentos, lágrimas, em um velório.

Agora, como sabemos, é preciso pensar bem no modo de fazer isso, de seguir na disputa. Vai sobrar idéia maluca – os mais velhos se lembram delas e quanto nos custaram. Haverá também que reme no sentido inverso: recuar ou desistir. Sempre há. Fácil não será – nem para quem optar pelo enfrentamento, nem para quem optar pela rendição.

A reconstrução das trincheiras é complexa. Sobretudo para empolgar não apenas os já convertidos, nossa tropa já mobilizada, mas para conquistar para a política ativa, mais do que para o voto, a enorme massa de brasileiros que foi fortemente orientada a descrer da política, a criminalizar a política, para mergulhar em crenças convenientes para os conservadores. As crenças da “salvação individual” e do retiro para a vida privada, aquela em que você vende a força de trabalho e tenta navegar diante das incertezas. Essa é a crença silenciosa, mais ou menos fragmentada, que durante todos estes anos a onda conservadora tentou injetar nessa massa de gente, que, além de tudo, mal tem tempo para pensar em outra saída.

Mas também não será fácil para o outro lado. Cada vez mais se torna visível que o golpismo interno – ainda que forte – é apenas parte da coisa. De fato, estamos, cada vez mais, em um país sob ocupação de potencias estrangeiras que disputam a carniça. A potêncial principal – na verdade, a cabeça do golpe – tem um problema. Teria sido MUITO mais fácil para os nossos golpistas se a facção Obama-Hilary tivesse ganho. Eles já tinham negociado a transição com os golpistas. A visita de John Kerry, secretário de Estado, era quase uma celebração desse acordo. A vitória de Trump – ironia da historia – complicou a coisa. Os nossos golpistas apostaram tanto na vitória de Hilary que acreditaram nela e ficaram confusos com Trump. Até hoje. Por outro lado, as outras potências – China, sobretudo – são ambíguas. Não têm preferencia – negociam com o PT ou com ditadores africanos. Compram o pacote.

Nesse quadro, é preciso pensar com calma (mas não sem pressa…) no rumo a seguir, nas táticas a adotar, nas alianças a costurar. A lua é pequena e a caminhada é perigosa, dizia o poema de Augusto Boal.

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