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Do manual do ativista escaldado – Parte 7

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[Por Reginaldo Moraes]  Tem alguma relação entre o fundo do poço e o começo de algo novo. Nessa hora, as idéias costumam ficar mais escuras, antes de ficarem claras. Coisas que pareciam muito claras, por outro lado, ficam menos definidas. Um exemplo talvez seja esse terreno pantanoso que fica entre a religião e a política. Nos últimos tempos, uma porção de padres cantores e pastores velhacos conseguiram capturar a imaginação dos crentes e mergulhá-los na escuridão falando da luz.  Felicianos, Cunhas, Maltas, Malafaias, Marcelos Rossis, a fauna era variada e rica (em todos os sentidos). Daí, parecia que para os progressistas o essencial era bater nas próprias crenças. Agora já não está tão claro… o que quer dizer que começa a ficar mais claro. Vou tentar explicar.

Há mais de 30 anos, em Madrid, conheci um membro da direção do Partido Comunista Espanhol que era padre (não ex-padre). Não era cristão, era padre. Havia muitos similares. Recentemente, o ortodoxo Partido Comunista Português apresentou um candidato á presidência que é padre. Continua sendo. A nossa ditadura teve 20 anos e durante mais de 15 anos fiz política clandestina com comunistas e cristãos. Conheci também militantes protestantes e espíritas, mas na época a esquerda cristão era majoritariamente católica. Eles nunca me pediram que eu comungasse e eu nunca lhes pedi que abandonassem sua fé religiosa. Na situação que vivíamos isso não tinha a menor importância – e continuo a achar que ainda não tem.

Essa convivência era uma liberdade de espírito preciosa, que possuíamos e conversávamos com cuidado, em circunstâncias em que poucas liberdades existiam. Essas liberdades, mais amplas e públicas, se ampliaram, mas parece que aquela outra se reduziu. Lembrei-me de uma frase de Sartre: os franceses nunca foram tão livres quanto eram sob a ocupação nazista. Pena que seja assim – ou pareça ser.

O que isso tem a ver com o fundo do poço e os sinais de luz? Talvez estejamos em outro limite. Entramos em outra situação de redução das liberdades no espaço público. Cada vez mais se fecha um cerco conservador e uma afirmação de idéias e políticas reacionárias. Mas talvez este seja o momento de recuperação daquela liberdade de espírito que nos permitiu, antes, construir um outro caminho e talvez nos permita, agora, vislumbrar uma saída. Fiquem de olho nos rebanhos dos pastores velhacos. As “ovelhas” não são tão surdas e viciadas como pareciam ser. Nosso problema não é a sua crença profunda, é a interpretação cavernosa que os pastores botam no lugar dela, para justificar coisas bem carnais e terrenas, nada celestiais.

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