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Do Manual do Ativista Escaldado – Parte 8    

 

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Frases do jornal, o que dizem, o que deixam de dizer.  

[Por Regis Moraes] Há vários modos de dizer ou de ler uma frase. Em 2013, os jornais americanos reproduziram uma comovida declaração de Barack Obama (mais uma…). “Nós somos fiéis a nossas crenças quando uma menina nascida na pobreza mais tenebrosa sabe que ela tem a mesma chance de ter sucesso como qualquer pessoa, porque ela é uma americana; ela é livre, e ela é igual, não apenas diante de Deus, mas também diante de nós.”

Uma colunista do The Nation contestou Obama com bons argumentos e dados: isso de fato não ocorria. Ou seja: uma garota pobre não tinha essa tal chance, não era livre nem igual às outras. E ela estava certa. Em seguida, The Atlantic bateu na mesma tecla. E mais outro, e mais outro. Ou seja, as evidências se amontoavam para mostrar que aquilo NÃO ocorria no país real, apenas no país da “crença”. Ou desses crentes.

Tá certo, gente, nada de novo. Mas talvez o mais interessante não seja dizer que Obama é utópico ou que não enxerga o que está diante do seu nariz. Obama diz que ela consegue, os críticos dizem que não. Mas debaixo do que ambos dizem tem uma coisa não dita e mais importante.

O mais interessante e não comentado por essa mídia é outra coisa: Obama disse algo sem dizer e, aparentemente, sem querer dizer. E a mídia não ouviu essa mensagem porque vive dentro da mesma bolha.

O que Obama disse de tão grave? Vejam aquilo que está implícito na frase: no centro do império, no país que tem tecnologia para construir ou destruir o mundo, que acumula riqueza como nunca na história da humanidade, nesse país da glória há garotinhas que vivem na mais tenebrosa pobreza.

Mais do que isso: as garotinhas e suas famílias, por suposto. Não estamos falando da Etiópia, da Somália, da Etiópia, tragédias com as quais a humanidade se conforma faz tempo. Nem do Iraque, que os americanos “reconstroem” faz quatorze anos. Estamos falando da “América”, do país rico que é campeão mundial de pobreza infantil.

Não foi isso que a imprensa destacou. Mas é isso: a declaração e suas críticas exibem uma confissão de derrota. Ou a confissão de um crime.

Há vários modos de dizer ou de ler uma frase, não é mesmo? Mas depende muito do lado em que você está.

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