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Entrevista com Lívia Perez, diretora de ‘Lampião da Esquina’, documentário sobre o primeiro jornal LGBT do Brasil

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[Por Vanessa Panerari – Revista Fórum] Leia aqui a entrevista exclusiva para a Rede Fórum com Lívia Perez, diretora de “Lampião da Esquina”, documentário sobre o primeiro jornal LGBT do Brasil. Nascido em um contexto de imprensa alternativa, o jornal “Lampião da Esquina”, conhecido na época como “Lampião”, circulou entre os anos de 1978 e 1981, período de abrandamento dos anos de censura da ditadura civil-militar.

Durante o festival “É Tudo Verdade”, que aconteceu em agosto de 2016, Lívia Perez lançou seu documentário Lampião da Esquina, que resgata a história do primeiro jornal LGBT do Brasil, o homônimo Lampião da Esquina. O filme acabou sendo escolhido destaque do evento e, por isso, foi exibido também nas itinerâncias do Festival que acontecem em capitais como Recife, Belo Horizonte e Brasília. Alguns meses depois, foi exibido no 24º Festival MIX Brasil de Diversidade, onde recebeu uma menção honrosa.

Nascido em um contexto de imprensa alternativa, o jornal circulou entre os anos de 1978 e 1981, na época de abrandamento dos anos de censura da ditadura civil-militar.

Na edição experimental de número zero (abril de 1978), o Lampião deixa claro em seu edital a que veio:

“É preciso dizer não ao gueto e, em consequência, sair dele. O que nos interessa é destruir a imagem-padrão que se faz do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que prefere a noite, que encara a sua preferência sexual corno uma espécie de maldição, que é dado aos ademanes e que sempre esbarra, em qualquer tentativa de se realizar mais amplamente enquanto ser humano, neste fator capital: seu sexo não é aquele que ele desejaria ter. Para acabar com essa imagem-padrão, LAMPIÃO não pretende soluçar a opressão nossa de cada dia, nem pressionar válvulas de escape. Apenas lembrará que uma parte estatisticamente definível da população brasileira, por carregar nas costas o estigma da não reprodutividade numa sociedade petrificada na mitologia hebraico cristã, deve ser caracterizada como uma minoria oprimida. E uma minoria, é elementar nos dias de hoje, precisa de voz.”

Fundado por João Silvério Trevisan, Darcy Penteado, Aguinaldo Silva, Peter Fry e João Antônio Mascarenhas, o jornal também trazia pautas das mulheres, como o aborto, que foi tema de capa da edição 11, dos negros e dos índios. Mais do que denunciar crimes de ódio e preconceitos, o Lampião da Esquina buscava dar voz a minorias. A capa da edição 28, por exemplo, trazia como manchete: “Crioulo não é gente. Bicha e mulher tem mais é que morrer”.

Inicialmente a preocupação era tirar a homossexualidade da marginalidade social e abrir o discurso às minorias, no entanto, com o tempo, o jornal se assumiu como parte do “gueto”, como disseram no primeiro editorial, e se tornou mais ousado e polêmico.

Assim como outros jornais alternativos da época, também passou por dificuldades de circulação, boicote das bancas e processos por parte do Estado, que ainda era comandado por militares.

Leia aqui matéria da Fórum sobre o Lampião da Esquina

É sobre essa sua curta, porém notória existência que se desenvolve o registro de Lívia Perez. A Rede Fórum entrevistou a diretora:

Rede Fórum: O que te motivou a querer fazer um documentário sobre o Lampião da Esquina?

Lívia Perez: Quando conheci o jornal me surpreendi com as pautas e matérias que eram extremamente atuais e feitas com uma linguagem deliciosa de ler, repleta de deboche e ironia. Aquilo era muito inteligente e feito de uma forma completamente colaborativa e ousada durante a ditadura civil militar. Todos falam do Pasquim, Opinião, Movimento e outros jornais da esquerda mas nunca se fala do Lampião. Percebi então que a história do jornal também era um ótimo gancho para falarmos de como se desenvolveu a militância das minorias, que prefiro chamar de identidades, durante a ditadura.

RF: Você acredita que quando se fala em resistência durante a ditadura civil-militar a resistência das minorias (mulheres, índios, negros, LGBT) cai um pouco no esquecimento?

LP: Na verdade quando falamos em resistência à ditadura civil-militar o senso comum logo remete à luta armada e à militância organizada em partidos e grupos políticos clandestinos. Ninguém se lembra da resistência e das atrocidades que as identidades sofreram. Isso pois, além da direita, a maioria da esquerda também era muito machista e hetenormativa na época.

RF: Para você é importante um registro audiovisual de uma história que se construiu de forma impressa?

LP: Sim, eu gosto de trabalhar nesse cruzamento entre mídia (impressa, eletrônica, televisiva…) e identidades. No caso do Lampião, acredito que o jornal pautou muito do que ainda estamos discutindo hoje, temas que ainda enfrentam resistência, principalmente com o retorno do conservadorismo. Liberação sexual, movimento feminista, aborto, legalização das drogas, racismo e sobretudo a possibilidade de uma mídia livre que traga perspectivas alternativas aos meios de comunicação de massa que são extremamente concentrados hoje no Brasil. Neste sentido, iniciativas que vemos por aí hoje, principalmente na internet, e nas redes sociais se parecem muito com a proposta libertária do Lampião. Por isso é importante falar do jornal.

RF: Você teve dificuldades de lançar o documentário em circuito comercial? É difícil manter um documentário em cartaz?

LP: Sim, é muito difícil manter um filme independente, ainda mais documentário, no circuito comercial de salas de exibição. As poucas distribuidoras que trabalham com cinema independente estão saturadas. Mesmo assim fizemos distribuição independente em cinemas alternativos em São Paulo, Goiânia, Porto Alegre, Belém, além de um circuito de cineclubes.

RF: Como o público costuma receber o filme?

LP: O público sai muito surpreso pela coragem e ousadia dos lampiônicos (jornalistas e intelectuais que faziam o jornal) e também muito motivado a continuar na luta por direitos das identidades. Além disso o filme é repleto de humor, então as pessoas se divertem muito com as histórias contadas pelos entrevistados.

RF: Quais são os próximos planos de exibição do documentário, onde podemos vê-lo?

LP: O documentário está disponível para compra no NOW, VOD da NET e fará sua estreia televisiva no Canal Brasil, também coprodutor do filme no dia 20/03 às 22h.

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