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“Respiro melhor quando estou fazendo Comunicação Sindical. É a minha vida.”

Dino

 

[Por Aline Souza – Edição: Sheila Jacob] Confira entrevista com Claudia Santiago Giannotti, jornalista, historiadora e coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação. Carioca, nascida em 1962, é destacada jornalista sindical – foi assessora de comunicação da CUT-RJ por 20 anos. Nos anos 90, ao lado de Vito Giannotti, fundou o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), organização cujo objetivo é incentivar e melhorar a comunicação de movimentos sociais e sindicatos.

Aline Souza- Sabemos que você e o Vito Giannotti criaram há mais de 20 anos o NPC. Como surgiu a ideia de criá-lo e o que motivou vocês?
Claudia Giannotti – Vito sempre acreditou que não se faz mudança social sem convencimento de milhões e que sem comunicação não há convencimento. Na década de 1980, entre os livros que escreveu estava “O que é jornalismo operário” (Ed. Brasiliense). Eu era assessora de comunicação da CUT-RJ desde 1988 e vivia o dia a dia e as dificuldades da comunicação da central, dos sindicatos a ela filiados e das oposições sindicais.

Ambos sabíamos, quando criamos o NPC, que a burguesia consegue a adesão da população ao seu projeto político-econômico nas últimas décadas, prioritariamente através da televisão, do rádio, jornais, revistas, livros, cinema, etc, etc.  

O que pretendíamos? Convencer uma geração de sindicalistas e jornalistas sindicais que a esquerda poderia e deveria investir pesado em comunicação.

E como isso deveria ser feito?
1. Com cursos de formação que abordassem e destrinchassem a disputa de hegemonia que existe na sociedade.
2. Com a criação de jornais de esquerda, como é o caso do Brasil de Fato, do qual Vito foi um dos grandes incentivadores.
3. Com a criação de uma agência de notícias da esquerda.
4. Com uma super qualificação dos profissionais da comunicação sindical.
5. Com uma comunicação regular do Sindicato com a base.
6. Com a criação de diversos jornais alternativos, produzidos por moradores de favelas, militantes de movimentos populares e outros grupos que não se sentem representados pela mídia hegemônica.

Assim foi criado o Núcleo Piratininga de Comunicação.


Hoje, o NPC tem três pernas: uma é a formação do movimento sindical, outra é a formação popular, e a terceira a produção de materiais próprios de formação como livros, agendas, cartilhas e cadernos temáticos.

Nos cursos de formação, nós trabalhamos a história dos trabalhadores e das lutas sociais, ideologia, questão de gênero, teoria da comunicação, comunicação alternativa, comunicação popular, comunicação sindical, redação, oratória, vídeo e mídia digital.

Damos cursos para o movimento sindical em todo o país, desde 1994. Umas dez mil pessoas já fizeram nossos cursos. Só em maio de 2017 estivemos em Aracaju (SE), Feira de Santana (BA), Florianópolis (SC) e Curitiba (PR). No total, em maio de 2017 participaram dos cursos umas 200 pessoas.

Para o movimento popular, o curso acontece no Rio de Janeiro todo ano, de março a setembro.

Já trouxemos ao Brasil intelectuais do porte de Tariq Ali, Ignácio Ramonet, James Petras, Francisco Louçã, Pascoal Serrano no curso anual que promovemos.

Aline Souza-  Como era a luta sindical de vocês naquela época?
Claudia Giannotti – Vixe. Uma correria. Tínhamos muito a fazer. O Brasil havia saído de uma ditadura. Tinha-se que reabrir entidades estudantis, retomar sindicatos que estavam nas mãos de pelegos e ex-interventores, criar partidos, legalizar outros que haviam sido proibidos, atuar nas associações de moradores. Criar a CUT. Isso na década de 1980. É a hora das grandes greves, grandes assembleias. Era o povo em movimento.

Na década de 1990, as coisas já começam a mudar. A negociação passa a ser considerada mais seriamente por grande parte dos sindicatos, enquanto na década anterior prevalecia o confronto. Ao mesmo tempo, vive-se simultaneamente uma crise econômica, mudanças estruturais no mundo do trabalho e a aplicação do projeto neoliberal no Brasil. A década de 1990 foi difícil. Vieram demissões, privatizações e as ameaças de reforma da Previdência e Trabalhista.


A empresa Alpargatas, na região da Mooca, em São Paulo, em 1978, tinha 10 mil trabalhadores, vinte anos depois, eram 350.


A comunicação sindical foi central nesse período. Era a única comunicação alternativa à comunicação da burguesia que existia.

Aline Souza- E hoje? Como você vê os desafios da esquerda hoje? É possível construir uma comunicação mais democrática e um ativismo midiático na era da vigilância eletrônica?
Claudia Giannotti – Os desafios da esquerda são enormes e a comunicação com o povo permanece sendo um grande desafio. Está difícil saber como se comunicar hoje. A mesma estrutura de poder, de convencimento, da TV, jornal, rádio, etc, se reproduz na Internet. Sim, nós somos milhões. Eles têm dinheiro para contratar milhões de robôs.  E as pessoas que atuam na Internet têm a cabeça feita por eles, não por nós.

Nos meios de comunicação no Brasil, os movimentos sociais não são ouvidos. Por outro lado, os representantes do capital falam o que querem o tempo todo e assim transmitem sua visão de mundo. Há muita omissão de fatos relativos aos movimentos sociais e sindical.

O ativismo midiático é fantástico. Tem que ser visto como uma grande possibilidade. Agora, quem viu o filme Snowden, que trata da segurança na Internet, sabe o quanto nossa privacidade está invadida e os perigos de se estar conectado à Internet. rs. Hoje já se tornou hábitos as pessoas irem ao banheiro com o celular conectado à internet. Já pensou que desagradável se as imagens são espalhadas por aí?

Aline Souza – Como surgiu a ideia de realizar o 1 º Festival de Comunicação Sindical e Popular? Por que realizá-lo em praça pública?
Claudia Giannotti – Eu sou apaixonada pela comunicação dos trabalhadores. Sou apaixonada pela comunicação sindical. Sem exageros, acho até que eu respiro melhor quando estou fazendo uma produção para um sindicato.

Eu quis fazer uma homenagem a essa produção, aos jornalistas que fazem esse material, aos comunicadores que fazem os jornais de bairro e aos sindicatos que acreditam na comunicação como instrumento para espalhar valores como direitos dos trabalhadores, solidariedade, justiça, igualdade. O que há de belo e bom na humanidade.

Menos de dez famílias recebem do Estado outorgas de rádio e TV e transmitem conteúdo jornalístico e cultural a partir do olhar dos dominantes, sem espaço para as múltiplas vozes existentes na sociedade. Chegam a mais de 90% das casas todos os dias. A Comunicação Popular, seja ela feita nos sindicatos ou nos bairros, é o contraponto.

E não há, para mim, homenagem maior do que mostrar o seu amor por uma pessoa ou um projeto para todo mundo. A Comunicação Sindical é meu projeto de vida. Por isso quis fazer na Cinelândia. Para que as pessoas que passassem vissem quanta coisa boa e bonita é produzida em sindicatos e em favelas. Foi um grande sucesso. O pessoal da comunicação alternativa no Rio estava todo lá, praticamente.

É importante destacar ainda que, embora haja no movimento social vozes que defendem que a imprensa está ultrapassada e que se deve investir nos meios digitais, eu defendo o contrário. Acredito que os jornais, panfletos e revistas são os melhores meios para se chegar perto das pessoas e conversar com elas. Quando digo isso, revelo que entendo que a atuação política dos movimentos sociais deva se dar junto às pessoas diretamente, no contato corporal, olhos nos olhos, em reuniões nas favelas, bairros, locais de trabalho, sindicatos. Embora saiba que não dá para conversar com cada um dos trabalhadores brasileiros. Precisamos de meios massivos, obviamente.

Agora, no mundo de hoje não se pode apostar só no jornal. Seria burrice. A disputa tem que ser feroz também na Internet. E eu aposto no Youtube. As pessoas no Brasil gostam de TV.

Aline Souza – Como você vê o protagonismo feminino hoje? Você acredita que as mulheres tenham um papel preponderante na transformação social?

Claudia Giannotti – O protagonismo feminino aumenta. Estamos em todas as profissões. Podemos estudar as mesmas disciplinas que os homens estudam, votar, trabalhar sem autorização do marido, escolher a profissão, se divorciar, sair, viajar sozinha, se candidatar, se eleger.

A ideia da mulher submissa aos homens, que eram responsáveis por manter o lar, não cola mais. Alguns tentam, mas está difícil de segurar essa onda sem se tornar ridículo. As mulheres são chefes de família. Até nas prisões o número de mulheres cresceu muito no últimos anos.

Mas… (sempre tem um “mas”). Ainda somos filhas de uma sociedade que delimita onde a mulher pode atuar e escolhe os terrenos em que pode atuar o homem, como nos ensina Eliete Saffioti (SAFIOTTI, 1988, p 8).

E temos dados assustadores. As altas taxas de feminicídio colocam o Brasil em 5º lugar no ranking de feminicídios no mundo,  com uma taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).  E temos um caso de estupro a cada onze minutos, cinco espancamentos a cada dois minutos e 179 denúncias de agressão por dia. Sem falar de sequestros de mulheres para a prostituição.

Aline Souza-– Claudia, você é feminista?
Claudia Giannotti – Sim. Me descobri feminista tardiamente, só agora em 2015 quando Vito Giannotti, meu marido, morreu de um enfarte. Fui obrigada a assumir funções que eram dele no Núcleo Piratininga e uma delas foi exatamente o feminismo, que era ele quem cuidava. A libertação da mulher para Vito era tão central quanto a questão de classe. Assim comecei a estudar as feministas e descobri um universo muito profundo. Me encontrei. Decidi que era isso que eu queria ser e hoje afirmo com orgulho que, ainda que timidamente, faço parte do movimento feminista.

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