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Era de devastação do trabalho é de escala global

23º Curso Anual do NPC – Cobertura do Terra Sem Males

 

Todos os freios impostos pelos trabalhadores ao capital foram retirados

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Para promover uma reflexão sobre a nova configuração da classe trabalhadora no Brasil, o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) convidou a historiadora da Fiocruz Virgínia Fontes, os professores Ricardo Antunes, da Unicamp, e Mauro Iasi, da UFRJ, e o coordenador do MTST, Guilherme Boulos.

Com abordagem marxista da mesa “A classe trabalhadora no século XXI” sobre a história (e conceitos) da classe trabalhadora, Virgínia situou como os trabalhadores se constituíram em classes operárias separadas, pelo capitalismo, em produtivas e improdutivas, em que quem define o trabalho é o capitalismo, a capacidade de gerar mais valia, e não a atividade, o produto do trabalho, mas o lucro. “O trabalhador é movido pela fome, pela necessidade de subsistência, pela condição de depender da força de trabalho para a própria existência. O conceito não se restringe a quem está empregado. Essa é a massa da classe trabalhadora”, explicou.

As relações de trabalho no Brasil atual se caracterizam, com as alterações na CLT, pela retirada de todos os freios impostos ao capital pela luta social, pela luta dos trabalhadores, que são os direitos conquistados e anteriormente estabelecidos, disse Virgínia.

Outra característica explorada pela historiadora é que a homogeneização da classe trabalhadora é produto do capital, pela subordinação, e não pela construção de igualdade via coletividade ou identidade comum. E essa condição promove intensa fragmentação entre os trabalhadores que se separam entre quem tem trabalho e quem não tem, gera conflitos entre quem tem direito e quem não tem (como por exemplo, terceirizados sem acesso aos mesmos direitos). “Temos que perceber onde essas condições aparecem como sofrimento”.

Para o professor Ricardo Antunes acabou a era da conciliação de classes. “Entramos na era da devastação do trabalho em escala global e isso nos obriga a pensar quem é a classe trabalhadora, no que é novo”. O primeiro diferencial que se consolidou no século XXI é o enorme proletariado do setor de serviços. “A tragédia nova do nosso tempo vai da terceirização à intermitência, que é o contrato zero hora”. Antunes apresentou diversas experiências de relações de trabalho existentes no mundo, todas elas precarizadas, como na Índia, na China, em países da Europa, nos Estados Unidos.

Mauro Iasi iniciou sua fala questionando se com essa nova configuração ainda faz sentido pensar em consciência de classe. Ele citou pensadores e alguns recortes teóricos de estudos sobre a classe trabalhadora para situar que a reconfiguração é promovida por processos de movimentos e que no momento temos indivíduos isolados, que não formam coletivos, se relacionam com coisas e essas características são perceptíveis nas redes sociais. “Condição de pluralidade de solidões e coletiviza a vida. São elementos da forma atual do capitalismo. O que junta as pessoas e as coloca em movimento é o capitalismo, a opressão do capital”.

O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, reforçou que a mudança na classe trabalhadora está atrelada à mudança da estrutura produtiva e esse processo teve consequências na organização da classe trabalhadora e ao fenômeno de políticas neoliberais que atuam para fragmentar e dividir.

Boulos explicou que os movimentos sociais populares absorvem trabalhadores a partir da dificuldade de articular identidade coletiva em locais de trabalho fragmentados, formando coletivos de resistência que se organizam em pautas da territorialização, como o MTST, formada “por uma população trabalhadora que não consegue pagar aluguel”. A Ocupação Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo, por exemplo, é formada majoritariamente por trabalhadores informais da construção civil e por ex-químicos e ex-metalúrgicos da região do ABC, “uma legião de operários qualificados” (os dados serão apresentados pelo Dieese dia 7 de dezembro).

Ele propõe unidade entre movimentos de esquerda, sociais e sindicais e com o conjunto da base social trabalhadora como articulação necessária para reverter os retrocessos. “Trabalho de base é escutar, acolher as necessidades imediatas de luta e as reivindicações básicas dessas pessoas”, finalizou.
A mesa foi realizada nesta sexta-feira, 24 de novembro, durante o 23º Curso Anual do NPC, que será realizado até domingo (26), no Rio de Janeiro.

Por Paula Zarth Padilha
Foto: Annelize Tozetto/Revista Vírus
Terra Sem Males

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