Zuzu Angel, em uma das fotos expostas na "Ocupação Zuzu"

Zuzu Angel, em uma das fotos expostas na “Ocupação Zuzu”

Por Aguirre Talento de Brasília 

Em seu segundo depoimento à CNV (Comissão Nacional da Verdade), o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra afirmou nesta quarta-feira (23) que um coronel do Exército esteve na cena do acidente de carro que matou a estilista Zuzu Angel, em 1976, e que a morte dela foi provocada pela ditadura militar. Foi a primeira vez, segundo a Comissão da Verdade, que um agente da ditadura admitiu publicamente a possibilidade de atentado contra Zuzu.

De acordo com Guerra, o coronel Freddie Perdigão confidenciou ter ficado preocupado pois tinha sido fotografado próximo ao acidente. “Ele [Perdigão] narrava para mim que tinha planejado, obedecendo ordens, a simulação do acidente dela, e que estava muito preocupado porque havia sido fotografado e achava que era a perícia que tinha fotografado sem querer”, afirmou Cláudio Guerra, no depoimento.

Em seu livro, Guerra já havia apontado a possibilidade de assassinato de Zuzu Angel. Em 1998, uma comissão especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça já havia reconhecido, com base em um novo laudo sobre o acidente, que ela foi vítima de atentado político.

Ainda sobre o caso, o ex-agente da ditadura apresentou à comissão uma foto, supostamente de Perdigão no local, porém a foto estava recortada só para a figura dele e distorcida por ter sido ampliada, impedindo a identificação exata do cenário. A imagem maior deve ser entregue posteriormente à CNV.

Hoje evangélico, Guerra lançou um livro em 2012 revelando suas ações sob ordem do regime militar. Diz-se arrependido e tem colaborado com a Comissão da Verdade com informações. “Eu não sou dedo duro, estou buscando trazer a verdade para poder uma parte negra da nossa história ser passada a limpo”, disse o ex-agente, que também atuou para o SNI (Serviço Nacional de Informações).

O coordenador da Comissão da Verdade, Pedro Dallari, afirmou que essas informações se acrescentam a “outros elementos” obtidos pelo órgão que indicam que o acidente da estilista foi planejado. “Temos outros elementos que nos permitem ir convergindo para essa conclusão do assassinato da Zuzu Angel. Você não forma convicção a partir de um único elemento, é um indício, mas há alguns outros elementos que estamos pesquisando. Vai nessa direção e faz todo sentido”, disse Dallari.

Zuzu Angel era mãe de Stuart Angel, militante do grupo guerrilheiro MR-8 preso em 14 de maio de 1971 e até hoje desaparecido. Com seu desaparecimento, Zuzu Angel fez uma mobilização nacional e internacional em busca do filho, tornando-se uma figura incômoda ao regime militar.

“Até hoje as Forças Armadas insistem em negar que Zuzu Angel tenha sido vítima de um assassinato”, afirmou Dallari.

O coronel Feddie Perdigão, morto em 1997, é apontado como torturador da Casa da Morte de Petrópolis. Guerra afirmou que Perdigão lhe entregava corpos para serem incinerados em uma usina em Campos dos Goytacazes (norte do Rio de Janeiro), para que não fossem mais encontrados. No depoimento, Guerra relatou 13 casos de pessoas incineradas por ele, por ordens do regime militar.

QUEIMA DE ARQUIVO

Guerra também afirmou que os assassinatos do coronel Paulo Malhães em abril, pouco depois de assumir torturas à Comissão da Verdade, e do coronel Julio Molina em novembro de 2012, que também atuou na ditadura, foram queimas de arquivo.

Ele disse, porém, não ter informações concretas que apontem isso. “Eu creio, não só a morte do Paulo Malhães como do coronel Molina, que morreu no latrocínio no Rio Grande do Sul, foram execução, queima de arquivo. É o mesmo modus operandi que nós usávamos no passado: simular um assalto, simular um acidente”, afirmou Guerra.

No caso de Malhães, a Polícia Civil concluiu que o caso foi latrocínio –foi morto para roubo de suas armas, que seriam revendidas.

Guerra relata que há um mês iria ao Rio de Janeiro e um amigo lhe avisou para não ir, porque seria morto em uma simulação de bala perdida. Mas ele negou oferta de proteção feita pela Comissão da Verdade. “Se hoje eu morrer, glória a Deus, eu tirei tantas vidas, né?”.