[Por Gizele Martins] “A década do medo: mídia, violência e UPP” foi um dos temas mais esperados pelos participantes do Curso do NPC, já que o tema violência não sai das páginas dos jornais cariocas, principalmente nos últimos dias. No início, a coordenadora do NPC Claudia Santiago, que mediou a mesa, falou de quando começou a perceber que a luta do trabalhador, do sindicato, era também a luta da favela. “Fui cobrir um protesto feito por moradores do Morro do Borel há sete anos quando a polícia assassinou diversos moradores daquela favela. Um deles era o filho de Maria Dalva da Silva, que hoje milita para que outras mães não sofram o mesmo. Naquela manifestação não vi nenhum sindicalista, e isso me fez perceber que o sindicato deve participar da luta do povo”, disse Claudia. Logo depois de sua fala, Maria Dalva foi homenageada pela sua força e luta ao som da música Pedaço de mim, de Chico Buarque. “Eu não perdi o Tiago, apenas o devolvi para Deus!”, declarou.

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Orlando Zaconne, Pedro Strozenberg, Claudia Santiago, Márcia Jacintho, José Arbex e MC Leonardo

Zaccone: Desvincular a favela do crime é a solução!

O delegado Orlando Zaccone alertou que é preciso que os jornalistas tenham um olhar crítico sobre o tema que envolve a favela, a violência e o crime. “Os jornalistas e toda a sociedade precisam desvincular a favela da violência e do crime. É necessário também fazer resgates históricos e diferenciar cada acontecimento”, disse. Ele também aponta que, para a favela deixar de ser criminalizada, a saída é resgatar os fatos e desvincular todo o fenômeno da desigualdade social da política de segurança pública. “Não cabe à polícia criar ordem, a função que a polícia tem é a de manutenção. A desordem existe porque há uma sociedade desigual”, concluiu.

Márcia Jacintho: Um olhar próximo da realidade

“Tem muita gente aqui que acredita no que a televisão mostra, mas tem muita gente aqui que não vive o que a gente vê na TV. Tem gente que acredita que aquele corpo que desceu do morro foi um traficante. Já está se banalizando a vida e eu fico indignada com isso”. Essas são as palavras da moradora do Complexo do Lins, Márcia Jacintho, mãe de um adolescente vítima da violência policial do Rio de Janeiro. Sua indignação contagiou todos os quase trezentos participantes que lhe assistiam. Márcia contou a experiência de ter investigado sozinha o assassinato do filho, fato que não recebeu atenção merecida já que se tratava de um favelado. “Sou negra, pobre e moradora de favela, mas também sou sociedade e exijo respeito. Tive coragem de descer o morro para investigar o caso sozinha e limpar o nome do meu filho”, disse. Além de enfrentar a dor de ter perdido um filho, Márcia teve que encontrar coragem para provar para o mundo que os direitos humanos precisavam valer também para o seu filho. “Eu nunca dependi do Estado para dar o leite aos meus filhos, mas uma bala tirou a vida de um deles”, concluiu.

José Arbex: A polícia é violenta porque a sociedade é

Para o jornalista José Arbex, a polícia só é violenta porque a sociedade é violenta e aplaude as barbaridades feitas dentro das favelas. De acordo com ele, existe uma classe média e parte do povo pobre que apóiam a violência. “Vi uma entrevista que dizia que o Rio vive numa guerra e que o povo deve cooperar e ajudar a polícia. Como é possível assassinar milhões de pessoas e depois dizer: ‘eu não sabia disso’?”, completou. De acordo com o jornalista, a responsabilidade da crença de que a favela é criminosa e de que é preciso resolver a desigualdade social com violência também é dos jornalistas. “Não é possível, não é admissível que o sindicato não coloque em pauta a favela, o morticínio. Se tivesse uma resistência organizada no país, não falariam isso do povo na televisão. Estamos quietos, estamos calados. Quando os favelados se levantarem e falarem, ‘chega’, é aí que vai acontecer a revolução. Não é no sindicato, não é o jornal sindical. É na favela”, finalizou.

Pedro Strozenberg: Estamos numa democracia, ela precisa ser radicalizada, mas ela existe

O Subsecretário de Direitos Humanos do Estado, Pedro Strozenberg, teve papel essencial na mesa. Ele trouxe explicações sobre o que é a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e disse acreditar na UPP Social, mas que ela deve ser feita de dentro da favela para fora, pensada e realizada com a sociedade civil. “Esta é uma democracia incompleta, que precisa se radicalizar. Vejo a UPP como um caminho de transição, são passos. Acho que hoje temos uma polícia diferente do que tínhamos há 15 anos. A polícia está passando por uma transformação interna”. Segundo ele, a presença do Estado na favela tem sido a polícia, mas na verdade deveria ser a educação, a saúde, o lazer. Para ele, o desafio é criar mecanismos que envergonhem o policial em suas práticas ilícitas, e a UPP Social pode ser uma possível mudança. 

Mc Leonardo: Chega da favela chorar!

Para Mc Leonardo, presidente da Associação dos Profissionais e amigos do Funk (Apafunk ), o Rio está vivendo o resultado da criminalização da favela, pela qual tudo se resolve com a violência. “Se esta prática que acontece há décadas funcionasse, de entrar nas favelas e massacrar todos, o problema da violência e do crime organizado já teria sido resolvido. As ações nas favelas não podem ser imediatas. O que o Estado faz é colocar na favela carros blindados para acalmar a classe média. Nós somos vítimas ou somos culpados?”, questionou. Para ele, a mídia tem papel fundamental nisso tudo, já que ilustra o pobre, o negro e o favelado sempre como marginal. Segundo ele, para mudar essa história é necessário que o povo participe das reuniões de todas as secretarias, que se junte a outras lutas, a outras resistências.