Por Leandro Uchoas

Os milhares de cariocas que se dirigem à Central do Brasil no final da sexta-feira, 13 de março, surpreenderam-se com um grande ato contra o “Choque de Ordem”. O protesto contou com a presença principalmente de lideranças comunitárias, camelôs, militantes de partidos de esquerda, estudantes e professores universitários.

Implementada em janeiro pelo recém-empossado prefeito Eduardo Paes (PMDB), com o suposto objetivo de “combater a desordem urbana e a ilegalidade”, a medida estaria funcionando mais como uma intensa repressão às ocupações e ao trabalho informal.

“A gente não está mais conseguindo trabalhar. E por conta disso as pessoas começam a passar muita necessidade”, acusou Maria, liderança do Movimento Unido dos Camelôs presente no ato. “Infelizmente, temos casos até de pessoas que conseguiram sair do tráfico, indo trabalhar na rua, e agora estão voltando”, lamentou.

Vladimir Seixas, diretor do celebrado documentário “Hiato”, levou aos manifestantes cópias de seu novo curta: “Choque”. Este documentário é o resultado de um projeto de investigação do cotidiano dos camelôs, cujo nome faria uma conexão com o estado de choque dos trabalhadores informais frente à repressão estatal.

Os protestos mais veementes eram dos moradores de ocupações. Acusa-se a prefeitura de utilizar a Defesa Civil para reprimir de duas maneiras: ora com ameaças cordiais, ora com violência física. “Os técnicos visitam as comunidades alegando que uma marquise está com problema e pedem pra sair. Não sabem que a gente tem base legal para morar? Temos consultoria do CREA, do Sindicato dos Engenheiros, dos Arquitetos. Agora vai dizer que não é seguro? Devem estar muito preocupados com a gente”, contou Mantes, morador da ocupação Chiquinha Gonzaga.

Os manifestantes acusaram a mídia comercial de complacência com o “choque de ordem”. A defesa da medida pelos veículos seria o sustentáculo da repressão. “A classe média está, como sempre, apoiando. Os jornais dão manchetes favoráveis todos os dias”, disse Ana Paula Morel, do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UFRJ.

Em fevereiro, o Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Rio de Janeiro já havia realizado uma audiência com lideranças de comunidades ameaçadas de despejo e representantes de camelôs. Na ocasião, em auditório lotado, houve inúmeras denúncias de maus tratos, especialmente a moradores de ocupação e camelôs.

Cientistas políticos avaliam que a medida funciona como uma espécie de marketing. Eduardo Paes teria criado uma marca capaz de distingui-lo do período de dezesseis anos em que a prefeitura foi ocupada por César Maia ou aliados, visto hoje como negativo por grande parte da população carioca.

Paes também teria o objetivo de se reconciliar com a classe média, que votou massivamente em Fernando Gabeira (PV) nas eleições para a prefeitura. O prefeito eleito pelas classes mais desfavorecidas da sociedade seria, hoje, o mesmo que as reprime com o “choque de ordem”.