Numa complexidade e aspereza de temas, os convidados do NPC trouxeram dados, conceitos e experiências para a comunicação sindical e popular
Rosângela Ribeiro Gil | Jornalista – NPC
No dia 6 de dezembro, os/as participantes do 31º Curso Anual do NPC discutiram a extrema-direita e o imperialismo, o planejamento e a ação em termos de comunicação da classe trabalhadora. O primeiro tema contou com as palestras dos professores Virgínia Fontes, Rodrigo Sá Neto, Juliane Furno e Maria Júlia Gimenez e a ativista e comunicadora Gizele Martins.
Virgínia fez um resgate de grandes e importantes lutas da classe trabalhadora, como as greves dos metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) marcadas por intensas lutas trabalhistas, com destaque para o Massacre de Volta Redonda em novembro de 1988, quando o Exército reprimiu violentamente os trabalhadores, resultando em três mortes, após paralisações anteriores como a de 1984 e 1987, com o objetivo principal de equiparação salarial e melhores condições de trabalho, eventos que são marcos na história sindical brasileira e na luta por democracia.
| Paralisações na CSN |
| Greve de 1984 Em 1984, ocorreu uma greve geral de grande relevância, marcada por 45 reivindicações dos trabalhadores. O principal foco desse movimento era obter a equiparação salarial com a Cosipa, tornando-se um marco para o sindicalismo da época. A mobilização ganhou grande destaque na mídia, evidenciando a força do movimento operário. |
| Greve de 1987 A greve de 1987 ficou conhecida pela aplicação da estratégia do “arrastão”, na qual os trabalhadores paralisavam diferentes setores da usina de forma coordenada. Esse período foi marcado por intensa presença militar e tensões acirradas, culminando na ocupação das instalações pelo Exército. Esses acontecimentos prepararam o ambiente para os conflitos que se seguiriam em 1988. |
| Massacre de Volta Redonda (1988) O episódio mais grave ocorreu em novembro de 1988, quando trabalhadores em greve na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foram confrontados pelo Exército e pela Polícia Militar dentro da fábrica. A repressão violenta resultou na morte de três metalúrgicos, tornando o Massacre de Volta Redonda um símbolo da luta por direitos e da resistência diante da repressão. |
Virgínia citou trabalho acadêmico que analisou as greves da CSN sob a ótica da organização operária e do “poder popular” na cidade. A pesquisa é de Marcos Aurélio Ramalho Gandra é “Cidade ‘vermelha’ do Aço: greves, controle operário e poder popular em Volta Redonda (1988-1989)” – acesse aqui. Também no resgate histórico, a historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) comentou as lutas das favelas antes do golpe empresarial-militar de 1964. “É a partir dos anos 1990, que há a criminalização dos movimentos nas favelas e a ascensão da milícia e do tráfico. Também vamos ver as organizações de bairros ligadas à esquerda serem dizimadas pela especulação imobiliária, citando o caso específico de Rio das Pedras.
Rio das Pedras é uma grande e populosa comunidade na Zona Oeste, na cidade do Rio de Janeiro. É conhecida por sua cultura nordestina vibrante, economia local forte e por ser um dos focos de atuação de milícias, sendo uma das maiores do Brasil, vizinha a bairros como Itanhangá e Jacarepaguá, com uma história ligada à migração nordestina na década de 50 e ao aterramento de uma área pantanosa.
Virgínia pontua:
“Existe uma classe dominante, uma burguesia e uma das investidas importantíssimas foi neutralizar as formas de organização locais nas favelas. Tem um livro maravilhoso do Marco [Marques] Pestana sobre as organizações nas favelas entre as décadas de 1950 e 1960. Naquela época, ele já identifica um processo de tentativa de atuação burguesa nas favelas do Rio de Janeiro antes de 64 e a luta dos favelados também nesse período. Como esse enfrentamento era praticamente diferente. Pois bem, a partir dos anos 1990, o que vai acontecer vai ser a criminalização desse trabalho nos bairros, não apenas nas favelas, mas especialmente nos bairros populares, com a ascensão tanto da milícia quanto do tráfico. A milícia vai ser a principal responsável pelo impedimento do trabalho nesses lugares.”
No meio do caminho tem a luta de classes
A questão das organizações de bairro é fundamental quando a classe trabalhadora é fragmentada pelo capital: “Isso é quando pelo menos metade da classe trabalhadora continua subordinada a patrões capitalistas, mas não vê mais o patrão, não conhece o patrão, não tem um espaço onde se possa se enquadrar enquanto trabalhador. Está no Uber, no iFood, tá na tela do computador, em casa.”
Marco Marques Pestana é pesquisador que estuda a história das favelas e a política de remoção no Rio de Janeiro, especialmente nos anos 1960 e 1970, mostrando como essa política, disfarçada de benesse, impactou desproporcionalmente a população negra e parda, removendo comunidades como Praia do Pinto e Catacumba da Lagoa, e revelando o racismo estrutural por trás das ações urbanísticas. Ele também analisou o surgimento de organizações como a União dos Trabalhadores Favelados (UTF) (fundada em 1954), que lutavam contra esses despejos e por direitos, mostrando a resistência local às políticas estatais. O livro referido pela professora Virgínia Fontes é “Remoções de favelas no Rio de Janeiro – empresários, estado e movimento de favelados | 1957-1973, e está disponível aqui.
Outro fator destacado por Virgínia na desconstrução de importantes movimentos sociais, populares e na área sindical está ligado à ascensão de igrejas, principalmente neopentecostais, em “conluio com a burguesia e a milícia. Como ela destacou, isso “é luta de classes” e mostra as contradições inerentes e perigosas desse conluio: “As ações de doação e de assistencialismo vêm do mesmo lugar que vêm as balas”, observou.
Todas as nossas lutas estão em aberto, conforme Virgínia:
“Temos as lutas territoriais, por setores, feministas, antirracista, luta cientista, contra a xenofobia, e temos as lutas sindicais corporativas ou não, são lutas ainda relevantes, e nós temos, sobretudo, o colapso ambiental em curso. Todas as lutas, hoje, são importantes e precisam ter consciência de que estamos lutando juntos.”
Logo de início, Virgínia posicionou sua fala não dentro de uma discussão geopolítica, mas a partir de uma leitura de classes:
“Desde Marx, a gente sabe que a expansão imperialista não é uma opção política, nem mesmo uma opção militar. É um imperativo da expansão do capital, é uma necessidade da expansão do capital. Daquilo que Marx chama, quando, assim como ele trata a expansão do capital, converte o capital numa forma social. Não é mais uma sociedade, é a forma social do capital. Não é abstrato não, a burguesia continua bem concreta. Embora o capital pareça abstrato, a burguesia continua bem concreta e atua bem concretamente. A expansão do capital é necessidade do capital. Sem esses motivos, não é capital. Por isso é uma falácia, uma farsa, falar em capital regenerativo, falar em capital sustentável, porque o que ele [o capital] precisa nutrir uma máquina de expansão de lucro. E, para nutrir essa máquina de expansão de lucro, ele precisa explorar mais minério, explorar mais força de trabalho, explorar nucleares. É uma dinâmica social concreta.”
Todavia, como esclareceu, mesmo que a expansão do capital não resulte de uma opção política, isso não quer dizer que o liberalismo não envolva escolhas políticas. Mesmo sendo uma política deliberada, obedece a instruções, inflexões e limites, ou potência, do capital: “O capital é incontrolável. Nem o maior dos Estados, nem os maiores ditadores podem controlar o capital por muito tempo.”
Juliane Furno, economista e professora da UFRJ, analisou o cenário nacional e mundial à luz de teorias dos seus principais formulares, entre esses Marx e Lênin. Para ela, na compreensão da dinâmica e os movimentos globais do capitalismo nas regiões centrais e periféricas insere-se a questão da luta de classes e das frações de classe. “Concordo muito com a fala da Virginia. Constato a necessidade de a gente fazer sempre uma análise levando em consideração as classes sociais. As classes, as frações de classes, os interesses de classes, para que a gente não caia numa abstração do que é direita, do que é esquerda, do que é Estados Unidos, do que é Brasil, sem essas mediações necessárias”, explicitou.
Ela discorreu sobre imperialismo e alguns elementos do cenário neoliberal político atual, observando que desde os anos 1980 tenta-se apagar o conceito de imperialismo tão fundamental ao capitalismo:
“A gente fala de globalização, a gente fala de norte global, mas a gente perdeu esse vocábulo, que foi muito importante lá na construção, por exemplo, dos partidos sociais-democráticos, depois viraram partidos comunistas na virada do século XIX e do século XX. A categoria imperialismo era tratada não pelos universitários, mas pelos dirigentes das organizações operárias, para tentar entender as transformações pelas quais passava o capitalismo naquela era, para assim melhorar ou pensar a melhor tática, a tática mais adequada para lidar com os dilemas da luta de classe naquele período histórico.”
Como observou, hoje em dia parece que o imperialismo é uma coisa que ficou no passado, “porque a gente se acostumou a entender imperialismo através não do seu conteúdo, não de sua forma”. Na virada do século XIX para o XX, exemplificou, a forma do imperialismo era colonial, como se a expansão capitalista se desse pelo domínio direto de territórios, como ocorreu na África e na Índia. Depois da Segunda Guerra Mundial, “houve um movimento de descolonização na África e na Ásia, dando a impressão de que o imperialismo tinha acabado. Mas o imperialismo não é uma forma, ele é um conteúdo”.
Juliane lembrou a análise de Lênin, divergindo de vários militantes e teóricos naquele momento, de que o imperialismo não era uma política, porque uma “política de gestão do capitalismo pode ser modificada. O capitalismo pode ser neoliberal, pode ser intervencionalista, ainda assim é capitalismo. Então o imperialismo não é uma política”. O capitalismo, prosseguiu Juliane, tem essa tendência à concentração, à centralização de capital, a criação de grandes monopólios:
“O capitalismo tem essa tendência de expropriação do próprio capitalista, pequeno, uma espécie de fagotização dos capitais, a unificação de grandes capitais que precisam se expandir. Então o imperialismo é uma fase própria, uma lógica própria imprescindível no capitalismo, nessa fase monopolista em que ele se encontra. E ele é, talvez, para tentar encontrar uma forma resumida e didática, é um exercício de dominação política, militar e econômica dos países periféricos. Isso se dá através do poder imperialista, a recorrência periódica, as guerras. Isso se dá através das formas de dominação políticos, aparelhos de dominação política, a interferência direta na política, em autonomia dos Estados nacionais periféricos.”
Fundamentalismo: o ovo da serpente
Rodrigo de Sá Netto, professor da UFRJ e autor do livro “O partido da fé capitalista: Imperialismo religioso e dominação de classe no Brasil”, discorreu sobre reacionarismo cristão estadunidense e neofascismo no Brasil e no mundo:
“O objetivo da minha fala, da minha exposição, vai ser mostrar como essa ressurgência contemporânea do fascismo tem como pilar muito importante a proliferação mundial de um constructo ideológico que é o fundamentalismo cristão estadunidense. A expansão mundial dessa forma de reacionarismo acontece com muita força após os anos 1950 e se insere no projeto hegemônico mundial dos Estados Unidos.”
Roberto destacou a importância de começar por entender o conceito de fascismo, formulando uma questão inicial: Quais seriam as principais características desse movimento político, o fascismo? Há, como ele disse, uma vasta elaboração teórica definindo o fascismo, “mas vou usar a de Umberto Eco. Não porque seja a única ou porque é a melhor, mas porque ela é a definição usada por alguns dos principais observadores do fenômeno fundamentalista”. Para Eco, os traços fundamentais do fascismo são:
“O culto à tradição, a rejeição ao modernismo e culto à ação pela ação, a noção de que desacordo é uma traição, o medo da diferença, o apelo da frustração social, conspiracionismo, machismo e o simplismo. Características que a gente pode desdobrar, por exemplo, no irracionalismo, na censura ao pensamento crítico, no racismo e também na xenofobia.”
Paralelo ao movimento fascista, alguns observadores reconhecem a existência do “Cristofascismo”. Quem lançou esse termo foi uma teóloga alemã Dorothee Sölle, em 1970, para descrever a combinação de cristianismo com ideologias fascistas, baseando-se na observação de como as relações entre o Partido Nazista e as igrejas cristãs na Alemanha contribuíram para o desenvolvimento e a ascensão do Terceiro Reich.
Sölle caracterizou o cristofascismo como uma “traição aos pobres” e uma ferramenta a serviço de estruturas de poder autoritárias e opressivas. O termo tem sido amplamente utilizado em discussões contemporâneas para analisar a intersecção entre fundamentalismo religioso e movimentos políticos de extrema-direita em diversos países, incluindo o Brasil e os Estados Unidos.
Conforme Roberto de Sá Netto, o patriotismo é outro traço do fundamentalismo, dentro de uma perspectiva escatológica. Os seguidores desse movimento fascista em convergência com o fascismo creem, apresentou o professor:
“Na sua volta próxima, Jesus Cristo vai fazer na Terra um grande julgamento, o julgamento final, o juízo final. Esse antimodernismo fundamentalista, desde o começo, tem como característica marcante o anticomunismo. Atualmente, o fundamentalismo ganha cara ainda mais fascista em função de um acréscimo teológico, nos anos 1970, que se chama Teologia do Domínio.”
O fenômeno, informou Roberto, foi estudado pelo jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer Chris Hedges, no livro “Fascistas Americanos – A Direita Cristã e a Guerra nos Estados Unidos”:
“É muito importante entendermos esse fenômeno para compreender o que acontece no Brasil. Essa linha de pensamento surge nos anos 1970, inicialmente concebida por um teólogo calvinista John Rosen Zucchini. Em seu livro “As Instituições da Lei Bíblica”, de 1973, ele fala que caberia aos Estados Unidos a fundação mundial de um reino divino na Terra. Um reino baseado nas leis bíblicas do Antigo Testamento. E que todos os países que não seguiam essas leis bíblicas estariam em pecado. E a extensão desse reino poderia ser feita de duas formas: tanto pela disseminação mundial do Evangelho, como também pela batalha, não apenas a batalha espiritual contra os demônios, como também pela batalha física, a guerra mesmo aos países.”
Não à toa, alertou Roberto, várias dessas igrejas têm seus próprios jornais, estão organizados em canais do YouTube, nas redes sociais, inclusive com presença em grandes órgãos de imprensa. Para ela, tantos temas atuais importantes que estão no dia a dia, inclusive na América Latina, sobre fascismo, extrema-direita, neofascismo exigem a comunicação que é uma forma de diálogo, como definiu:
“Temos essa tarefa do diálogo, de poder fazer essa tradução desses assuntos com a comunidade, mas também da defesa nesses processos de múltiplos ataques que estamos atravessando. Então, como a comunicação se posiciona, né? Que é aquilo que comunica, que não comunica, como comunica, é uma tarefa que tem a ver também com a defesa de nossos processos organizacionais.”
Maria Julia apresenta como fundamental, para a ação de comunicação, compreender a realidade em que vivemos, “esse é um primeiro ponto”. Nesse sentido, ela afirma:
“Um segundo ponto é quando falamos de direita, estamos utilizando uma categorização, um termo político para organizar e simplificar o campo político. Simplificação que também está nos estudos acadêmicos e, principalmente, no jornalismo, e que oculta muita coisa. A gente não pode perder o sentido mais profundo do que se vive, para isso, precisamos fazer uma análise histórica para dizer até onde há novidade e até onde a gente não estava percebendo o que estava acontecendo, ou até ridicularizamos algumas coisas.”
Maria Julia endossa a perspectiva de luta de classes para analisar o cenário geopolítico mundial, neste momento, principalmente, reforça, quando “falamos de direita ou de extrema-direita e discutir quais são os interesses que estão em jogo”. Especificamente sobre o Brasil e a América Latina, a comunicado analisa:
“Falando do Brasil e de outros países da América Latina que são territorialmente muito grandes e diversos a nível também regional. Como é que essa direita vai se organizando e qual a historicidade dela, mas também seu caráter internacional e regional. São ofensivas que vêm ocorrendo desde o começo do século XXI e agora avança mais. A perspectiva de análise tem a ver com as transformações capitalista na ordem global e numa reacomodação que se está dando.”
A comunicação pela sobrevivência
A jornalista e comunicadora Gizele Martins trouxe sua experiência concreta de sobrevivente de uma comunidade do Rio de Janeiro, a do Complexo da Maré. Para ela, a ação é urgente e se relaciona à vida. “Cheguei aqui [no NPC] adolescente e hoje estou com 40 anos de idade, “minha luta é pela sobrevivência”.
Autora do livro “Militarização e Censura: a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”, publicado pela Editora do NPC, descreveu como faz e analisa a luta popular:
“Carrego comigo a esperança de um novo mundo, começando pelas favelas, em conexão com a Palestina, mas também com povos de resistência e de resistência no Sul Global e no mundo. A Palestina me ensinou que temos muitas conexões a partir das armas que nos matam, sobre os tanques de guerra e sobre uma militarização internacional. A Palestina me ensinou todos os dias a ter esperança de um novo mundo. A esperança a partir das oliveiras e também a partir do cultivo da terra. E favela é nome de uma planta, vocês sabiam disso? É o nome de uma planta que nasce no sul da Bahia. Então, a conexão entre as favelas e as oliveiras é uma conexão de morte, de tanques, de imperialismo, de uma ideologia de extrema-direita que quer dominar a gente, mas que não consegue.”
Nesse enfrentamento de vida e de morte, Gizele aponta a comunicação como grande ferramenta ideológica e de controle da extrema-direita, mas também de esperança: “A gente vem se comunicando, vem reverberando esse espírito palestino das favelas, das oliveiras em cada território, e é isso que a gente tem que fazer.”
Assim como a Palestina, Gizele observa que a favela da Maré, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, é laboratório de uma política de militarização e de morte. Mas o que não se pode fazer é fingir que a ação de comunicação não é fundamental. Nesse sentido, a comunicadora falou da estreia de peça adaptada do seu livro com jovens e moradores da Maré. Ela fala da experiência:
“É transformar uma comunicação muito dura em outras formas de linguagens, porque a gente tem diversos públicos-alvo, né? Na favela, a gente tem pessoas que sabem ler, pessoas que não sabem ler, a gente tem pessoas idosas, mulheres, homens, pescadores como meu pai, minha avó empregada doméstica, meu irmão analfabeto, temos esses diversos públicos-alvo e a gente precisa se reinventar nessa forma de comunicação e a gente sabe muito bem fazer isso, né?”
Outra novidade, contou ela, é o lançamento do documentário “Cheiro de diesel”, já premiado no Festival do Rio 2025 com dois prêmios, nos cinemas brasileiros, em 1º de abril próximo, “essa data foi escolhida porque a ditadura não acabou nas favelas. A gente ainda vive com chacinas, como a que acabou de acontecer nos complexos da Penha e do Alemão e chacinas a gente vê o tempo inteiro nas nossas favelas”. Ela descreve:
“Na Maré a gente sofre com pelo menos quarenta operações policiais por ano, paralisando quarenta e quatro escolas, postos de saúde, a cultura, a vida comunitária, tendo invasão nas nossas casas. Moradores, homens principalmente negros, tendo que apresentar identidade, carteira de trabalho, o tempo inteiro. Não podem, ainda hoje, andar sem carteira de trabalho, mesmo não tendo emprego, porque precisa provar que é um trabalhador e não um narcoterrorista ou um narcotraficante, um narco alguma coisa, né, como agora querem colocar a gente também nesse lugar, com as desculpas que nós somos esse lugar do marginal, do criminoso, do violento e por isso precisam controlar a gente.”
Sobre o fenômeno religioso nas favelas, Gizele diz:
“As igrejas estão há 30 anos fazendo trabalho de base na favela. As igrejas ocupam o lugar que a esquerda perdeu. As associações de moradores não são mais esse lugar representativo da gente. A gente também é a favor das organizações sociais dentro das favelas, mas do campo da esquerda e não vendidas a financiadores e fundações que estão ali só para maquiar a gente e controlar nossa narrativa.”
Sobre a comunicação comunitária, Gizele Martins observa que ela se na diversidade, na contradição, no diálogo:
“A gente precisa abrir o diálogo, a gente precisa ter paciência nesse lugar. A esquerda tradicional não tem mais essa paciência. A gente tem uma cozinha solidária que funciona na Maré como uma forma de comunicação comunitária, porque não dá mais para falar de segurança pública dentro desse território favelado, como eu falava dez anos atrás, porque eu fui censurada, os comunicadores comunitários foram censurados e são censurados ainda hoje. Para fazer comunicação comunitária precisa ter paciência, fazer formação, fazer comunicação de diferentes linguagens. E uma coisa que estou aprendendo com o documentário “Cheiro de diesel” é alcançar outro público que não quer nem saber da favela. Vejo pessoas saindo chorando da sala de cinema. Às vezes o choro vai durar três minutos, mas eu quero que as pessoas se incomodem com o documentário, porque ele é pesado, porque ele foi feito para públicos de fora das favelas, para a classe média, para os ricos assistirem, e é por isso que ele vai circular a partir de primeiro de abril, no cinema nacional, e eu quero muito que vocês assistam.”