A caravana vai passando e a gente vai olhando com vigilância canina. Iniciada em 31 de julho, a série “Desejos do Brasil” traz Pedro Bial visitando cidades longe dos grandes centros. Começou por São Miguel das Missões (RS). O repórter explica que foi lá que “há mais de três séculos, promoveu-se uma das mais ousadas experiências socialistas da história”. Ele refere-se às missões jesuítas, e diz que tal como “o comunismo”, elas “tinham caráter totalitário”. Mas deixemos um balanço mais geral para adiante. Afinal, serão dois meses de viagem. Por enquanto, vamos levantar alguns aspectos.
O fato é que quando foi anunciada a empreitada no jornal “O Globo” de 25/07, Bial disse que “serão reportagens sobre a nação e não sobre campanha política”. Mas, a viagem começou avisando que termina “até o fim de setembro, às vésperas da eleição”. E que seu objetivo é mostrar “os anseios, os desejos dos cidadãos”. Então, de um lado ficaria a “campanha política” e de outro os “anseios do povo”? A separação entre esses dois termos não é perigoso? Atender aos últimos sem passar pela primeira não seria desestimular a participação política da população? Preocupante.
Pra começar, por que o roteiro do ônibus da Globo não passa por capitais? Por que visita apenas cidades menores? Um palpite é que isso permite abordar os problemas brasileiros de maneira controlada. Cidades menores apresentam contradições menos radicais. São calmas e tranquilas, se comparadas às nossas caóticas metrópoles. Ao mesmo tempo, nelas as pessoas pedem as mesmas coisas que fazem falta nas cidades grandes: segurança, paz, emprego, renda. Reclamam direitos, só que, em geral, não organizam passeatas e manifestações. A contestação assume formas mais conservadoras.
A impressão é a de que a série quer mostrar que o Brasil tem jeito, mas longe das grandes cidades. Portanto, longe dos grandes problemas. Alguns comentaram que a série vai olhar para o “Brasil profundo”. Então, o Brasil das metrópoles seria raso, mesmo com suas contradições tão gritantes? Parece um jeito de tirar os problemas de seus lugares e apresentá-los soltos. Longe dos responsáveis sociais por eles, sejam empresários e governantes, seja a imposíção do pensamento único neoliberal.
Fiquemos atentos por mais algum tempo a essa caravana que passa. Ela promete manipulações muito espertas.
(Por Sérgio Domingues)