Imagens da vida

Sobre Foto Jornalismo Social

Foto e texto de Domingos Peixoto

Que direito tenho eu de invadir sua casa, imortalizar sua dor, e nunca mais vê-lo?

Que direito tenho eu de ficar longo tempo observando-o, e registrar o exato momento em que você rouba o que a sociedade nunca lhe ofereceu?

Que direto tenho eu de ouvir seus gritos e sentir que naquele exato momento você acaba de perder um pedaço da sua alma, e ao mesmo tempo a palavra pai deixa de existir?

Que direito tenho eu de fotografar a sua humilhação, ver seus olhos vermelhos, sentir o cheiro dos gás lacrimogêneo espalhado, e saber que o seu maior desejo é ter uma carteira assinada, um emprego digno?

Que direito tenho eu de olhar para você, capturar sua alma, e perceber que sua vida não melhorou nada desde quando chegou com sua força de trabalho, para construir o meu país?

Que direito tenho eu de ficar feliz quando acabo de saber que ganhei mais um prêmio de fotografia?

O meu direto, a minha dor, a dor de um fotojornalistasocial nunca vai parar nas páginas de jornal. A dor fica com ele, entre negativos, CDs, discos rígidos – fica no seu olhar, fica na sua alma. Ele carrega para sempre nas suas mais íntimas células de seu corpo.

O fotojornalistasocial vai além de seu salário, vai além da pauta do dia-a-dia, vai além, vai sempre além, tentando mostrar o que as pessoas já estão cansadas de olhar e não querem enxergar.

O prazer do fotojornalistasocial é dar voz, é questionar, é mostrar, é despertar, é acordar o sentimento de humanidade que existe dentro de cada um de nós. E saber que através de seus olhos outros olhos enxergaram outras formas de ver a sociedade.