Por Mário Camargo

A greve revela ainda o descompasso entre o crescimento da aviação civil e a infra-estrutura do setor. As companhias brasileiras de aviação, com exceção da Varig, batem recordes de lucro, mas a falta de controladores é evidente. Contratar é preciso. É preciso rever também o planejamento da Anac – Agência Nacional de Aviação Civil.

Mas o episódio levanta questões importantes em relação à sociedade brasileira que merecem reflexão: a cobertura da mídia e a ira dos “camisados”.

Primeiramente é preciso reconhecer que os usuários do transporte aéreo não merecem ficar horas e horas à espera de um avião. São cidadãos e estão pagando por um serviço. É justo que reclamem, que busquem seus direitos.

Não tenho dados concretos, mas uma pequeníssima parcela da sociedade brasileira utiliza o avião como meio de transporte. Mas os “camisados” que podem pagar passagens aéreas mostraram neste episódio como reagem quando estão sob uma situação que os desagrada.

Pistas e aviões foram invadidos. Guichês depredados. Funcionários das empresas maltratados e até violentados fisicamente. As matérias dos telejornais mostraram o vocabulário (encoberto por um bip introduzido na edição das matérias) dos “camisados” quando estão com raiva. Impublicável. A ira da sociedade consumidora está alçando vôos cada vez mais altos.

Os usuários não compreenderam que a operação padrão, na realidade, está cumprindo as normas internacionais de segurança de vôo para que eles mesmos, passageiros, possam estar seguros durante sua movimentação no ar.

A cobertura da mídia nos últimos dias foi um espetáculo à parte. Durante todos os telejornais o espaço dado ao episódio foi imenso. Com entradas ao vivo e o exagero de sempre. Não se ouviu dizer que os usuários eram baderneiros. Não se ouviu dizer que utilizaram de violência e que depredaram os patrimônios público e privado. Nenhuma reportagem reclamou da virulência de alguns passageiros que bateram em funcionários que não tinham responsabilidade sobre o que estava ocorrendo.

Seria injusto esquecer que as matérias falaram que as empresas descumpriram a lei ao não fornecerem hospedagem e alimentação por conta do atraso e dos cancelamentos de vôo, como determina a lei. Disseram e mostraram o sofrimento daqueles que tiveram que dormir nos bancos e até mesmo no chão dos aeroportos.

Mas não me sai da cabeça o recorte de classe das coberturas. Todos os dias milhões de brasileiros utilizam transporte coletivo público para ir e vir do trabalho, para ir e vir da escola, para visitar amigos e parentes. Assim como os poucos milhares de usuários dos aviões.

Quase que diariamente os ônibus atrasam, quebram. As pessoas vão espremidas nas lotações. Os “descamisados” não têm direito à alimentação e muito menos estadia. Muitos não têm o transporte perto de casa e reivindicam isso. Quando param o trânsito, ou queimam pneus para chamar a atenção para o problema são taxados de baderneiros pela mídia.

Os “descamisados” que não têm transporte, que não têm casa e não têm terra para plantar, quando ocupam áreas improdutivas são considerados violentos. Desrespeitam o direito de propriedade. Quando depredam algum patrimônio são considerados bandidos. Mas eles apanham da polícia e das milícias armadas dos donos do capital que utilizam o transporte aéreo.

As milhares de pessoas que dormem no chão todos os dias também não merecem atenção da mídia. Para ela, os pobres podem dormir no chão. Os ricos não. Ninguém merece dormir no chão.

Os prejuízos econômicos causados pelos atrasos e cancelamentos de vôos tentam ser contabilizados pela mídia. São milhões de dólares. Os prejuízos sociais causados pela concentração de renda, pelos lucros dos bancos e das empresas aéreas não está na pauta. Não vende notícia. A Gol, a Tam, Varig e seus usuários sustentam a mídia. Isso é o que importa. A opção da mídia é pelos “camisados”. Os descamisados já são excluídos mesmo. Não dá lucro incluí-los na pauta.