“Eu não seria mais assessor de imprensa nem da minha mãe”
Por Marcela Figueiredo e Rosângela Gil
O jornalista Ricardo Kotscho, que participou da mesa A arte da reportagem e da pesquisa de campo, não escapou das perguntas sobre a sua permanência como assessor de imprensa do presidente Lula. Ele disse que procurou fazer o mesmo trabalho que fez a vida inteira em Redação, “que é apurar a informação e divulgar. A diferença é que numa Redação você apura as informações e escreve para algum lugar. E no governo é apurar e passar para todos os jornalistas”.
Ele admite que o trabalho de repórter de jornal é diferente de um de assessoria de imprensa, mas a natureza, para o ex-assessor de Lula, deve ser a mesma, você tem de ser honesto. “Não importo se numa Redação, numa assessoria de imprensa de um governo ou de uma empresa. Esse é o ponto. Não existe informação absolutamente imparcial, neutra, eu não acredito nesse negócio. Cada um de nós tem a sua preferência, maneira de ver o mundo. Mas você tem de perseguir a verdade factual.
O jornalista continua sendo uma testemunha ocular à frente de uma assessoria de imprensa do Presidente da República? Kotscho respondeu que o seu trabalho de assessor de presidente foi uma grande experiência de vida, ver como o poder funciona por dentro, “confesso a vocês que não é a coisa mais bonita do mundo e não faz bem à saúde, a pressão é muito grande, a conta não fecha. A imprensa está sempre procurando o conflito, a denúncia, a fofoca, a futrica, a briga. E não é função do assessor de imprensa alimentar isso. Então, muitas vezes o jornalista me procurava não para ter uma informação, mas para dizer “olha, fiquei sabendo que tal ministro brigou com outro, me arruma o bastidor aí”. Aí eu falava, isso aqui não é salão de cabeleireiro. Na função que eu estava ali eu tinha de dar informação oficial e correta”.
Perguntado se voltaria a ser assessor de um presidente ou mesmo do presidente Lula, o jornalista respondeu taxativamente que não voltaria. “Eu acho que cumpri o meu papel. Eu não tenho vocação para assessor. Eu sempre gostei de ser repórter. Eu me sentia incomodado. Eu não seria assessor de imprensa mais nem da minha mãe”.
Essa quase “ojeriza” pelo papel de assessor do maior cargo político de um país, se deve, segundo Kotscho aos limites que “você tem. Quando você está fora, você quer tudo do governo, porque o governo faz isso, porque que o governo faz aquilo. Todos nós somos assim, cidadãos do lado de fora. Uma vez lá, você vê que você tem limites e de como é pequeno o ser humano diante das carências da Nação brasileira”.
Ricardo Kotscho afirmou que não foi censurado no tempo em que permaneceu na assessoria de imprensa do governo Lula. “É o seguinte, você numa função dessa, como num jornal também, você tem os limites. Você não tem liberdade absoluta nem na sua casa. Então, o que vale é o velho bom senso. Evidente que eu passo as informações corretas, mas nem todas eu posso passar. Por exemplo, está em discussão o aumento do salário mínimo. Então, uma parte do governo quer aumento “x” e uma outra parte quer aumento “y”. Há uma discussão dentro do governo e enquanto não se decide isso eu não tenho de passar informação nenhuma. Mas censura de me proibir de fazer alguma coisa eu não sofri”.
Kotscho falou também sobre a posição política do jornalista. Para isso fez uma comparação com o tempo em que começou sua carreira. Ele disse que quando começou a trabalhar, diziam que todo jornalista era comunista. Quando surgiu o PT, diziam que todos eram petistas. Hoje ele não diria que todos são tucanos. Logo, a maioria é nada. A maioria não tem posição política. “A maioria é carreirista. Cada um quer cuidar do seu. Há um egoísmo muito grande”. Segundo Kotscho, antes as lutas eram mais coletivas.
Finalizou falando sobre o compromisso social do jornalista. Para ele a maioria dos profissionais não cumpre com esse papel. A maioria trabalha em uma redação sem procurar apurar os fatos, “sentem no ar o cheiro e publicam a notícia sem nenhum compromisso com a verdade”.