Por Sérgio Domingues – A Globo levou ao ar um especial sobre Elis Regina em 28 de dezembro último. O programa até que tinha alguma qualidade. Mostrou momentos importantes da bela carreira de Elis. Alguns parceiros e amigos foram entrevistados, como Gilberto Gil, Jair Rodrigues, Miéle, etc. Houve falhas superficiais, como mostrar interpretações da cantora para músicas de Belchior e Renato Teixeira sem que houvesse pelo menos a identificação dos compositores. Mas surpreendeu um momento interessante em que a atriz Hermila Guedes interpreta Elis dando entrevista a jornalistas e dizendo: “Minha geração talvez tenha mostrado mais a realidade do Brasil desses últimos anos do que as revistas e jornais”. Ela referia-se, claro, às músicas de protesto de Chico, João Bosco, Ivan Lins, Vinícius e outros que furaram o cerco da censura com metáforas, enquanto a grande mídia dobrava-se docilmente às exigências dos generais que ela tinha ajudado grandemente a empossá-los, em março de 64.

Mas, o mais incrível foi a eliminação da TV Record da história de vida de Elis. A emissora foi a responsável pela vinda da gaúcha talentosa para São Paulo para liderar o programa “O fino da Bossa” junto com Jair Rodrigues. Foi a Record que organizou os festivais que revelariam tanto Elis, como Chico, Gil, Caetano, Gal, Milton, Bethânia, Rita Lee e muitos outros. No entanto, a produção da Globo negou-se a dar nome aos bois. No lugar de TV Record apareceu “uma emissora paulista” ou apenas “a emissora”. E os famosos “Festivais da Record” viraram apenas “festivais da época”.

Os tempos são outros. A Globo não hesita em falar de ditadura, tortura, censura, etc apesar de o Grupo Globo ter apoiado tudo isso desde antes do seu começo, ou seja, ajudado a dar o Golpe. Mas, seu monopólio econômico e ideológico não pode ser arranhado. Então, vale tudo, inclusive esconder fatos. Como fizeram muitos ditadores, a Globo faz desaparecer das fotos seus desafetos.