Haroldo Costa: entrevista ao Bafafá 100% Opinião

“Não fique em casa e nem saia do Rio no carnaval”

Haroldo Costa é um dos mais respeitados especialistas em carnaval do País. Carioca de Piedade, acumula uma extensa participação na Folia de Rei Momo há mais de 50 anos, seja como jornalista, escritor, comentarista, jurado ou produtor. Há vários anos comenta os desfiles para a TV Globo.

Em entrevista exclusiva ao Bafafá 100% Opinião, Haroldo Costa faz uma radiografia da folia. Sobre a possível decadência dos desfiles da Marquês de Sapucaí, ele fuzila: “Eu sempre me manifesto contra o derrotismo, o saudosismo e essa visão que muitas pessoas têm de que o desfile da Sapucaí é uma mesmice. Eu não acho. Cada ano tem diferenças, surpresas”. Sobre a explosão de blocos de rua, não poupa elogios. “Eu vejo que é uma maneira de voltar o carnaval que já houve com olhos do futuro. Está se implantando uma nova forma de fazer bloco. Isso é muito bom”.

Para quem ainda está na dúvida se vai ou não ficar no Rio de Janeiro no carnaval, Haroldo dá a dica: “Rapaziada: não fique em casa e nem saia do Rio. O negócio é ir para os blocos, escolas de samba, bares. É botar a alegria para fora e mostrar que temos o melhor carnaval do Brasil e conseqüentemente o melhor carnaval do mundo”, assegura.

Bafafá – Por que você diz que as escolas de samba são veículos de difusão cultural?

Haroldo Costa – Porque elas cumprem uma função muito grande. O Brasil é um país carente de leitores, não só por causa do número de analfabetos, que felizmente está diminuindo, mas sobretudo por causa dos preços dos livros. O livro é um artigo caro para quem ganha um salário mínimo. Isso dificulta a leitura e o conhecimento. Aí é que entra a escola de samba. Ela supre essa necessidade através de seus enredos. Não é só a história oficial que é contada. Depois de 1960, o Salgueiro iniciou uma nova fase privilegiando a história não-oficial do Brasil. Eu diria mais: a história marginal do Brasil através de seus heróis populares que não são contemplados na história oficial. São eles, Zumbi dos Palmares, Chico Rei, Xica da Silva.

Bafafá – O que acha dos sambas compostos por vários autores?

Haroldo Costa – Isso, como tudo, depende. No ano passado, o samba da Vila Isabel tinha no máximo três autores. Em compensação a Beija-Flor tinha quase um time de futebol. Ela adota o sistema da fusão. Se cada samba tem quatro autores, com a fusão são oito autores. Acho que isso não é um mal em si, desde que o samba seja bom e dê resultado para a escola.

Bafafá – Muita gente apostou na decadência dos desfiles da Sapucaí. O que acha?

Haroldo Costa – Eu sempre me manifesto contra o derrotismo, o saudosismo e essa visão que muitas pessoas têm de que o desfile da Sapucaí é uma mesmice. Eu não acho. Cada ano tem diferenças, surpresas. Essa dinâmica é que faz a festa ser o que ela é. Exemplo disso é o Paulo Barros da Unidos da Tijuca, que faz espetáculos maravilhosos e não foi campeão por pouco. Esse ano ele vem pela Viradouro e promete coisas maravilhosas. Isso que é bonito numa escola de samba: você saber que pode acontecer o imponderável, até uma escola de samba se desmanchar na avenida.

Bafafá – E o lado comercial? É só para gringo?

Haroldo Costa – O carnaval hoje é um grande marketing e merchandising. Com a transmissão da TV Globo para 140 países, transformou-se no que se chama Big Bussines, um grande negócio. É um produto em escala mundial que o Brasil vende como uma expressão cultural. Acho que deveria haver a possibilidade de os ingressos serem mais baratos. Você vê o fenômeno que acontece agora com os ensaios técnicos. Isso prova que o povo adora escola de samba e que eles são a grande chance para verem as escolas. Acho formidável.

Bafafá – Você acredita que as marchinhas de carnaval estão voltando?

Haroldo Costa – Acho que isso pode acontecer, mas vai ter que ser produto de mutirão na mídia. Os blocos, por exemplo, ressurgiram espontaneamente. Isso prova que essa reciclagem continua existindo. As marchinhas poderão voltar. A Fundição faz um concurso de marchas. Se as rádios começarem a fazer isso, acho que volta. O Dussek, ano passado, fez uma marchinha maravilhosa. O Kelly é outro que não está parado. Só não têm onde mostrar. Como qualquer carioca, eu sou um grande admirador de marchinhas e estou depositando uma grande esperança nesse ressurgimento.

Bafafá – Falando em ressurgimento. O que acha da volta do confete e da serpentina?

Haroldo Costa – É uma conseqüência lógica. Sempre teve. Pena que não volte o lança-perfume (risos).

Bafafá – E as pessoas fantasiadas nos blocos?

Haroldo Costa – Isso também é outro sinal positivo. O Bafo da Onça, o Cacique de Ramos vêm fantasiados até hoje. De algum tempo para cá criaram as camisetas, o que já é uma forma de fantasia, de dar uma visão uniforme ao bloco. As fantasias despertam também o interesse das crianças. As crianças fantasiadas hoje são os foliões de amanhã.

Bafafá – Como está vendo a explosão de blocos no Rio de Janeiro?

Haroldo Costa – Eu vejo que é uma maneira de voltar o carnaval que já houve com olhos do futuro. Não é um saudosismo. Está se implantando uma nova forma de fazer bloco. Isso é muito bom. Os blocos hoje estão substituindo as bandas. Houve época em que por toda parte tinha uma banda. A banda de Ipanema foi a pioneira e até hoje é um grande evento carnavalesco. Mas os blocos estão substituindo as bandas. Num mesmo bairro têm vários blocos. O bloco não é setorial, ele é de rua.

Bafafá – Qual é a diferença de uma banda para um bloco?

Haroldo Costa – A banda é tão livre quanto o bloco, mas a grande diferença é que a banda vem com sopros e faz um repertório de todos os tempos. Os blocos fazem músicas específicas para si mesmos.

Bafafá – O que acha do Monobloco?

Haroldo Costa – Sou fã, gosto muito do Pedro e de seus meninos. O Monobloco é maravilhoso porque é uma rapaziada que descobriu a percussão como forma de expressão musical. É um trabalho bonito, não é uma porção de gente batendo. Existe uma disciplina, uma forma definida de fazer ritmo. Não é a toa que eles são o sucesso que são.

Bafafá – O carioca tem alguma razão para sair do Rio de Janeiro no carnaval?

Haroldo Costa – Tem. É a razão de não gostar de carnaval (risos). Quem gosta fica. A despeito das notícias da violência (que é inegável), o carioca não renuncia a sua cidade. A festa ficou melhor, mais democrática. Nas ruas, o carnaval tomou o grande impulso, o que é notável.

Bafafá – Como você define o carnaval da Bahia?

Haroldo Costa – É outro tipo de carnaval. Eu sou contra o imperialismo carioca. Cada região tem que ter seu carnaval e não ser abafado pelo modismo de querer copiar o Rio de Janeiro. Houve uma época em que muitos estados faziam escolas de samba também. São Paulo faz uma cópia do carnaval carioca. A Bahia tem um carnaval específico, que é cara deles. Assim como o carnaval de Recife. Acho que essa diversidade é importante para dar esse quadro de diferença entre os estados brasileiros. A festa na Bahia se prende muito aos trios elétricos.

Bafafá – O que você quer dizer quando diz que é um biscateiro?

Haroldo Costa – Sou biscateiro porque trabalho em vários setores. Sou ator, escritor, jornalista, comentarista, produtor. Sou biscateiro. Me chamou, eu estou.

Bafafá – Qual é o recado para os foliões?

Haroldo Costa – Rapaziada: não fique em casa e nem saia do Rio no carnaval. O negócio é ir para os blocos, escolas de samba, bares. É botar a alegria para fora e mostrar que temos o melhor carnaval do Brasil e conseqüentemente o melhor carnaval do mundo (risos).