Por Bruno Zornitta
Adelaide Gonçalves, é militante da esquerda social, historiadora, com interesses de pesquisa e trabalhos publicados na área de História Social, em conexão com História Social das Idéias. Participou do painel “Cultura a serviço de um projeto de sociedade”, no 12º Curso Anual do NPC. É professora da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Aos jornalistas que se empenham em construir uma outra comunicação, voltada para os trabalhadores, Adelaide propõe: “Vamos estudar mais, ler mais o mundo à nossa volta. Vamos aprender fazendo a luta social. Vamos ajudar a recuperar o melhor do vocabulário dos precursores socialistas libertários: solidariedade, apoio mútuo. E, como estamos próximos do 8 de março, nos inspiremos na escrita afiada, na memória de nossas Louise Michel, Mary Wolstonecraft, Flora Tristan, Rosa Luxemburgo, Emma Goldmann e no exemplo das mulheres da Via Campesina que arrancaram as mudas da morte para semear a vida. [12.02.2007]
BoletimNPC- Quando se diz que alguém é “culto”, para o senso comum, há uma referência à cultura dominante. No entanto, existe uma outra cultura, a cultura popular. Qual a importância desta cultura para a transformação social?
Adelaide Gonçalves – Há um rico e vasto repositório de registros da cultura das classes trabalhadoras desde o seu momento de formação. As pesquisas e estudos históricos que vêm se debruçando sobre este campo comprovam esta afirmação. As lutas sociais, de modo geral, produziram suas formas próprias de comunicação e engendraram formas de combate à cultura hegemônica. Para tomar o caso do Brasil, basta que se atente para o rico capítulo da imprensa dos trabalhadores; nascida em meio às transformações que experimentava o século XIX, capitaneadas pela intensa difusão de “idéias novas”, e por aperfeiçoamentos técnicos que encurtavam de forma vertiginosa as distâncias entre as pessoas, a imprensa dos trabalhadores é uma das mais notáveis expressões da vida dos homens e mulheres que tiveram o seu dia-a-dia marcado pelas vicissitudes do mundo do trabalho. Cumpre destacar nesta imprensa suas dimensões de formação, mobilização, educação e combate. No jornal operário, em perspectiva histórica e apropriado em sua dimensão de documento-fonte-memória – é possível recuperar um largo painel do mundo dos trabalhadores e de sua cultura.
É de se notar que as práticas do associativismo estiveram desde logo combinadas aos mecanismos de auto-esclarecimento: escolas, ateneus, conferências, teatro social, formação de bibliotecas populares, cinema, hinos, estandartes, poesia social, salas de leitura, traduções, bandas de música, – um vasto índice da resistência criativa e da experiência da classe construindo uma contracultura da resistência, da criação cultural como exercício da crítica anticapitalista.
Pouco a pouco, o mosaico das pesquisas vai compondo um largo inventário dessas práticas sociais , inclusive para além dos locais de trabalho, pois é certo que outros espaços de convívio e troca de idéias vão se fazendo. Sinais desta construção no campo da cultura estão presentes nas livrarias, sebos e tertúlias literárias, na aula noturna, na conversa nos cafés, nas discussões em volta da mesa do botequim, nos balcões das bodegas e mercearias, na ida ao mercado e às feiras, na conversa trocada, atrás do balcão, com um ou outro caixeiro mais letrado, nas quermesses. São lugares/momentos, em que a camaradagem vai sendo forjada nos bancos de praça, em volta do coreto, no passeio público, na ida dominical à missa e na visita aos parentes, quando se atualizam as conversas. Na procissão no dia do santo da devoção, nos comícios, nos meetings, nas demonstrações do primeiro de maio, nos festivais operários, na ida ao cinema, nas representações dos grupos amadores de teatro, na formação dos times de futebol. Enfim, são lugares/momentos, repito, de socialização, congraçamento, construção de identidades, afirmação de diferenças e, eventualmente, de (in)formação sobre o mundo que existe além do que a vista alcança.
BoletimNPC- E a cultura de massa, você acredita que ela serve hoje como instrumento de dominação? Seria correto afirmar que o Brasil é um país ocupado culturalmente, que existe um imperialismo cultural?
Adelaide – Basta que se analise em perspectiva de longa duração a história trágica da dominação européia desde o século XVI neste vasto continente. Bem vistas as coisas, terá sido a imposição, a rapina, a destrui