Capa Epoca

[Por Sérgio Domingues] A grande mídia foi quase unânime no elogio à mortandade no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A edição de Veja de 4 de julho de 2007 justificava o ataque como “A guerra necessária para a reconstrução do Rio”. A revista Época, de 29 de junho, trouxe uma capa digna dos piores filmes de Rambo. Um soldado leva num braço o fuzil e na mão um charuto. Atrás dele, três corpos estendidos. Sob o título “Um ataque inovador”, a legenda explica que se trata do inspetor Leonardo da Silva Torres. Conhecido como “Trovão”, o texto interno diz que o inspetor:  

“…encarna não só a batalha no Alemão, mas a força policial inovadora que hoje combate nos morros. Formado pela Swat americana e pelo Centro de Inteligência da Marinha Brasileira, Torres integrou a patrulha avançada de ocupação do Alemão. Seu uniforme de campanha e o charuto que mantém aceso mesmo em serviço deram uma cara nova aos agentes da invasão. Mais que isso, eles fizeram de Trovão alguém com quem a população pode se identificar”. 

Um soldado carniceiro. Este é o novo herói que a grande mídia inventou para a população. E ainda sugere que os heróis antigos seriam os traficantes. Ainda assim, a comparação tem suas razões. Os dois tipos de “herói” se impõem pelo medo. E estão a serviço do bom funcionamento do sistema. Uns viabilizando a entrega da droga ilegal com enormes lucros para os de pele branca e endereço no asfalto. O outro, com funções já suficientemente esclarecidas. É o povo da senzala apavorado entre tais “heróis” e governantes bem adaptados à casa grande.