Tariq Ali
Quando aceitei participar na Feira do Livro de Turim —já tinha feito isso anteriormente— não tinha nenhuma idéia de que Israel e seu 60º aniversário seria o convidado de honra. Também é o sexagésimo aniversário do nakba, termo usado pelos palestinos para denominar o desastre que enfrentaram nesse ano, quando foram expulsos de seus povoados, alguns assassinados e as mulheres estupradas pelos colonizadores. Estes fatos estão fora de discussão.
Então, por que a Feira do livro de Turim não convidou o mesmo número de palestinos? 30 escritores israelenses e 30 escritores palestinos (sim, há tantos, eu garanto, e são ótimos poetas e romancistas)
A cultura aparece cada vez mais atrelada às prioridades políticas do eixo EUA/UE. O Ocidente é cego diante do sofrimento palestino. A guerra de Israel contra o Líbano e os relatórios diários do gueto de Gaza não comovem a Europa oficial. Na França, como já sabemos, é impossível criticar Israel. E na Alemanha também, por razões especiais. Seria triste que a Itália seguisse a mesma trilha. Quantas vezes será necessário repetir que as críticas feitas às políticas coloniais de Israel não significam o exercício de anti-semitismo? Aceitar que sejam é sucumbir servilmente à chantagem utilizada pelo establishment israelense para amordaçar seus críticos.
Existem alguns valentes críticos israelenses, como Aharon Shabtai, Amira Hass, Yitzhak Laor e outros, que não estão dispostos a que suas vozes sejam silenciadas desta maneira. Shabtai recusou-se a participar desta feira. Como poderia eu agir de outro modo?
Uma coisa é estar de acordo com o direito de Israel de existir, o que defendo e sempre defendi. Mas confundir esse direito de existência com um cheque em branco concedido a Israel para fazer o que bem quiser com os que foram expulsos, aos quais trata como se fossem subumanos (Untermenschen) é inaceitável.
Pessoalmente, sou partidário de um estado Israel/Palestina em que todos os cidadão sejam iguais. Muitos já me disseram que isso é utópico. Pode até ser, mas trata-se de uma solução a longo prazo. Devido aos temas das minhas novelas, freqüentemente me perguntam —muito recentemente, em Madison, Wisconsin— se seria possível recriar os tempos de al-Andalus e Sicília, onde três culturas coexistiram durante muito tempo. Minha resposta sempre é a mesma: atualmente, o único lugar onde isso poderia ser recriado é Israel/Palestina.
Vivemos em um mundo de dois pesos e duas medidas, mas não precisamos aceitá-lo. É comum que as pessoas e os grupos que sofreram danos, por sua vez causem danos. Mas o primeiro não justifica o segundo. O anti-semitismo europeu tolerou o massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial, e disso os palestinos resultaram ser as vítimas indiretas. Muitos israelenses estão conscientes deste fato, mas preferem não pensar nisto.
Agora, muitos europeus vêm os palestinos e muçulmanos como antes viram os judeus, uma ironia que se torna palpável nos comentários da imprensa e nas coberturas televisivas de praticamente todos os países europeus. É uma pena que a burocracia da Feira do Livro de Turim tenha consentido em ceder diante dos novos prejuízos que estão varrendo o continente. Vamos esperar que seu exemplo não seja seguido em outras partes.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores.