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Foto: Naldinho Lourenço
[Por Silvana Sá] O fotógrafo Naldinho Lourenço, da Maré, fez a cobertura da trágica morte do menino Matheus e também do sepultamento. São imagens muito fortes, que nos fazem pensar em que espécie de mundo vivemos. Que Estado é esse, que desrespeita o mais fundamental direito, que é o direito à vida? Que política de segurança é essa que extermina as camadas mais pobres da sociedade, que considera cidadão apenas as pessoas provindas da classe média pra cima?
Que polícia é essa que extermina nossas crianças e que fala para a imprensa, órgãos regulatórios, entre outros, que o que aconteceu não partiu deles, que a criança morreu por bala perdida em confronto de facções rivais? Que confronto? Onde estão as cápsulas de bala no chão? Onde ressoaram os barulhos dos tiros trocados? Cadê as paredes perfuradas? Apenas um tiro de fuzil foi disparado… tiro este que encontrou seu destino na cabeça de uma criança inocente que saía para comprar o pão. O mundo é muito injusto.
Olhar as fotos que foram publicadas no site Viva Favela é ter uma pequena dimensão da dor e do choque sofrido por todos nós. Todos nós familiares, vizinhos, conhecidos, moradores de favela. E a gente se pergunta: quantos outros Matheus precisarão ter sua vida interrompida? Quantas outras mães precisarão passar pela dor de perder seu filho? Quantos assassinatos o Estado ainda vai cometer? É triste, é lamentável, é muito dolorido… O desejo agora é que esse pequeno anjo esteja num lugar livre da dor, livre do medo do tráfico, do medo da polícia, do medo da milícia. Livre da dor, do desespero de ver e saber que tantas crianças morrem todos os dias vítimas do mesmo mal que o vitimou. O desejo também que essa família tenha forças e assessoria para enfrentar e vencer a luta que começa para pôr os responsáveis atrás das grades. Desejo de que essa mãe não sucumba à dor – inimaginável, imensurável – de perder um filho amado, de quase oito anos de idade. Sabemos que ficará para sempre os sons de suas gargalhadas, de suas bagunças em casa… mas também o som daquele único disparo que matou impiedosamente aquela criança.
Este é mais um desabafo… sou moradora de comunidade, estava lá ontem, tenho um filho de 4 anos – o meu bem mais precioso – e não consigo imaginar o que seria de minha existência sem a existência dele. Não posso imaginar a dor que a mãe de Matheus sente… sou solidária ao seu sofrimento. Sofro junto, choro, me abato. Mas a grande diferença é que meu filho está em casa,vivo, brincando, correndo, alegre. E o dela não. Choro, mas posso abraçar meu pequeno todos os dias. Ela não mais… E isso, nem que todos os culpados sejam presos, nem que toda a sociedade se mobilize e a gente consiga melhorar este país, nem que a família seja indenizada em bilhões de reais.
Mesmo que tudo isso aconteça, o sorriso dessa criança, sua presença alegre e amorosa não estará e não voltará a estar entre nós.