Por Katarine Flor

              O Sindipetro/RJ exibiu na noite de ontem o premiado filme Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de cá, do cineasta Sílvio Tendler. Após o filme, o público, formado por sindicalistas, petroleiro e estudantes, foi convidado a participar de um profundo debate sobre  a obra de Milton Santos. Estiveram presentes como debatedores Carlos Walter, professor da UFF e Rosa Roldan, integrante da Rede Alerta Contra o Deserto Verde. O evento faz parte da comemoração pelos 50 anos do sindipetro/RJ.

            Segundo o professor Carlos Walter,  Sílvio Tendler ficou impressionado com a capacidade de interpretação de Milton Santos com quem gravou uma entrevista, que serviu de fio condutor para este filme.

             “Encontro com Milton Santos” promove um diálogo sobre a obra do geógrafo e um diálogo com os movimentos sociais. Tema que aparece com muita força no filme.

            Mostra “o Mundo Global Visto do Lado de cá”, sob o ponto de vista dos que sentem e sofrem com esse processo “Globalitário”. Apresenta ricas falas de lideranças comunitárias, africanas, latino- americanas. Evidencia momentos de reapropriação social da natureza, de recursos naturais e uma ebulição dos movimentos populares em um processo intenso.

 

Após a sessão, o debate

            Rosa Roldan falou sobre a Rede Alerta Contra o Deserto Verde. Dos prejuízos sociais e ambientais causados por monoculturas. Chamou atenção para o fato de que o Brasil está sendo tomado pelo eucalipto, soja e cana de açúcar. “É um modelo utilizado desde o Brasil colônia, com a primeira globalização. Populações são dizimadas e o cultivo de monoculturas devasta o solo”, analisou.

            Apesar das duras constatações, Roldan afirmou que segue esperançosa, como na fala de Milton Santos que encerra o filme. Consciente das “perversidades da Globalização”, contrapõe essa realidade com o surgimento de movimentos sociais em toda América Latina e em todos os  países .

            “Essa coisa de dizer que não tem o que fazer, que não dá para melhorar, eu não posso aceitar. Quem já viajou pelo Brasil. Quem já trabalhou em outros lugares, tem noção de como a gente está em um momento de ebulição de norte a sul desse país. São movimentos quilombolas, são os indígenas, são pequenos agricultores. Tem muitos movimentos da terra hoje em dia que a gente, que está na cidade grande, desconhece. E é nesse sentido que eu quero chamar a atenção de vocês”, disse Rosa.

            O Professor Carlos Walter ressaltou a importância do pensamento do geógrafo Milton Santos, a quem atribuiu o “ papel fundamental de decifrar este monstro que é a globalização”. A obra, de 96, chamada A natureza do Espaço mostra o potencial crítico da geografia desvendando o chamado pensamento único, o que Milton chamou de “Globaritalismo”. Visão que se apresenta como única de um processo de mundialização.

            “Nós vemos a globalização em crise. Crise que o Milton corajosamente apontava quando a globalização estava no auge. Com uma coragem enorme que parecia o patinho feio da história. Todo mundo falando do sucesso desse modelo e ele apontando as contradições”, analisa o professor.

            Carlos Walter criticou a ideologia do pensamento único e lembrou um trecho do filme em que Milton Santos diz que nós não estamos pensando do nosso próanalizprio lugar e que ainda estamos com o pensamento importado. “Continuamos a organizar nosso espaço geográfico para servir à exportação. É isso? Continuamos a pensar colonialmente. A colonialidade sobreviveu ao fim do colonialismo. É preciso descolonizar o pensamento”, afirmou.

            Carlos Walter concluiu sua participação no evento sugerindo uma mudança na última frase do Manifesto Comunista. “Ao invés de “Proletários de todo mundo, uni-vos”  para  Proletários de todo mundo, unamo-nos. Porque significa que ninguém fica de fora”.