Por Raquel Junia
Se Euclides Fernandes Távora participou mesmo da coluna Prestes não há certeza. Mas foi isso que ele contou a Chico Mendes. Euclides, um comunista, foi o responsável pela alfabetização de Chico, no meio da floresta. No filme Chico Mendes – Cartas da Floresta há essa e outras passagens da vida do seringueiro.
“Se o filho do seringueiro fosse para a escola ele iria aprender a ler, escrever e a contar. Ele ia descobrir a exploração que estava sendo feita. Isso não interessava ao patrão”, diz o narrador lendo uma das cartas de Chico, logo no início do filme.
Euclides talvez nem chegou a saber, mas plantou uma semente que ainda hoje está germinando. “Ele não estava morto, ele não está morto, se ele estivesse morto nós não estávamos 20 anos depois falando dele. Não estávamos falando aqui que é possível desenvolver sem destruir, que é possível usar a floresta e ao mesmo tempo preservá-la”, afirma no filme Gumercindo Feitosa, amigo e advogado de Chico.
Um dos momentos mais marcantes do documentário é a descrição de um Empate, realizado em 1976, pelos seringueiros. Os Empates tinham a intenção de evitar a derrubada de árvores da floresta e nesse caso, queriam evitar também a posse de parte da floresta por um fazendeiro. As mulheres, algumas delas professoras, decidiram que iriam à frente junto com as crianças porque pensavam que isso poderia evitar que os policiais atirassem. Quando se aproximaram, os policias tinham formado duas filas em posição de confronto. As professoras, sem terem combinado nada antes, começaram a cantar o hino nacional. O Tenente deu ordem para que os policias se colocassem em posição oficial para escutar o hino e ele próprio permaneceu em posição de continência.
Essas situações são contadas por seringueiros que conviveram com Chico, amigos, as duas filhas, a tia dele – Cecília. É difícil não se emocionar com a encenação do Empate. A descrição do dia da morte do sindicalista é feita com riqueza de detalhes pelas filhas dele e o amigo Gumercindo. A certeza de que a morte poderia ter sido evitada desconforta. Chico anunciou aos quatro cantos que iria morrer, inclusive, divulgou os nomes dos assassinos.
As Reservas precisam de investimento
A situação da Floresta hoje também recebe atenção no filme. O documentário mostra que foi criada uma cooperativa de produção de preservativos – os preservativos Natex. A iniciativa hoje garante trabalho para moradores de Xapuri e redondezas. Por outro lado, os entrevistados no filme tratam do problema da criação de gado. A Reserva Extrativista que leva o nome de Chico Mendes e que abrange quase toda a cidade de Xapuri corre o risco de acabar em pastagens, alertam. Os entrevistados explicam que não há incentivos para os extrativistas, que acabam obrigados a criar gado para o sustento.
“As reservas não são o congelamento da pobreza, elas tem uma proposta de modernidade. E isso demanda investimentos públicos”, questiona a historiadora Mary Allegretti, também presente no documentário.
Chico: um militante socialista
Os últimos momentos do filme esclarecem que Chico Mendes se tornou ao longo de sua trajetória um militante socialista. Em uma das suas cartas lidas durante o filme, ele declara que começou lutando pelos seringueiros, depois viu que já estava lutando pela floresta e por fim pela humanidade. “Atenção jovem do futuro: 6 de setembro de 2120, aniversário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos unidade socialista (…) Desculpem eu estava sonhando quando eu escrevi esses acontecimentos que eu mesmo não verei, mas tenho orgulho de ter sonhado”, declara Chico Mendes – homem da floresta, seringueiro, sindicalista, socialista, transformador do mundo.
O documentário foi realizado pela TV Câmara do Acre. Com roteiro e direção de Dulce Queiroz, com imagens de Marcos Feijó e trilha original de Alberto Valério. O filme pode ser acessado na página da TV Câmara http://www2.camara.gov.br/tv. Também pode ser copiado para ser apresentado nas escolas, sindicatos, associações de moradores.