
[Por Claudia Santiago] O que mudou na batalha das ideias, então, se os explorados sempre estiveram em desvantagem na disputa de hegemonia? Para não irmos tão longe, vamos conversar sobre os últimos 30 anos.
Como dito anteriormente, as mudanças tecnológicas ocorridas não afetaram apenas o modo como as pessoas se comunicam. Elas se deram também na forma como as pessoastrabalham. Na década de 1990 do século passado, período da explosão da Internet, o movimento sindical debatia Toyotismo, automação, e, principalmente, o neoliberalismo, que vinha varrendo os direitos conquistados nos séculos XIX e XX pela classe trabalhadora, e apagando os resquícios do Estado de bem-estar social que prevalecera em boa parte do mundo no pós-guerra.
“A aplicação do chamado modelo toyotista, além de cortar custos, flexibilizar a produção, adequando-a sempre às necessidades do mercado, consegue quebrar a espinha dorsal do projeto de autoconstrução da classe que apenas começava a tomar forma. De um lado o trabalhador coletivo, constituído pelos milhares de braços e cérebros espalhados cada vez mais por todo o planeta, continua como um sujeito fundamental da produção de todos os bens e serviços necessários à humanidade. De outro lado, a dispersão e flexibilização do processo produtivo, em grande parte agora desconcentrado, isto é, realizado das mais diversas formas, fora dos muros das empresas (em pequenas oficinas terceirizadas, no trabalho em domicílio, nas falsas cooperativas, através do trabalho por “conta própria”, etc) tem fragmentado não só a atividade física, mas também a consciência coletiva.” (DE GRAZIA, 2017; p. 234)
A cantilena era a mesma em quase todo o mundo: fim de qualquer regulamentação no mundo do trabalho, fim da carteira de trabalho. Desregulamentação. Cada um por si e entregue a sua própria sorte na selva capitalista.
Vamos prestar atenção no parágrafo acima e refletir sobre ele comparando com o discurso, no ano de 2024, contra a CLT e em defesa pelo empreendedorismo, repetido por setores da classe trabalhadora. No reino da Internet, “CLT” é xingamento. São os “CLTs”, dizem de peito erguido os donos das barraquinhas de cachorro-quente que trabalham na escala 7X0 porque são patrões e empregados de si
mesmos. Ou, para ser mais moderna, os proprietários de lojas vazias de marcas franqueadas.
O que podemos dizer a respeito? Vamos criticar os trabalhadores empreendedores como se a vida deles no regime celetista fosse fácil?
A eleição de Rick Azevedo à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, nas eleições municipais de 2024, com os slogans “Vida Além do Trabalho” e “Fim da jornada 6X1” surpreendeu, mas pode ajudar a entender a centralidade do trabalho na vida das pessoas e porque o canto da sereia do empreendedorismo fascina tantos jovens.
Pesquisa do IBGE divulgada em em 2023 revela que no País, 60,1% da população vivia com até 1 salário-mínimo em 2022. O vereador não só se elegeu, como obteve 29.364 votos, o maior número entre os candidatos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e foi o segundo mais votado no campo da esquerda.
Seriam os votos que recebeu um grito da classe assalariada pela redução da jornada de trabalho, tema central na obra do velho e atual Karl Marx, que a descrevia como “uma luta de vários séculos entre o capital e o trabalho” (1968; p. 203)
O que o jovem Rick Azevedo faz em sua atuação é retomar um debate ocorrido em 1866, no Congresso Geral dos Operários, em Baltimore, Estados Unidos, quando foi proclamado que primeiro passo para libertar o trabalho da escravidão capitalista era a obtenção de uma lei que limitasse a jornada de trabalho a oito horas. A decisão foi reafirmada pela Declaração da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), no mesmo ano em um encontro na Suíça:
“Declaramos que a limitação da jornada de trabalho é a condição prévia, sem a qual todas as demais aspirações de emancipação sofrerão inevitavelmente um fracasso. Propomos que a jornada de 8 horas seja reconhecida como o limite da jornada de trabalho.” (NPC, 2011)
Na década de 1990 do século passado, o termo “pensamento único” começou a ser debatido por jornalistas e grupos de esquerda que se contrapunham à ideologia neoliberal que pregava e punha em prática, em boa parte do mundo, o domínio absoluto do mercado.
O apoio da mídia ao projeto neoliberal era determinante para a construção de pensamentos, ideias e valores hegemônicos na sociedade que garantissem a aceitação a uma ideologia que era contra os seus interesses vitais, como a retirada do Estado até de setores como a saúde e a educação pública.
Uma ideologia que resultaria, na primeira quadra do século XXI, na exacerbação do individualismo elevado à altíssima potência pelas redes sociais onde proliferam de gatinhos adoráveis a crimes hediondos.
Segundo a cartilha do Consenso de Washington, os sindicatos tinham que ser combatidos. E assim foi feito. Na Inglaterra, Chile, França, Alemanha, os sindicatos enfrentaram ataques ferozes. O caso dos mineiros na Inglaterra causou espécie no mundo do trabalho.
Através do cinema do cineasta inglês, Ken Loach, e outros, pudemos acompanhar a perversidade neoliberal na vida da classe trabalhadora através de filmes como “Ou tudo ou nada” (Inglaterra-1997), “A Cidade está tranquila” (França-2000) “Billy Elliot” (França-Inglaterra-2000) ou “Agora ou Nunca” (Inglaterra-2002). Em “Os navegadores”, Ken Loach (2001) trata da luta dos ferroviários contra a privatização da companhia de trem. (…)
Este artigo foi publicado originalmente no livro “Cultura e filosofia da práxis” (Editora Mórula), organizado por Eduardo Granja Coutinho, e lançado em abril de 2025 no Rio de Janeiro.