[Por Luisa Souto – NPC] Na madrugada do sábado, dia 3 de janeiro de 2026, a capital da Venezuela, Caracas, foi atacada pelo governo dos Estados Unidos da América com bombardeios a bases militares, como La Carlota e Fort Tiuna, e sequestro do presidente e da primeira dama do país. Essas bombas não foram apenas uma ação violenta: foram um ataque direto a quem vive e pensa a América Latina a partir do sul.
Ficamos, desde as primeiras horas, em um tipo de vigília diante da história acontecendo em tempo real (ou, ao menos, a partir do momento em que as primeiras imagens começaram a circular). No meu caso, desde a primeira postagem da Telesur, canal imprescindível para que a América Latina se veja e se conte por si mesma.
Naquele momento, pouco se sabia. O paradeiro do presidente Nicolás Maduro e de sua companheira, Cilia Flores, era desconhecido. Nem mesmo a declaração de Donald Trump de que o havia capturado não parecia verossímil. Até que foi confirmado: sequestro e traslado forçado para os Estados Unidos, sob acusações que misturam um suposto combate ao narcotráfico e terrorismo. O cenário era confuso e angustiante.
O que alguns de nós sentimos naquele dia é difícil de definir. Não foi apenas indignação, nem medo. Foi a conhecida sensação de que, mais uma vez, a América Latina estava sendo lembrada do lugar que tentam lhe impor na ordem mundial: uma terra onde não há soberania garantida.
Mais do que um ataque à estrutura política venezuelana, o que vimos foi um ataque direto à ideia de soberania latino-americana. À ideia de que nossos processos políticos têm o direito de existir sem domínio externo. O tempo das colônias, pensávamos, já foi.
Agora, alguns dias e dezenas de reflexões depois, considerando tudo o que pensei e tudo o que aprendi ouvindo pessoas muito mais experientes do que eu, arrisco alguns pitacos sobre o tema. Mesmo tendo a certeza que algo há de soar repetitivo, penso que, em um momento com a complexidade e a dimensão histórica como o que estamos vivendo, faz parte ouvir e falar ao mesmo tempo. Por isso, falemos, escutemos, escrevamos e tentemos compreender coletivamente.
Ao fazer o que fez, Donald Trump parece ter acertado alguns pinos do jogo de boliche que ele acredita ser a política mundial. Neste texto, arrisco olhar para cinco deles.
O primeiro e mais óbvio, que Trump nem mesmo se esforçou para esconder, é o acesso às reservas petrolíferas da Venezuela. O território concentra uma das maiores reservas de petróleo do mundo, existente ali desde antes mesmo dele se tornar o país Venezuela, como lembrou a historiadora Ynaê Lopes dos Santos. E considerando que o petróleo segue sendo um elemento central da geopolítica global, qualquer possibilidade de reconfiguração de poder político na nossa região passa, inevitavelmente, por esse dado. Não se trata apenas de ideologia, mas de controle, mercado e poder. De capital. E o presidente dos EUA é um grande capitalista que serve, antes de mais nada, aos interesses dos grandes capitalistas.
O segundo pino derrubado é o ataque direto a um processo político construído ao longo de décadas e que, como destaca a economista Juliane Furno, “tem marcada característica anti-imperialista e se arroga na construção de um socialismo no século XXI.” Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, formou-se na Venezuela um projeto ancorado fortemente em uma noção de soberania popular, a revolução bolivariana. Esse processo não foi linear, como quase todos os processos históricos, mas foi capaz de construir vínculos profundos com a ideia de autodeterminação latino-americana. E não é de hoje que os EUA tentam atacá-lo, tanto por meio de ações diretas quanto pelo estabelecimento de sanções econômicas.
O terceiro pino é a demonstração de força dirigida não apenas à Venezuela, mas a todo o continente americano. A mensagem é clara: nenhum governo está completamente fora de alcance. Viveremos processos eleitorais centrais em 2026, como o da Colômbia, em março, e do Brasil, em outubro. Nos dois casos, existem indicativos de manutenção dos atuais grupos políticos, de esquerda e contrários à política de Trump, no poder. Ao se impor por meio da força a um país vizinho, estaria o governo dos EUA dizendo que podem intervir onde quiserem?
Diversos fatores tornaram Nicolás Maduro, neste momento, um alvo mais vulnerável politicamente, tanto por questões geradas pelas dinâmicas da política interna venezuelana quanto pelo impacto das sanções econômicas ao longo das últimas décadas. Mas todos podemos ser considerados, ao mesmo tempo, ameaça aos interesses de Trump e vulneráveis ao seu poder militar.
Há um quarto pino, que diz respeito à própria política interna dos Estados Unidos. Em um contexto de queda de popularidade de Trump, polarização e desgaste internacional, ações externas de força costumam funcionar como instrumentos de recomposição simbólica de poder. A velha tática de fabricar inimigos externos para gerar identificação e consensos internos. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada em 16 de dezembro de 2025 aponta que o índice de aprovação do presidente estava em queda. Para alguém que pretende seguir impondo sua agenda política de maneira violenta também no contexto interno, com perseguições a imigrantes e ações como a que resultou no assassinato à queima-roupa de uma cidadã estadunidense por um agente do ICE no dia 7 de janeiro, essa queda é preocupante. O que poderia ajudar na sua recuperação sem exigir recuo na política interna e mantendo a linha historicamente adotada pelo imperialismo? O ataque a nações consideradas “menores” ou “mais frágeis”.
Por fim, os Estados Unidos, embora ainda sejam a maior potência mundial, caminham sob uma sombra cada vez mais nítida. A China apresenta, há pelo menos duas décadas, uma trajetória de crescimento econômico consistente. Isso faz com que se amplie a sua influência comercial, tecnológica e diplomática, especialmente no Sul Global. E ainda que os EUA mantenham vantagens importantes, a ascensão chinesa tensiona a ordem internacional e alimenta a percepção de perda relativa de poder.
Recuperando as ideias do historiador Fernando Novais, o professor João Cezar de Castro Rocha, lembra: cada colônia só pode ter uma metrópole. Trump age, portanto, para reafirmar que os EUA devem ser essa metrópole.
Ou seja, o quinto pino seriam demonstrações de força militar e afirmações unilaterais de autoridade. Reações defensivas a um mundo que já não gira apenas em torno dos EUA, seja política, seja economicamente.
O que pode vir a acontecer a partir de agora torna tudo ainda mais grave. Qual o risco do precedente que se abre? Pouco tempo depois de invadir a Venezuela, Trump voltou a mira do seu discurso para a Groenlândia.
Capturas, bombardeios e intervenções diretas não são novidade, muito menos quando protagonizados, ou apoiados pelos Estados Unidos. Pensando no nosso lugar no mundo, qual país do Sul Global poderá afirmar, com alguma convicção, que sua soberania será respeitada amanhã?
Antonio Gramsci dizia que a hegemonia se constrói de duas formas: por meio da coesão ou da coerção. A guerra pela coesão, em um mundo de think tanks e big techs, majoritariamente dominadas e apoiadoras de Trump, está a todo vapor. Mas não sem questionamentos e concorrência, onde, inclusive, a China aparece mais uma vez. Considerando suas próprias instabilidades, Trump reforça o uso da coerção.
Talvez o mais duro de tudo seja perceber o quanto essa história é antiga. Na América Latina, conhecemos bem esse roteiro. Ele muda de formato, de justificativa e de tática, mas conserva a mesma lógica: a de que nossos territórios, nossos corpos e nossos processos políticos são peças no tabuleiro de outros. Mas não só aqui, nem só agora. Em um artigo publicado há poucos dias, o jornalista Jamil Chade traça um paralelo do que vivemos agora com o ano de 1938 e as ações de Adolf Hitler na Alemanha, e conclui: “Os primeiros sinais da aurora deste ano confirmam que a história, ainda que não se repita, rima.”
Escrever sobre isso, ainda que em pequenas doses, talvez seja uma tentativa de organizar as ideias em meio ao desafio de “diferenciar claramente o que é fato razoavelmente confirmado, o que é hipótese a ser validada e o que é especulação, ainda que bem fundada”, como resumiu Luis Felipe Miguel.
E reafirmar que nossa história é escrita a partir daqui, do sul, que é o nosso norte.