Para entender o Brasil. Do livro de Alain Roulquié, Le Brésil au XXI siècle – Naissance d’un nouveau grand, ed. Fayard, Paris, 2006
Trecho da obra:
“A transferência da capital federal, assim como, antes, a criação de uma nova capital para Minas Gerais, Belo Horizonte, fundada em 1897, não está desconectadas da gênese histórica do Brasil nem de sua cultura nacional. O espírito bandeirante e a miragem da fortuna fácil condicionam a organização da vida coletiva e a relação com o território. A procura do lucro imediato não é exclusiva dos garimpeiros que se lançam em direção do ouro de ontem ou de hoje. As elites não hesitam a investir tudo no produto bem cotado no mercado mundial. O Brasil continua a ser um país de mineração. Explora-se e vai-se embora. Mesmo a agricultura tem uma dimensão mineradora. Liquida-se a vegetação e esgotam-se os solos como se exaure um filão de minério, depois se deixa o lugar em busca de outras terras…
Claude Lévi-Strauss não hesitou em falar, a esse respeito, de uma « agriculture de rapine ». O povoamento estável que humaniza duravelmente a paisagem não é a nota dominante desta lógica produtiva. O Brasil não tem camponeses no sentido francês do termo, com aquilo que isso implica de intimidade, de familiaridade com o solo, ele não conhece senão desbravadores e agricultores em busca de terras livres e produções rentáveis. O conjunto da sociedade é o reflexo desta economia nômade”. (p. 42)