Por Sebastião Neto
Passados 20 anos do assassinato do companheiro Chico Mendes é necessário revelar elementos mais profundos dessa personalidade fascinante e complexa. Fascinante porque um homem da floresta, com a cara e a personalidade dos ribeirinhos e extrativistas que habitam a região foi subitamente elevado a símbolo mundial da luta dos seus irmãos.
Complexa porque esse mesmo seringueiro tardiamente alfabetizado por um remanescente da Coluna Prestes era capaz de elaborar raciocínios sofisticados dentro da compreensão dos elementos das lutas que levava. Sofisticação de raciocínio e análises que ainda encantam estudiosos e acadêmicos. Esses mesmos raciocínios são, ao mesmo tempo, absolutamente compreensíveis para seus não letrados companheiros de militância e para o povo trabalhador que ele ajudava a organizar-se.
A pista para entender esse personagem, que o abrange em sua complexidade é a definição do Chico Mendes político, do militante socialista. Mais que o lutador ecologista que todos admiramos. O que também não é pouco seu papel de pioneiro da causa ecologista na Amazônia. Desvendar o Chico militante revolucionário é uma tarefa dos que com ele conviveram e particularmente uma tarefa a ser exercida pelos que o viram surgir, crescer e com ele partilharam a comida, a alegria, as agruras e o medo do dia a dia. Mas também com ele teceram a urdidura das frentes de luta populares, sindicais e políticas, adequadas a sua realidade, a fundação do Partido dos Trabalhadores e a candidatura dele pelo mesmo partido. Ele que vinha de uma organização revolucionária clandestina. As vitórias dos primeiros empates, a fundação dos sindicatos dos trabalhadores rurais, da Central Única dos Trabalhadores, suas candidaturas a cargos institucionais, a luta pela criação das reservas extrativistas.
Muitos falam dele, mas poucos o conhecem
Quando da sua morte as pessoas progressistas, o campo da esquerda, rendeu tributo ao defensor dos povos da floresta e, às vezes, se mencionava o Chico sindicalista. Pouco se sabia quem era mesmo esse Chico Mendes que fora assassinado. Fora alguns apoiadores de primeira hora das lutas populares da Amazônia, de alguns militantes muito próximos e de alguns dirigentes políticos poucos tinham noção da dimensão política de Chico Mendes fora do Acre. A sua morte o transformou numa lenda.
Chico tinha se tornado conhecido pelos sindicalistas da CUT quando aprovou no III CONCUT
Ironia que esse Congresso foi o que reduziu para sempre na CUT a participação dos militantes que não eram das diretorias oficiais, mandou ao espaço a estratégia de construção das Oposições Sindicais e reduziu a muito pouco a participação da base dos trabalhadores do campo nos congressos da CUT. É o mesmo ano da nova Constituição e é o ano de assassinato de dezenas de trabalhadores rurais particularmente no norte do país. É o ano do massacre de Volta Redonda na invasão pelo Exército Nacional da Companhia Siderúrgica Nacional, ocupada pacificamente pelos operários em greve.
A ditadura que agonizava esticava a transição tentando pactar uma saída honrosa. Como vaticinou Florestan Fernandes: quanto mais lenta a transição, pior seria para as lutas dos trabalhadores. A ditadura protelava sua saída e as hienas da burguesia se organizavam para continuar a dominação nos renovados espaços institucionais.As lutas populares e sindicais testavam-nas e fustigavam-nas.
Chico socialista para combater a opressão
Nessas duas décadas passamos da resistência à ditadura ao governo Lula. Do
controle do Acre pela aliança pecuaristas-crime-latifúndio-empresas ao Governo da Florestania. Mais que discutir as mudanças que foram fruto da incansável e persistente luta de milhares de pessoas em todo o país, e que no Acre teve características tão marcantes, é necessário memorar o papel do companheiro Chico militante revolucionário socialista – o elemento mais visível de uma rede de organização e sustentação à luta dos ribeirinhos, extrativistas e dos povos indígenas. Uma história que ainda não foi contada.
Mas como foi possível uma liderança tão madura surgir em condições tão difíceis onde o simples fato de se manter vivo já necessitava um esforço extraordinário de cada militante? Já não tinham assassinado a Wilson Pinheiro? Todos os avisos já não estavam dados? Quantos trabalhadores anônimos desaparecidos? Quantas famílias desterradas? Quantos ranchos queimados? Chico tinha uma lúcida consciência da possibilidade que o caçassem e recusou todas as sugestões de se transferir da região, de ser um tribuno palestrante para platéias comovidas mas distantes do seu dia a dia. Fazia também a aparição em importantes espaços nacionais e internacionais. Havia os fieis companheiros que lhe abriam essas oportunidades. E lá se ia aquele homem tranqüilo, de aparência comum, de hábitos simples a encantar as pessoas. A criar problemas às autoridades, a ecoar as reivindicações dos Povos da Floresta.
O que permitiu a emergência de uma liderança como o Chico e o seu simpático e valente exército onde era a liderança eleita? Foi uma combinação extraordinária de perspicácia política, de enxergar uma estratégia adequada numa região isolada, de baixa importância relativa ao sudeste, às regiões metropolitanas e aos pólos econômicos, sejam os historicamente constituídos, como também os de desenvolvimento recente incentivados pelos delírios de “Brasil potencia” da ditadura militar.
A Amazônia e a fronteira oeste foram designadas como uma terra sem homens para onde deveriam ser deslocados os homens sem-terra, no marketing canhestro do período Médici. O avassalador agro-business de hoje é filho dessa estratégia tecnocrata-desenvolvimentista da ditadura militar. Economicamente o agro-negócio se viabilizou, como se viabilizaram a predação na exploração mineral e a pecuária extensiva. Carajás e a Vale do Rio Doce nessa ótica são modelos de sucesso. E o Brasil que fornece carne e cereais ao mundo também são exemplos para o capitalismo em todo mundo.
O falso “milagre”
A repressão mais direta com desaparecimento e torturas dos militantes da esquerda, das lideranças populares e sindicais, dos religiosos identificados com as lutas do povo pobre se estendia no campo institucional no sufocamento da legalidade parlamentar, na nomeação dos governadores, dos prefeitos das capitais e do presidente da república que podia ser um idiota, mas tinha que ser um militar; na asfixia e a censura na cultura, na expulsão sumária dos estudantes contestadores das escolas.
O modelo do tripé Estado/grupo nacional/transnacionais da ditadura é bem conhecido. O Estado com a infra-estrutura (estradas, portos, comunicações) e o financiamento e/ou endividamento. As transnacionais com tecnologia e o acesso aos mercados do exterior e a gestação ou turbinamento de grandes grupos econômicos nacionais.
A ditadura alicerçada nesse tripé diabólico construiu o mito da Transamazônica e prometia uma miragem de agro-vilas óasis de desenvolvimento aos colonos do Sul sufocados pela agroindústria e pela monocultura. O centro oeste do país mudaria radicalmente. Rondônia e Pará foram invadidas pela mineração social e ambientalmente calamitosa. O Acre sem minérios era uma reserva abundante de madeiras e futuras pastagens. O ciclo econômico do “Brasil potencia” ocorre justamente quando o fenômeno da metropolização começa a se acentuar e o Brasil deixa de ser um país com maioria de população no campo.
O “milagre econômico” da ditadura gestou o fracasso do megalomaníaco projeto Jari de fabricas flutuantes transportadas do Japão e produção integrada de caulim, celulose, arroz, e n outros produtos. Criou Serra Pelada de homens empilhados na busca do enriquecimento instantâneo e manipulados pelo poderoso Curió, caçador de guerrilheiros no Araguaia. Apareceram centenas de pistas clandestinas para mineração em terras indígenas. A Zona Franca de Manaus tornou-se uma maquiladora de grande peso. Os incentivos dados aos grandes grupos econômicos na Amazônia tornaram terra arrasada grandes partes da floresta pela derrubada para a pecuária. Das mais tristes imagens são os cemitérios de castanheiras.
A miséria social gerada por essa visão de desenvolvimento hoje pode ser vista na endêmica prostituição infanto-juvenil nas maiores cidades da Amazônia, na criação de uma elite econômica local protegida política, judiciária e policialmente na extorsão às riquezas locais e a população, na destruição ou submissão de inúmeros povos indígenas que foram asfixiados na sua cultura e costumes.
Aos Jovens do Futuro
O quanto o Brasil mudou e para onde está indo é uma questão
Muito se escreveu sobre o legado da geração de Chico Mendes e sobre êle. O tempo passado permite recuperar hoje, sem as injunções da época do seu assassinato o perfil mais verdadeiro desse lutador socialista. Nesses 20 anos de seu desaparecimento já é hora de aclarar aos jovens de hoje que não foi por acaso que Chico Mendes escreveu uma carta aos “jovens do futuro” na convicção que estariam vivendo no Socialismo.