Em 29 de novembro de 1999, concedeu por e-mail, ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, a entrevista que publicamos a seguir.  

Embora quatro anos já tenham se passado, ela continua atual. Mas é mais do que isso. É uma aula de jornalismo. José Arbex Jr. é  um exemplo de rebeldia e coragem para todos os que não querem fazer um Jornalismo Canalha. Leia ainda nesta edição trechos de Jornalismo Canalha, o último livro de José Arbex. Prometemos para breve nova entrevista  atualizada até 2004.

José Arbex Jr. é jornalista. Tem 46 anos. É também doutor em História Social contemporânea pela USP. Começou sua carreira profissional em 1984 como repórter da área de Política Externa da Folha de S. Paulo.  

Foi correspondente da FSP em Nova York e Moscou e da BBC de Londres. Cobriu a guerrilha da Nicarágua, a queda da ditadura Duvalier no Haiti, as primeiras manifestações de rua contra o regime de Stroessner no Paraguai, a retirada do Exército Vermelho do Afeganistão, a Primavera de Pequim, a Retirada do Exército vietnamita do Cambodja e a Queda do Muro de Berlim, entre outros fatos.  

Entrevistou com exclusividade diversas personalidades do mundo político, intelectual e artista. Citamos alguns nomes: M. Gorbatchov, Iasser Arafat, Daniel Ortega, Lula, Noam Chomski, Peter Gabriel e John Cage. Entre os livros que publicou estão A Segunda Morte de Lênin O Colapso do Império Vermelho (Folha), Narcotráfico – Um Jogo de Poder nas Américas (Moderna), Revolução em 3 Tempos – URSS, Alemanha, China (Moderna), A Outra América – Apogeu, Crise e Decadência dos EUA (Moderna), Nacionalismo – Desafio à Nova Ordem pós-Socialista (Scipione), O Poder da Televisão (Scipione) e recentemente Showrnalismo e Jornalismo Canalha, ambos pela Editora Casa Amarela.  

(A íntegra da entrevista está em www.piratininga.org.br

)

Trechos da entrevista  

Luiz Maklouf Carvalho. Como, por que, quando e onde você escolheu a profissão?

José Arbex. Não posso dar uma resposta exata… Comecei a escrever em jornais políticos (do PT, da CUT e outros), nos anos 70, como parte da luta contra a ditadura. Mas eu fazia Engenharia Química na Escola Politécnica da USP. Fui pra ECA também, em 1978, muito atraído pelas moças e pelo ambiente da escola: a ECA era colorida, bonita, alegre, ao passo que a Poli era cinzenta, chata, fria. Fiquei mais e mais desencantado com a engenharia… Foi assim. 

L. Maklouf. Como é que começou sua experiência de correspondente no exterior?

Arbex. Começou com um gesto voluntarista de minha parte. Eu achava, em 1986, que as coisas iam ficar muito explosivas na Nicarágua, depois de um relativo período de calmaria. Eu ia ter férias na “Folha”, onde ainda era um mero “foca”. Resultado: propus que eu fosse cobrir a Nicarágua, como enviado especial, durante as minhas férias… A direção da Folha topou, mas com muita relutância. Fui, e meu palpite estava certo! Aconteceu muita coisa, e eu tive sorte. Estava sempre no lugar certo na hora certa.

Daí caiu a ditadura dos Duvalier, no Haiti, bem ao lado da Nicarágua. E aí a “Folha” me enviou ao Haiti. Foi então que tudo realmente aconteceu. Mal cheguei em Porto Príncipe (capital), vi algumas cenas que me sugeriram aquilo que Lênin caracterizava como “situação pré-revolucionária”: “os de cima já não podem continuar como estão, os de baixo já não suportam mais continuar como estão”. Apostei nisso. Contra tudo o que diziam as agências de notícias e os “especialistas”, afirmei que o Haiti estava à beira da guerra civil. Levei uma bronca da direção da “Folha” por causa disso. Mas acertei. No dia seguinte, havia barricadas pra tudo quanto era lado, o Exército estava atirando nas pessoas, foi o inferno.

E assim eu conquistei um espaço meu dentro do jornal. 

L. Maklouf. Por que optou pelo trabalho de free lancer? E como o tem desenvolvido desde que saiu do dia-a-dia das redações?

Arbex. Basicamente, quero ser o dono de meu tempo e de meu espaço. Não é pouca coisa. Eu hoje consigo me dar o luxo da escolha: trabalho na exata medida em que preciso de dinheiro. Mas tenho hábitos austeros, simples: não bebo, não fumo, não vou a restaurantes caros, não ligo pra roupa chique, qualquer carro serve, desde que funcione. Consumo livros e cd’s, basicamente. 

L. Maklouf. Como avalia os jornais diários nacionais?

Arbex. Péssimos. 

L. Maklouf. E as revistas Veja, Istoé, Época e Carta Capital?

Arbex. As primeiras três são, em geral, muito ruins, mas eu não coloco um sinal de identidade entre elas. E Carta Capital faz um trabalho investigativo e de conteúdo crítico que não tem nada a ver com aquilo que fazem as outras três.

Veja se assemelha, cada vez mais, a um pasquim da imprensa marrom, é hoje uma revista de quinta categoria. É a “Caras” que se pretende intelectualizada. É ridícula. Por exemplo, a capa com o Stédile retratado como belzebu é tão lamentável quanto a campanha para eleger Ciro Gomes. Não dá mais pra ler. Época e Istoé são, no máximo, “mornas”, e isso se as olharmos com muita bondade. Em geral, falta ousadia, crítica, percepção sofisticada dos fatos da cultura. Falta uma perspectiva brasileira, a coragem de dizer claramente aquilo que tem que ser dito. Falta vontade política de inovar, de interferir socialmente nos acontecimentos do país. E falta uma visão ao mesmo tempo ampla e profunda do lugar do Brasil no mundo. Lançar uma perspectiva brasileira sobre o mundo. Esclareço que eu nem estou falando, aqui, de uma perspectiva “socialista”, mas sim de uma perspectiva qualquer, mesmo “burguesa”. Não há. Só há um blá-blá-blá insuportável que reproduz uma visão de mundo colonizada. Todos esses problemas são decorrência de uma opção editoral que, por sua vez, reflete a tradicional covardia das elites brasileiras. 

L. Maklouf. O que vai mal na grande mídia brasileira? E o que vai bem?

Arbex. Vai mal a falta de cultura geral dos jornalistas e dos donos do jornal; a falta de ousadia empresarial; a falta de uma visão brasileira e a falta de coragem para apostar numa visão brasileira; a apologia ridícula do “discurso para o mercado”, que não é nem livre nem neoliberal coisa nenhuma. Etc etc.

 

 

L. Maklouf. Quem fez ou faz a sua cabeça no melhor sentido da expressão? E por que?

Arbex. Meu pai – José Arbex -, William Shakespeare,Karl Marx, Walter Benjamin, Leon Trotsky, Noam Chomsky, Hannah Arendt, Sigmund Freud, Jacques Lacan, Franz Kafka, James Joyce,Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector. É tanta gente… Ainda bem! 

L. Maklouf. Você ganhou o Herzog 99 com a reportagem “Terror no Paraná”, na revista Caros Amigos – sobre a violência do governo Lerner contra o Movimento dos Sem Terra. Como nasceu e como foi feita a reportagem – da apuração ao texto e à edição?

Arbex. Nasceu de uma conversa com o João Pedro Stédile. Ele me contou o que estava acontecendo. Em princípio, achei meio estranho, já que nada daquilo saía na imprensa. Fui conferir e deu no que deu. 

L. Maklouf. Que livros considera obrigatórios para a formação específica de um jornalista?

Arbex. Vixi maria mãe de Deus!!!! Qualquer um dos autores que citei logo acima (questão 18) e mais um montão enorme, imenso: desde Balzac – o grande cronista do século XIX, graças a quem sabemos muito do que sabemos sobre a formação do Estado nação europeu – aos livros-reportagem que viraram moda (sem nenhuma conotação negativa) nos últimos anos, no Brasil, passando por Umberto Eco, Heidegger, Milton Santos. Digo isso porque, para mim, jornalista tem que ter muita cultura. Muita cultura. É a única forma de não ser engolido pelo Everest de informações vomitadas diariamente pela Internet, televisão a cabo etc etc. Como desbravar a selva de informações e chegar naquilo que vale a pena???? Como identificar o fato jornalístico hoje em dia???? Só tendo muita cultura.

L. Maklouf. Como vê o renascimento de veículos alternativos como “Caros Amigos”, “Correio da Cidadania” e “Oficina da Informação”?

Arbex. Sintoma excelente do cansaço da mediocridade que impera na grande mídia. 

L. Maklouf. Como vê os veículos de crítica da mídia – entre eles o Observatório da Imprensa?

Arbex. Insuficientes. 

L. Maklouf. Qual é a sua avaliação do comportamento ético da mídia?

Arbex. Lamentável.