Por Osvaldo Maneschy

O golpe de 64 foi planejado e desencadeado por militares brasileiros com total apoio dos Estados Unidos que, para garantirem o sucesso da empreitada,  enviaram ao Brasil uma poderosa força- tarefa capitaneada pelo porta-aviões Forrestal (foto) com a missão de dar apoio aos rebeldes  em caso de reação armada de partidários de João Goulart.

uss_forrestal_1Com blindados e apoio aéreo, os fuzileiros norte-americanos empregados na  “Operação Brother Sam” ocupariam o porto de Vitória, marchariam sobre Minas Gerais, combateriam as tropas de Goulart e os civis que reagissem de arma na mão ao golpe e, provavelmente, dividiriam o Brasil em dois como já ocorrera com a Coreia e com o Vietnã.

A invasão só não se concretizou porque João Goulart, ao contrário de Leonel Brizola, preferiu não enfrentar os golpistas – quis evitar a guerra civil.

Segundo Waldir Pires, ex-auxiliar de Jango, em palestra semana passada na UERJ, o presidente João Goulart preferiu entregar o poder porque estava muito doente e fora avisado por seu ex-Chanceler e ex-ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, três dias antes do golpe, que Washington já despachara marines para o Brasil a fim de garantir o sucesso do golpe. E que ele avaliasse muito bem o que ia fazer caso seu esquema militar fosse tênue e evitasse  “uma aventura” porque os militares de direita que estavam conspirando tinham apoio dos EUA.

A “Operação Brother Sam” foi suspensa no último momento porque o desembarque dos marines não foi necessário.  Com a decisão de Jango de sair do país e não lutar, os navios norte-americanos voltaram a seus portos e a operação militar permaneceu  secreta por muitos anos – até que o jornalista Marcos Sá Corrêa, do “Jornal do Brasil”, soube de sua existência em 1976, quando pesquisava documentos na casa do líder do golpe de 64, marechal Castello Branco, em companhia do jornalista Elio Gáspari.

Marcos Sá Correa resolveu ir aos Estados Unidos aprofundar suas pesquisas ao saber que documentos secretos estariam sendo liberados pelo governo dos Estados Unidos sobre o episódio, com base na legislação americana, e que eles ficariam disponíveis para consulta na biblioteca que a Universidade do Texas montara em Austin, Texas, para reunir toda a documentação da presidência de Lyndon Johnson, o homem que ordenou a “Operação Brother Sam”.

Johnson assumiu no lugar do Presidente  John Kennedy, assassinado em Dallas, que por sua vez ordenara ao Pentágono que planejasse a queda de Jango, como também ordenara a invasão de Cuba, no episódio da Baía dos Porcos.

Os detalhes sobre a  descoberta da “Brother Sam”, nos anos 70,  o próprio Marcos Sá Correa revelou em dezembro de 2009 em uma  entrevista para a “Revista de História”, da Biblioteca Nacional.  Ainda em dezembro de 1976 Marcos Sá Correa converteu as informações que colheu na Biblioteca Lyndon Johnson em uma reportagem orginalmente publicada no “Jornal do Brasil” do Rio de Janeiro,  matéria que posteriormente virou livro.

Alunos da Universidade de Santa Maria, a partir da reportagem de Marcos Sá Correa, criaram uma página na internet reunindo grande quantidade de informações sobre a “Operação Brother Sam”, conferíveis no endereço http://brothersam.wordpress.com/.

UM BALANÇO DA DITADURA

Quanto a ditadura que o Brasil de 1964 e que durou 21 anos, o  jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha, reunindo fatos e números, assim a resumiu:

“A conta da ditadura de 21 anos prova que ela atuou sem o povo, apesar do povo, contra o povo. Foram 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança; 200 mil detidos por  suspeita de subversão; 50 mil presos só entre março e agosto de 1964; 11 mil acusados nos inquéritos das Auditorias Militares, cinco mil   condenados, 1.792 dos quais por “crimes políticos” catalogados na Lei de Segurança Nacional; dez mil torturados nos porões do DOI-CODI; seis mil apelações ao Superior Tribunal Militar (STM), que manteve as condenações em dois mil casos; dez mil brasileiros exilados; 4.862 mandatos cassados, com suspensão dos direitos políticos, de presidentes a governadores, de senadores a deputados federais e estaduais, de prefeitos a vereadores; 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos; 1.312 militares reformados; 1.202 sindicatos F intervenção; 245 estudantes expulsos das universidades pelo Decreto-Lei 477 que proibia associação e manifestação; 128 brasileiros e dois estrangeiros banidos; quatro condenados à morte (sentenças depois comutadas para prisão perpétua); 707 processos políticos instaurados na Justiça Militar; 49 juízes expurgados; três ministros do Supremo afastados; o  Congresso Nacional fechado por três vezes; sete assembleias estaduais postas em recesso; censura prévia à imprensa, à cultura e às artes; 400 mortos pela repressão; 144 deles desaparecidos até hoje”.

Apesar dos fatos, saudosistas da ditadura, para celebrar a realização da marcha “com Deus pela Liberdade” realizada em São Paulo há 50 anos e exaltar o golpe de 1964 – ativistas de direita estão trabalhando as redes sociais para mobilizar pela internet simpatizantes para passeatas que pretendem realizar no próximo sábado (dia 22/3) em diversas cidades. Até militares da ativa estão sendo convidados com mensagens específicas direcionadas aos quartéis. Iniciativa lastimável.