Por Rosângela Gil

Na sua participação no 12º Curso Anual do NPC, a professora Virgínia Fontes, na mesa “Marx, Lênin, Gramsci e o papel da mídia hoje, junto com o jornalista Altamiro Borges, levantou boas provocações para os dias atuais. Ela disse que devemos “aprender” a ter dúvidas e que ter um eixo teórico não é ter resposta, mas ter a capacidade de entender.

Virgínia, acertadamente, observa que comunicar e explicar é sempre estar organizando o mundo de uma certa forma. E que a classe trabalhadora deve entrar nesse embate para ganhar.

Desde o final do século XX, algumas linhas de pensamentos dizem que o trabalho acabou, que a luta de classes acabou, para quem Virgínia Fontes responde: “Quando a gente não consegue ver a dominação, é só olhar para a exploração”.

Na sua participação empolgante, o jornalista Altamiro Borges discorreu sobre como a comunicação operária deve ser constituída, basicamente levando em conta três itens: primeiro, deve-se pautar bem, não pautar o que está apenas na nossa cabeça, mas o que está na cabeça do operário; depois realizar um trabalho de profundidade do tema; e terceiro, cuidar da linguagem.

Borges explica que essas eram as preocupações básicas de Lênin ao fazer seus jornais. E que a linha adotada por Lênin nos vários jornais que criou ao longo de seu trabalho de militante, era “falar muito para poucos no jornal de formação, e falar pouco para muitos no jornal de agitação”.

Altamiro Borges que edita a revista Debate Sindical, e que também é militante político, fez uma observação importante: “Burguês pode ir a missa todo dia. Burguês pode dar esmola todo dia. Burguês pode dar tapinha nas costas do trabalhador. Mas o burguês explora. Não é uma questão moral. É uma questão lógica do próprio sistema capitalista”.

O Boletim NPC entrevistou a professora Virgínia Fontes, historiadora e doutora em Filosofia Política pela Universidade de Paris X-Nanterre e que atua no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense, e autora de vários livros também, como “Reflexões Im-Pertinentes”, da Editora Bom Texto. Ela fala sobre a extração do sobre-trabalho nos dias de hoje, luta de classes, reprodução do dinheiro e ainda dá uma geral sobre a exploração da força de trabalho nas entidades ditas filantrópicas e ONG’s, que atuam para ganhar os “corações e mentes” da classe trabalhadora.

O que é extração do sobre-trabalho?

Virgínia Fontes – A extração do sobre-trabalho é a condição de existência de sociedades de classes. Não existe classe dominante sem extrair sobre-trabalho dos outros. Classe dominante é uma classe, organiza o processo produtivo como um todo e impõe isso como sendo a natureza das coisas.

Onde está isso hoje?

Vírginia Fontes –< /b> Em todas as áreas da vida social praticamente. Nós já temos até muita literatura sobre isso. Ricardo Antunes já falou sobre isso. Nós temos hoje uma gama vasta de trabalho sobre isso. Tem um trabalho interessante de David Harvey,  “O Novo Imperialismo”. Eu mesma já escrevi sobre o tema. Onde ela (a extração do sobre-trabalho) se encontra? Nas grandes empresas, trabalhadores contratados que ainda têm direitos ainda. Nas megas corporações, mas elas demitiram muitos trabalhadores em função de evoluções tecnológicas, mas, simultaneamente, outras empresas terceirizaram seus trabalhadores. Então você tem uma gama enorme de trabalhadores que não tem contrato, mas que estão trabalhando. Segundo, o comércio é ponta necessária para o processo produtivo. Quem faz o comércio hoje dos produtos das grandes multinacionais de bebida no Rio de Janeiro, por exemplo? Nós temos os restaurantes, os supermercados, os bares, e os vendedores ambulantes. Esses vendedores ambulantes só faltam ter uniforme. No Carnaval, eles até têm um uniforme de algumas cervejarias. Eles têm algum direito? Eles têm carteira assinada? Têm algum direito associado ao trabalho? Nenhum. Nem nós os vemos mais como trabalhadores.

O que vendem os camelôs? Camelô vende produto feito no mundo inteiro. É trabalho. Mas qual o regime de trabalho deles? Não têm jornada de trabalho. Não têm banheiro. Não têm lugar para comer. Não têm proteção de intempéries. Não têm limite de marcha por dia. O que significa que estamos assistindo hoje a uma generalização da forma da exploração sob o conjunto da população. E é difícil de fato analisar isso, mas a gente precisa, esse é o desafio que a gente tem: conseguir ver como isso está sendo repassado. Há uma difusão do alto empresariamento hoje. Nas grandes empresas, por exemplo, já vêm funcionando o trabalhador que não é mais pessoa física, ele se torna pessoa jurídica. Ele desaparece da estatística como se ele fosse trabalhador, e também não tem mais direitos.

O trabalho acabou, então?

Vírgina Fontes – Não, o trabalho não acabou. O trabalho aumentou, se expandiu. A jornada de trabalho aumentou. O trabalho perdeu direitos. O trabalho está mais barato, porque estamos competindo entre nós, achando ou que acabou o trabalhador, portanto a gente desanima da nossa luta, ou que só é trabalhador o que tem carteira. Essa é uma condição zero para a gente começar a pensar hoje.

Com todas essas mudanças no mundo do trabalho, a luta de classes acabou?

Virgínia Fontes – Logicamente que não. Acontece que a gente está acostumado a pensar a luta de classes como se ela fosse dois batalhões bem organizados: a burguesia, de um lado; e de outro o operariado de macacão. A gente precisa lembrar que na luta de classes evidentemente que o seu aspecto mais importante, mais relevante, naquele que ela tem os seus efeitos mais expressivos, é aquele momento em que as classes dominadas se organizam e tomam consciência do processo de exploração e, portanto, através da própria experiência de vida delas organizam coletivamente a sua luta.

Mas a gente não pode esquecer que a burguesia também precisa fazer isso com relação aos dominados e que, portanto, os setores dominantes estão o tempo inteiro desorganizando, dizendo que a gente não existe, “provando” que a gente não existe, repetindo que a gente não existe. Isso é luta de classes. Quando a gente acha que não está enxergando a classe dominada, procure a dominante. A classe dominante precisa da exploração para existir. Vamos ver como ela está explorando hoje. Nem sempre ela é a dona direta da fábrica, ela pode ser um grande acionista. Ora, o grande acionista financia, compra e vende ações. Isso significa garante que uma empresa se expanda ou encolha. E para quê ter dividendos? O que significa ter dividendos? Significa que a empresa tem de ter muito lucro em pouco tempo. Não é isso que é juro alto?

Para ter muito lucro em pouco tempo eles contratam caçadores de cérebros. Eles devem gerenciar fábricas de tal maneira que elas dêem muito lucro em pouco tempo. Como se faz isso? Explorando muito o trabalhador e muito tempo do trabalhador. Isso significa rebaixamento geral do valor da força de trabalho e maior tempo de exploração.

Como o mundo do trabalho está difuso hoje, podemos ter dificuldade em “enxergar” o trabalhador hoje e também a cl

asse dominante. Como conseguir vê-la?

Virgínia Fontes – É fácil. Em primeiro lugar, comprar o jornal Valor Econômico. Ela (a classe dominante) está lá. Ela se apresenta, se mostra, se exibe, faz a pauta política, faz a pauta do governo. É lá que está, não é na imprensa de massa. A mídia de massa tem um papel mais de educar e adestrar os setores médios mais do que pautar o comportamento do próprio grande capital. Mas eles estão numa multiplicidade de entidades privadas que procuram organizar a cabeça dos trabalhadores.

Como assim?

Virgínia Fontes – Por exemplo, Fundação Ayrton Senna define hoje como deve ser o currículo das escolas. E vai para as escolas. Vamos pegar a revista Veja, que é uma empresa que se chama Editora Abril, porque a revista Veja não anda de perninhas, essa empresa tem uma revista que se chama Veja em sala de aula, que é comprada pelos governos, que dá uma “baba” de dinheiro, vai explorar isso por exemplo. Quem está explorando todas as publicações da empresa Editora Abril e vendo que papel elas cumprem? A gente fica brigando com um pedaço dela, com um espelho dela que é a Veja. Nós temos de ver a empresa Editora Abril, que tem inúmeras empresas, vendem essas revistas, formatam a cabeça das crianças e tem uma fundação. Eles apresentam isso como sendo um trabalho solidário, como sendo um trabalho da sociedade sobre a sociedade, o tal “responsabilidade social”. De fato o que é que eles estão fazendo? Eles estão dizendo: quem forma os meus trabalhadores sou eu, não é quem educa só, é quem “forma”. Eles estão aproveitando novas formas de exploração da força de trabalho por intermédio dessas entidades que atuam com projetos nos quais os trabalhadores não têm contrato. Nessas entidades filantrópicas tipo algumas ONG’s (Organizações Não-Governamentais), como é que trabalham essas pessoas? Sem contrato, sem férias, sem décimo terceiro, sem limite da jornada, sem direitos. E depois no final do ano têm de apresentar os resultados, que são avaliados hoje por um modelo de eficácia do Banco Mundial. Isso é a exploração da força de trabalho.

Que papel estão desenvolvendo? Estão fazendo um papel que deveria ser do (setor) público. Mas o governo paga essas entidades, atenção. Então, a gente tem aí novas modalidades de formação de trabalhadores, realmente produzindo trabalho e mais esses trabalhadores estão contribuindo para rebaixar a sua própria consciência.

Como se reproduz o lucro que não seja pela exploração do trabalho de alguém?

Virgínia Fontes – Essa era uma boa idéia. A propaganda dos jornais mostra como se o dinheiro se reproduzisse dele mesmo. Então, a gente poderia fazer a seguinte hipótese: nos cofres dos bancos têm dinheiro fêmea e no nosso bolso, dinheiro macho. Por isso o nosso dinheiro não se reproduz. Quando a gente coloca no banco, ele cruza e dá filhotes. Ora, evidentemente que isso é mentira, mas se vocês pegarem 90% das propagandas hoje é como se fosse assim. O que o banco faz com o nosso dinheiro? Investe na exploração da força de trabalho com ou sem contrato, com condição de vida digna ou sem condição de vida digna, com crianças ou sem crianças. Estou falando de grande sistema bancário, mas o banco não é isolado. Ele é hoje parte integrante do processo de extração de mais-valia. Isso é que a gente vai ter de parar para pensar e investigar. 

No século XXI, a classe trabalhadora existe e a máxima de Karl Marx (Trabalhadores do mundo, uni-vos) ainda está valendo?

Virgínia Fontes – Ainda está valendo plenamente. Não só está valendo plenamente, como se a gente pensar por um outro lado a importância que a burguesia brasileira dá hoje a essas formas de convencimento que eu brinquei chamando de FASFIL – Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos -, que é como o IBGE classificou essas entidades, significa que eles têm medo desses trabalhadores ainda. Porque eles existem.