O “Fantástico” da Rede Globo tem um quadro chamado “Ser ou não ser”. Conduzido pela professora de filosofia Viviane Mosé, procura ensinar filosofia e é muito bem feito, mas não consegue esconder sua origem. Nasceu das entranhas de um dos maiores monopólios de telecomunicações do Planeta. Não dá ponto sem nó.  

No programa de 15.10.2006, o tema era o “golpe militar de 31 de março de 64”, segundo as palavras da própria matéria. Reafirmando a nova fase da emissora, o quadro diz que trata-se de “um dos períodos mais sombrios de nossa história: foram duas décadas de repressão política, perseguição e censura”. Fala sobre violências e torturas. Reconhece a resistência heróica da oposição, ilustrando com os dramas de Criméia Almeida, sua irmã Amélia e seu cunhado, César. Todos eles presos e torturados. Mas, engata tudo isso com a pergunta: “Mas o que é o poder?”. Responde invocando o filósofo francês Michel Foucault: “O poder é uma rede de relacionamentos”. Diante de uma estação de energia elétrica, Mosé compara o poder a uma rede, em que “não podemos identificar o poder apenas com a estação central, mas principalmente com os fios que chegam a todos os lugares e atingem todas as pessoas”. Correto. Por muito tempo, Foucault avançou por este caminho. E estava certo. Identificar o poder com apenas um lugar era perder de vista sua capacidade de se enfiar em muitos outros. Mas, também chegou a alguns becos sem saída. Se o poder está presente em todas as relações. Se a “estação central” é secundária em relação “aos fios que chegam a todos os lugares”, quem responde pelo estabelecimento? Todos nós, igualmente? Governos, patrões, sindicatos, movimentos sociais têm todos o mesmo peso na manutenção do poder? O próprio Foucault teve que voltar atrás e admitir a necessidade de nos apoiarmos em pontos de resistência bem localizados.  

É verdade que a reportagem admite que “a prática de abusos físicos continua presente em nossa sociedade de várias formas”. E a identifica no “espancamento de mulheres e crianças, na prostituição infantil, nas favelas, no asfalto”. Mas, acaba citando tudo isso como algo que somente “parece ter deixado marcas profundas em nossa cultura”. Como se apenas tivesse virado um hábito. É verdade. Há muita coisa horrível entranhada em nosso modo de viver. E não serão apenas decisões políticas que irão mudá-las. Mas, o poder não está em todos os lugares com o mesmo tamanho. Há centros muito bem localizados dele. São os poderes políticos constituídos, com paletó e gravata. São as polícias, ainda que muitos de seus integrantes sejam também vítimas da máquina de moer dignidade. São os donos de empresas que se aproveitam de qualquer esquema que mantenha seus lucros em alta, inclusive trabalho semi-escravo e infantil.

 E, dentre elas, os monopólios dos meios de comunicação, que produzem programas tão competentes, quanto ideologicamente alinhados com o “Poder” como o Fantástico e seus quadros bem feitos.

                                                                                Por Sérgio Domingues.