Por Tariq Ali
Acho que devemos começar a falar sobre uma palavra muito usada nos últimos anos: fundamentalismo. Uma palavra que começa com “F”; e vou agora ligá-la a outra palavra, que é também usada ou que tem sido usada através dos séculos, que é a palavra fanatismo. A palavra fanatismo tem a sua origem nas antigas Grécia e Roma e deriva da palavra fano. Fano se refere a templo ou santuário. Dessa forma, a palavra fanatismo tem, automaticamente, um significado religioso, que se refere a alguém que é um extremista religioso. Esta palavra – fanático – tem sido constantemente denunciada e atacada pelos pensadores do Iluminismo, contrários ao fanatismo e ao racionalismo. Atualmente, essas duas palavras… – e houve um enorme debate nesse sentido, porque alguns se opuseram, da mesma forma como o fez Rousseau contra a maioria dos Iluministas – sem algum grau de fanatismo, não se podem promover mudanças. E, caso você venha a ser como os filósofos Iluministas, afirmou Rousseau, relaxe e aproveite a vida, mas não alcançará nada com isso. Então, como ele afirmou em “Confissões”, o fanatismo tem certos valores. Com isso, ele estava querendo dizer que, quando uma pessoa se dirige a uma ação, não tem que ser cem por cento razoável já que, se as pessoas forem total e completamente racionais, não conseguirão fazer absolutamente nada. Este é, portanto, um debate interessante, o qual ocorre desde aqueles tempos. Mas, inicialmente, a palavra fanatismo foi totalmente ligada ao fanatismo religioso. Da seguinte maneira: uma pessoa que, em defesa de seu santuário, de seu templo, igreja, sinagoga ou mesquita, está preparada para fazer o que for necessário para defender o que acha que precisa ser defendido.
Mais tarde, apareceu a palavra fundamentalismo. Esta palavra surgiu, essencialmente, do Cristianismo. Não existe, no idioma árabe, uma palavra para fundamentalismo. Trata-se de uma palavra que apareceu durante as guerras da Reforma, que apareceu mais fortemente durante a ruptura protestante do Catolicismo, e os protestantes costumavam descrever-se a si mesmos como fundamentalistas. As origens dos Estados Unidos da América, um país criado pelos protestantes fundamentalistas – pessoas que fugiram da Grã-Bretanha para tomar o país de outros – enfim, as origens daquele país foram fundadas nesse fundamentalismo. Faz parte da memória histórica dos fundadores e, apesar da constituição dos Estados Unidos ser totalmente secular – porque Jefferson e outros foram guiados pelo Iluminismo -permaneceu um forte rastro do fundamentalismo protestante na cultura americana.
Iniciei com tais colocações para reverter aquilo que é normalmente discutido quando se fala sobre fundamentalismo. De todos os países do Ocidente, os Estados Unidos são o país mais religioso. Basta dar uma olhada nas leis e nas estatísticas que surgem nos Estados Unidos: os números são bastante interessantes. Especialmente em contraste com a Europa ou mesmo com outros países do Hemisfério Sul. Ao se interrogar a população americana, descobre-se que noventa por cento acredita em Deus e setenta por cento acredita em anjos. Sob o meu ponto de vista, seria mais progressivo se noventa por cento acreditasse em anjos e setenta por cento acreditasse em Deus, porque, para esses, os anjos têm um lado surrealista. Podemos imaginar que acreditar em anjos é algo criativo, mas acreditar em Deus presume uma característica sólida, com a qual é difícil romper. Assim que, hoje, depois de um longo período de tempo, há uma administração nos Estados Unidos na qual o presidente é um fundamentalista. Dessa maneira ele se confessa: como um cristão renascido. Que ele renasceu, nós já sabemos e, que ele renasceu como cristão, ele já nos contou. O Ministro da Justiça americano, o general John Ashcroft, é um fundamentalista cristão e inicia seu trabalho, pela manhã, no Departamento de Justiça, segurando as mãos dos colegas e forçando-os a cantar hinos. Alguns dos quais eles escreveram e são maus. Temos, também, o General Boikin, que foi recentemente nomeado como Secretário de Defesa do Departamento de Inteligência. A palavra Inteligência está erroneamente colocada, porque esse general acaba de informar às pessoas que a única verdadeira religião é a sua visão de Cristianismo, que o seu Deus é superior ao Deus do Islamismo, a Alá, e que o seu Deus cristão sempre triunfará sobre Alá; ele continuou, então, a mostrar quão inteligente ele foi ao denunciar o Islamismo como sendo uma religião de idólatras. Qualquer um que tenha estado na escola e que estudou religião comparativa, sabe que há uma característica inerente ao Islamismo que é a de ser totalmente hostil a ídolos, a ponto de Mohamed ter deixado instruções que dizem que nunca deverão existir imagens dele; de que há apenas um Deus e nada mais. Não deve haver nenhuma imagem de pessoas que viveram na Terra. Até hoje, não temos permissão para mostrar imagens de Mohamed e, se f
orem mostradas, os seguidores se irritarão. Portanto, aí está esse general americano que veste o seu uniforme e vai pregar na igreja todos os domingos para dizer isso – é impressionante. É impressionante por se tratar do país mais poderoso do mundo, o único império mundial, sob o controle de pessoas assim. Esse é o fundamentalismo, o qual eu descrevi como sendo a mãe de todos os fundamentalismos; essa combinação de poder militar e econômico – esse credo particular. Houve um evento muito estranho depois da tragédia de 11 de Setembro. Duas semanas depois, houve um grande encontro num estádio de Nova York e lá estava o Presidente, o grande pensador, próximo ao Reverendo Billy Graham, outro grande pensador e pregador evangélico. E o Reverendo Billy Graham fez um discurso para as pessoas que ali estavam para lamentar a perda das pessoas que foram vítimas do atentado de 11 de Setembro, o qual todo o mundo lamentou. O Reverendo Billy Graham, durante o seu discurso, disse: “Senhor Presidente, eu recebi e-mails e telefonemas de todo o país. Centenas e milhares deles fazendo a seguinte pergunta: como Deus deixou que isso nos acontecesse?” E todos esperaram pela resposta de Billy Graham – afinal de contas, ele é o mais antigo pregador cristão. O que ele iria responder? Todos o olharam, até mesmo o grande-presidente-pensador. E ele respondeu: “Eu tive que responder que eu não sei”.
Portanto, acho que devemos colocar o fundamentalismo em perspectiva. Foi por isso que comecei a falar sobre os Estados Unidos da América: devemos colocar esse fundamentalismo em perspectiva. E o fanatismo também deve ser colocado em perspectiva.
Há todos os tipos de fanáticos no mundo e pode-se encontrá-los em todas as esferas. Há fanáticos literatos, que acreditam firmemente em uma literatura em particular. Tenho a certeza de que, atualmente, na área da Psicanálise e da Medicina, há diferentes correntes de fanatismo, que acreditam precisamente numa ou noutra escola e que se enraivecem muito – é claro que conhecemos perfeitamente que, dentro do Marxismo, surgiram diferentes correntes, as quais, igual e fanaticamente, denunciam umas às outras, como se estivessem denunciando inimigos – assim que, devemos ter um senso de perspectiva para não nos deixarmos levar por essas palavras.
Gostaria de abordar um tema bastante controvertido: os atentados suicidas. Pode-se ler nos jornais que homens-bomba atacaram uma cidade, se mataram e mataram civis do outro lado. E, fizeram isso em cafés, hotéis, etc. É horrível, nós o sabemos. É horrendo! Mas, dissociar completamente o que um homem-bomba fez da realidade da ocupação – isto não é permissível. E, é muito interessante. Recentemente, um artigo muito tocante foi escrito por um homem chamado Avraham Burg, um dos homens mais importantes de Israel, um sionista ferrenho – ele escreveu o artigo em hebraico, o qual foi reeditado em toda a Europa. Ele disse: “Eu sinto muita vergonha por ser um israelita e um sionista, e por causa daquilo que temos feito aos palestinos”. E, acrescentou: “se eles são tratados como nós os tratamos – quando a vida já não vale ser vivida – porque eles não deveriam matar-se e, de quebra, atingir-nos também?” Foi muito importante que isto tenha sido dito por um líder sionista em Israel. Algumas pessoas podem vir a me dizer: “você está estimulando o terrorismo”. Como se vê, a linguagem se tornou desgastada. Especialmente desde o 11 de Setembro, mas mesmo antes da tragédia.
Esses são os dois conceitos de fanatismo e de fundamentalismo. Gostaria agora de falar sobre outros dois conceitos: coragem e consciência. A coragem pode aparecer de diferentes maneiras. Pode aparecer quando alguém, de quem não se espera coragem, subitamente faz alguma coisa e você reage da seguinte forma: “aonde ele/ela conseguiu essa coragem para fazer isso? De onde veio isso? O que os moveu?” E, eu gostaria de narrar uma história sobre coragem. Um ano antes dos Estados Unidos invadirem o Iraque, eles tentaram derrubar um governo democraticamente eleito na América Latina, na Venezuela. Muitos de vocês devem ter lido a respeito. E, a questão relativa a Hugo Chavez é: alguns gostam dele, alguns não gostam, mas este não é o ponto principal. O ponto é que ele foi eleito por seis diferentes vezes pelo povo da Venezuela. A constituição da Venezuela foi aceita por dois terços da população. E todos concordam que se trata de uma constituição muito democrática. Agora, a oposição a está usando. Contudo, os Estados Unidos tentaram derrubá-lo e o conseguiram por 48 horas. Mas, finalmente, as pessoas pobres vieram dos barrios de Caracas, circundaram o Palácio, e os soldados amotinados se recusaram a aceitar o golpe, o golpe de estado. E assim foi. Então, dá5
se a situação da tentativa de derrubar Chavez e colocá-lo em uma prisão; e, um evento muito interessante ocorreu e quero descrevê-lo para vocês porque, para mim, ele mostra mais coragem do que qualquer outro. O “novo Presidente” da Venezuela, que é um corrupto homem de negócios local – vocês conhecem o tipo de homens de negócios que os Estados Unidos gostam de colocar no poder, por toda a parte – e estava sendo empossado na Presidência, dentro do Palácio de Miraflores, quando os soldados entraram e acabaram rapidamente com o seu experimento na área da democracia. Porém, antes disso ocorrer, o General que chefiava o golpe saiu do palácio para o local onde uma grande orquestra costumava tocar o Hino Nacional nas ocasiões em que o Presidente sai do palácio, quando recebe um visitante importante ou um chefe de estado. O General disse à orquestra, a qual é militar e todos os seus componentes soldados e, nela, há um jovem de 17 ou 18 anos, que toca o trompete: “vou trazer o novo Presidente da Venezuela aqui para mostrá-lo à imprensa e, no instante em que ele vier, quero que vocês toquem o Hino Nacional”. E, os soldados da orquestra disseram: “Que novo Presidente? Nós elegemos um, Hugo Chavez.” E, ele disse: “não se preocupem, aconteceu algo que vocês não precisam saber neste momento. Apenas toquem o Hino”. Os soldados falaram uns com os outros de forma bastante agitada. O General aproximou-se do jovem de 17 anos – o tocador de trompete – e disse-lhe: “quando eu trouxer o novo Presidente, você tocará o trompete.” Esse rapaz de 17 anos respondeu: “mas o meu Presidente é Hugo Chavez, General. Eu toco o trompete para ele, porque ele foi eleito!” E, o General disse: “Você sabe quem eu sou? Sou o General …e eu estou lhe ordenando que toque”. E, o rapaz de 17 anos pegou o instrumento e entregou-o ao General, dizendo: “General, você parece querer muito que alguém toque o trompete. Pois aqui está…toque-o você mesmo”. Quando se tem coragem como esse rapaz teve, ao dizer a um general para não o chatear, torna-se muito difícil derrubar líderes populares, líderes eleitos, etc. Mas, essa coragem dos jovens é um fenômeno interessante. O que lhes dá essa coragem? Porque? O que fez Chavez para encorajar pessoas como essas? Não muito. Ele não fez muito, porém algumas poucas coisas foram feitas. A terra na qual vivem os favelados foi dada a eles, e é uma grande área naquele país. E esta é a primeira vez na Venezuela em que há uma oligarquia não só de riquezas, mas também de cor de pele – a oligarquia foi derrubada e há pessoas de cor de pele diferente no poder. E há um contínuo ataque contra Chavez na televisão, a qual é privada – noventa por cento das televisões na Venezuela são privadas – e, ainda assim, ele venceu. Isso prova que a consciência pode ser criada – e é criada – através de medidas concretas e através da vida diária das pessoas e, às vezes é tão forte que pode atravessar toda a rede da mídia e toda a propaganda propalada contra ele. Este jovem soldado entrará para a história da Venezuela – ainda que em nota de rodapé – como o jovem soldado que se recusou a obedecer às ordens de um general e nada foi feito contra ele. Eles não o tocaram sequer.
E, se desse episódio passamos a um outro, para discutir como em um grande levante político, algumas vezes, e em qualquer situação complicada, o humor se torna muito importante. Estou um pouco preocupado sobre isto porque, quando escrevi meu último livro “Bush in Babylon” (Bush na Babilônia), as pessoas que distribuíram o livro nos Estados Unidos ficaram muito nervosas. E a razão pela qual ficaram nervosas é a de que a capa mostra um menino iraquiano – de dois anos de idade – urinando na cabeça de um soldado de ocupação.
Vocês não poderão vê-lo daqui, mas vocês podem vê-lo urinando no soldado. E, nos Estados Unidos, o nosso distribuidor disse que as pessoas ficariam muito chateadas com isso, e eu respondi: “não, o livro explica bem”. Porque essa capa é importante? Por causa do papel desempenhado pelas crianças quando o seu país foi ocupado. Trata-se de algo que tendemos a esquecer ou mesmo não falamos a esse respeito. Então, eu disse: “é uma capa engraçada”. Mas, ao mesmo tempo, tem um sério propósito: mostrar o que acontece com as crianças. Portanto, quando os Estados Unidos ocuparam e capturaram o Iraque – nas primeiras duas semanas após a ocupação – eles estavam desesperados para obter relatos de boas vindas a eles. Ninguém lhes deu as boas vindas, é claro. Mas, eles queriam mostrar que estavam sendo bem-vindos. Então, tentaram dar chocolates às crianças, para que viessem apertar as mãos dos soldados: as crianças sorririam e as fotos seriam assim tiradas. Mas, pelo fato de que a maioria dos jornalistas ocidentais que cobriam isto – assim como os fotógrafos – não falava árabe, eles não podiam entender o que as crianças diziam enquanto sorriam. Havia uma jornalista britânica, Susan Goldenberg, do “The Guardian”, que falava hebreu e árabe e ela relatou que as crianças faziam apostas para ver quem iria apertar as mãos dos soldados. E, as crianças de 4, 5, 6, 7 e 8 anos de idade iam apertar as mãos dos soldados sorrindo, e diziam: “Nós te odiamos, seu f…da p….”.
Porque o fizeram? Primeiro, por valentia e, em segundo lugar, porque as crianças pequenas sentem dor e raiva pela ocupação – e humilhação – muito mais fortemente do que os seus pais; e, também, porque elas ainda não desenvolveram, nessa época de suas vidas, uma forma racional de pensar. Para eles, o instinto é mais importante. Os pais e as mães dessas crianças teriam medo de dizer tais coisas aos soldados, mas as crianças não têm medo. O mesmo fenômeno acontece na Palestina. Lá, as crianças palestinas jogavam pedras nos soldados israelenses. Não eram os mais velhos que estavam fazendo isso, mas, sim, as crianças. E há um exemplo de humor nas ocupações: o Ministro de Defesa, Paul Wolfowitz, que foi quase morto há uns dias atrás, no Iraque, tinha chegado a Bagdá numa visita anterior, e dado uma entrevista coletiva à imprensa. Nessa entrevista, ao ser perguntado: “a guerra não está indo bem para você; você pode explicar por que?”. Ele respondeu: “a razão é que há muito estrangeiros aqui no Iraque”. Pensem bem! Ele não estava se referindo aos exércitos de ocupação americano e britânico. Ele se referia a outros árabes provenientes de países vizinhos que foram ajudar os seus irmãos árabes. Portanto, o fato de um político americano poder se levantar em Bagdá para dizer: “o problema no Iraque é que há muitos estrangeiros, e é por isso que há essa desordem “… todo o mundo árabe riu muito! Mas, os jornalistas ocidentais que cobriam a entrevista coletiva não riram, porque estão tão profundamente entranhados na cultura americana, na necessidade de um império americano, que alguns deles – não todos – perderam a sua visão crítica das coisas. Vinte anos atrás, todos teriam reagido com risos. Um terço do exército britânico está no Iraque, centenas de milhares de americanos estão no Iraque e eles dizem que o problema é que há muitos estrangeiros por lá.
Depois, há o problema da transferência. Tenho certeza de que se trata de um conc
eito bem conhecido por vocês todos. Mas, vamos discutir essa questão em relação a Israel e à Palestina. Quando Sharon decidiu, após o 11 de Setembro, embarcar na sua guerra contra os palestinos, ele decidiu ocupar Jeneen e ensinar uma lição aos palestinos, o que já era feito desde 1948. De qualquer forma, esta seria mais uma lição a ser dada. E um coronel israelense muito corajoso – do Exército de Israel – contou a um jornalista do jornal “Maariv”, de Israel: “se formos forçados a ocupar essas cidades palestinas e campos de refugiados – quer gostemos, ou não – teremos que usar exatamente as mesmas táticas que os alemães usaram no Gueto de Varsóvia”. Foi o que disse esse coronel de Israel. Nenhum jornal americano noticiou isso. Mas o fato é que muitos israelenses entendem o que eles estão fazendo. As pessoas perguntam sobre como aqueles que foram torturados, massacrados, mortos e que sofreram durante a Segunda Guerra Mundial, como podem eles se comportar assim com outras pessoas? Temos que dizer que o motivo é: eles aprenderam muitas coisas más naquela experiência em particular. Há um livro muito interessante, escrito por Victor Klemperer, um judeu alemão que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial: ele fez um diário relativo a cada um daqueles dias. É um livro fabuloso. Ele sobreviveu porque era casado com uma mulher alemã que lhe deu cobertura; ele e um grupo de outros judeus que estavam em posição semelhante sobreviveram. Porém ele observou cada detalhe, os mínimos detalhes daquele período de 12 anos. E ele descreve como, de alguma forma, a pior coisa não foi, sequer, o fato de ser preso ou de ter sido levado para o campo de concentração – o que poderia ser pior? Pois foi quando eles tiveram que se tornar cidadãos de segunda classe e foram forçados a usar a estrela. E, quando se lê as descrições que ele faz das humilhações sofridas, quando se cuspia em um judeu ao ser visto com a estrela, ou se dificultava a ida deles de uma cidade a outra, ou os expulsavam dos ônibus, enfim, quando se passa por essas experiências, ao ler as descrições atuais relativas aos palestinos, sobre o que eles são forçados a viver, o que lhes está acontecendo e como eles são tratados pelos soldados de Israel: estes os tratam como se eles fossem um Untermensch, uma espécie sub-humana.
Uma outra coisa que Klemperer escreveu no seu livro se refere a quando ele começou a recolher as palavras do povo judeu, da nação judaica, como se os judeus fossem exatamente os mesmos grupos monolíticos que pensam ao mesmo tempo. Ele disse: “inicialmente, nós ouvimos isso de Hitler”. Ele os usaria para dizer “essas são as pessoas a quem devemos subjugar” e, subitamente, ele se lembrou de onde havia tirado tais palavras. Ele disse ter lido, primeiramente, na literatura sionista de Herzl – foi aí que Hitler se baseou em seus dias de juventude anti-semítica, de políticos anti-semitas que parafrasearam Herzl, que leram Herzl.
Porque, antes disso, a maioria dos judeus que estavam integrados em diferentes partes da Europa, especialmente na Europa Ocidental, França, Alemanha e Grã-Bretanha, se acreditavam alemães, franceses ou britânicos. Assim, ele discute como isso tudo floresceu, como esse processo começou. E é uma questão muito interessante. Uma questão que deve ser estudada agora em relação ao que aconteceu aos palestinos. Se assim o desejar, todos os dias você pode ler relatórios do Movimento de Paz de Israel – Gush Shalom, um corajoso israelita, outro exemplo de coragem. Os soldados israelitas diriam “nós não lutaremos além das 67 fronteiras”. Os pacifistas de Israel vão ajudar os palestinos diariamente. E todos os dias eles enviam e-mails relativos a outra criança palestina que foi morta – falando em crianças novamente. Essas crianças – jovens meninos que são mortos pela Força de Defesa de Israel – não são mortos porque têm uma bala no braço ou na perna: levam uma bala na cabeça.
Portanto, com crianças sendo o alvo dessa maneira, porque o mundo está silencioso? Para os oficiais israelitas, os palestinos são um Untermensch. Para os oficiais americanos, os palestinos são todos terroristas. Para os mercenários regimes árabes que existem nessa região, os palestinos representam uma vergonha. Isso é o que acontece essencialmente, e todo o mundo que fala de direitos humanos, disso ou daquilo, não olha para o que está acontecendo com os palestinos. Portanto temos aqui não só um caso de transferência mas um clássico exemplo de padrões duplos, de duas formas diferentes de ver uma mesma experiência. Quando acontece diante dos seus olhos, você não vê o que está acontecendo porque não quer ver. Porque se o visse diariamente você iria querer fazer alguma coisa e não há nada que se possa fazer.
Há, então, a questão da linguagem. A linguagem que desde 11 de Setembro fez com que a palavra terrorista fosse aplicada a qualquer pessoa que discorde virtualmente das políticas do governo americano. No primeiro discurso feito por Bush após 11 de Setembro, ele não disse: “Se você não está conosco, você está contra nós”. Isso é obvio e pode ser verdadeiro de uma certa forma. Ele disse: “Se você não está conosco, você está com os terroristas”. Muito diferente. Muito diferente. Ninguém desafiava os Estados Unidos da América porque eles estavam sob um profundo trauma. E isso foi totalmente aceito. Portanto, toda oposição aos regimes existentes em diferentes partes do mundo foi chamada de terrorismo, e eles foram apoiados. Foi assim que Ariel Sharon se tornou um valioso aliado na guerra contra o terror. Foi assim que Vladimir Putin, na Rússia, se tornou um valioso aliado. Porque o que ele fez aos chechenos, quero dizer, mais chechenos foram mortos do que todas as mortes ocorridas no incidente da região dos Bálcãs. Mas o mundo não nota isso porque é uma guerra justificada. É uma guerra contra o terror e a linguagem usada pela mídia, pela mídia global, é uma linguagem de conformismo, que não mais formula as perguntas cruciais que precisam ser questionadas pelo poder. Isso varia nas diferentes partes do mundo mas as redes de televisão estão infectadas por isso. Curiosamente, em um momento em que se fala mais em globalização, há menos informação sobre o que ocorre no mundo. A maior parte dessas informações vêm das mesmas fontes, das fontes que comandam o mundo, fontes que lideram a globalização, o processo de globalização: as fontes que produziram as guerras. Eles são aqueles que dominaram a mídia. Deveríamos estar satisfeitos com o fato de que, pelo menos, existem sinais de que o Pentágono – a grande máquina militar dos Estados Unidos – decidiu se virar para a cultura. Como sabemos disso? Sabemos porque houve um anúncio há umas 6 semanas de que haveria uma apresentação de um film
e no Pentágono, que se intitulava “A batalha dos argelinos”, feito por um italiano, Gilo Pontecorvo. É um filme clássico dos anos 60, 70, sobre a guerra na Argélia. E é um filme brilhante. Se você não o viu deve ir vê-lo, porque é um bom filme. Trata-se de um filme que foi exibido pelos cinemas de arte em todo o mundo; os franceses o baniram.
O que fez o Pentágono exibir esse filme às pessoas que lá trabalham? É interessante. A resistência no Iraque foi o motivo. Eles queriam saber o que fazer ao ocupar uma capital árabe. E alguém deve ter dito: assista “A batalha dos argelinos”. “A batalha dos argelinos” é um filme no qual os franceses ganham tal batalha, mas perdem a guerra. E, no final do filme, pode-se ver uma nova tormenta chegando, o que levou os franceses a se retirar da Argélia. Portanto, espero que eles tenham aprendido as lições pertinentes ao mencionado filme.
Porque as outras lições que eles poderiam aprender seriam as de que a forma de atacar as resistências pode ser por morte, por tortura – há cenas brutais de tortura que mostram como os franceses torturavam o inimigo. Quero dizer, a tortura se tornou institucionalizada na guerra da resistência na Argélia. Também mostra como as mulheres participaram dessa luta, carregando bombas nas bolsas de compras. Também mostra o que aconteceu nessa guerra: aquilo que agora chamamos de homens-bomba, pessoas que se preparam para sacrificar suas vidas somente para atacar os franceses. De uma certa forma, uma vez começada uma luta ou qualquer guerra, qualquer um que participe desta guerra é provavelmente um suicida, já que deverá morrer. Ao tomar tal decisão – a de que você poderá ser morto – você pode ser visto como tal.
E isso acontece na Argélia. Então, eu estava imaginando o que os generais americanos estariam pensando ao assistir o filme de Gilo Pontecorvo – um antigo cineasta marxista da Itália. O que pensariam os generais ao ver esse maravilhoso filme diante dos seus olhos. Talvez ele lhes dê uma pausa para pensar – temos essa esperança. Porque uma coisa que certamente ocorreu – no caso de se discutir sobre resistência – é que se espera resistência por parte de nós todos, mas não dos Estados Unidos. E você pode perguntar como essa distinção acontece? Quando me encontro sentado em meu escritório em Londres, após haver conversado com três iraquianos de diferentes cidades do Iraque e quando estou escrevendo um artigo antes da guerra, pensando se os Estados Unidos, após haverem capturado o Iraque – o que, é claro, eles podem conseguir porque, militarmente, eles são o poder mais forte do mundo – o que eles farão depois de terem lidado com a resistência. Porque, indiscutivelmente, haverá uma resistência. Eles disseram: “não, não, vocês vivem em sonhos antigos: não haverá resistência”. Eles acharam que iriam ser recebidos com doces e flores. Porque pensaram assim? Porque o ditador do Iraque não era popular. Essa é uma razão. Ele não era popular mas, mesmo as pessoas que não gostavam dele, não queriam ser ocupadas pelos Estados Unidos. Por que? Porque eles têm uma memória histórica. Esse país foi criado somente em 1920 e, a partir dessa data, lutaram contra os britânicos que os criaram. Houve épicas lutas de resistência no Iraque – em todas as partes do Iraque – contra o Império Britânico. Os avós que lutaram contra os britânicos ainda estão vivos – estão idosos, mas ainda estão vivos. E relatos são transmitidos de uma geração a outra, relativamente ao que fizeram quando os britânicos ocuparam o país. Portanto, resistência aos impérios faz parte da memória histórica do povo do Iraque. Eles não se esquecem disso. É como a resistência à ocupação na Europa, que faz parte da memória de muitos países europeus que resistiram à ocupação nazista. Ainda assim, todas essas pessoas subitamente esqueceram o que significa ocupação quando se trata do Iraque. Eles pedem para que não resistam, mas como podem eles não resistir? Daí, eles respondem: “Mas não resistam da forma como resistem”.
Mas de que outra forma eles podem resistir? Eles não podem resistir simplesmente com palavras, porque as palavras são ignoradas. E essa resistência iraquiana começou a tomar forma, a restabelecer a política nos Estados Unidos da América. O fato de haver dois candidatos democráticos que estão contra Bush – Howard Dean e Wesley Clark – que começaram a atacar a Guerra no Iraque dizendo que foi um erro; e, Howard Dean diz que vai retirar as tropas. Por que isso está acontecendo? De onde eles retiraram esses termos? Eles não falaram nada antes da guerra no Iraque. A razão para isto se encontra na resistência do Iraque.
Por que os europeus estão calados? Eles estavam desesperados para se juntar a eles. Joschar Fischer, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, disse aos iraquianos: “Não resistam aos americanos”. Chirac disse aos americanos: “Velocidade de Deus, vitória rápida”. Eles se calaram novamente, o que é positivo. Por que? Por causa da resistência no Iraque. Sem tal resistência, nada disso teria acontecido. A outra coisa que a resistência no Iraque fez, foi acabar com toda a onda de invasão à Síria e ao Irã, sobre as quais se falava há poucos meses. E, uma outra coisa: quando eles não estavam falando disso, eles diriam “bem, talvez não precisemos invadir a Síria e o Irã: quando eles virem o que está acontecendo no Iraque, eles nos obedecerão”. Pensem nisso! Eles vêem o que está acontecendo no Iraque. Primeiramente, eles não chamavam de resistência, eles eram simplesmente terroristas; de acordo com a imprensa americana eles são terroristas. Mas, bem devagar, há alguns jornalistas americanos decentes que agora começam a dizer: “Esta é uma guerra de resistência”; e os jornalistas da Associated Press agora chamam a isso de resistência. Não é, e muitos jornais americanos não dizem isso.
Agora ocorre um clássico estágio inicial de guerrilha contra a ocupação. Assim foi no Vietnã, assim ocorreu na Nigéria e assim ocorreu no Quênia durante a ocupação britânica – é o primeiro estágio. É descentralizado e existe em diferentes cidades, não se move, e ainda não adquiriu uma base nacional. É o primeiro estágio. E será muito difícil para os Estados Unidos se retirar. Se eles assim o fizerem, eles considerarão isso uma derrota – eles o sabiam; portanto, eles juntaram lá os exércitos de outros países para reduzir o número de mortos e feridos relativamente ao Exército americano. Eles queriam tropas japonesas no Iraque. Pensem nisso.
Bush pressionou o Primeiro Ministro japonês para enviar tropas ao Iraque. Inicialmente, eles concordaram. Mas houve, então, uma explosão atrás da cena. Fora tudo o mais, não vejo como os rios do Iraque poderiam suprir todo o sushi! Mas, finalmente, o Primeiro Ministro japonês, que não queria dizer não a Bush, disse: “Há um problema no Japão: nós não podemos enviar os nossos soldados porque eles não falam árabe. Portanto, estamos enviando-os a uma escola especial de idiomas para aprender árabe e, quando eles tiverem aprendido, nós falaremos sobre isso novamente.” Será uma longa espera mas, o que é interessante, a meu ver, se refere ao número de pessoas surpresas quando a resistência começou. Ninguém no mundo árabe estava surpreso, incidentalmente. Nenhum de nós, os seguidores do mundo árabe, ficou surpreso. Mas todo o ocidente ficou surpreso. Acho que vocês, brasileiros, também ficaram surpresos. Talvez eu esteja enganado, talvez todos vocês esperassem por isso mas, olhando a sua mídia, acho que as pessoas daqui se surpreenderam. E isto me choca profundamente. Realmente, eu acho que isto é o ponto que mais choca. É quase como se estivéssemos num mundo onde a população dos países não faz nada além de esperar pela liberação dos Estados Unidos. Não é assim. E a maior crítica veio dos poetas do Iraque. Não terei tempo de ler as poesias para vocês. São grandes poetas iraquianos que estão fora do país, exilados desde os dias de Saddam. Exilados.
Houve um grande poeta, Saddi Youssef – um dos grandes poetas árabes da atualidade, que conheci depois da queda de Bagdá, que foi uma época depressiva – e outros dois grandes poetas do Iraque, Massafa Narouad e Aljouhahiri, a quem todos os anos Saddam enviava mensagens dizendo: “Eu sei quem vocês são, vocês são da esquerda, são comunistas. Não me importa se vocês são grandes poetas; se vocês viessem ler uma única poesia, em Bagdá, haveria um milhão de pessoas para escutá-los”. O que é verdade, sem dúvida. Haveria um milhão de pessoas para escutar tal poesia. E Saddi Youssef me disse: “Devemos ir? Mas eles mataram tantos comunistas que não nos deu vontade de ir; estávamos preocupados, porque deveríamos ir e dar apoio a esse regime?” Então, Aljouhahiri disse: “E as nossas vidas? Ele matou tantas pessoas”. E ele disse que Saddam Hussein havia enviado uma mensagem: “O sangue no meu pescoço garantirá a sua segurança”. E Saddi Youssef disse: “De alguma forma, não nos sentimos seguros com isso. Decidimos não ir.” Mas, esse poeta, Aljouhahiri, morreu no exílio com 100 anos de idade. Saddi Youssef vive exilado na área do aeroporto de Londres. Mussafi Narouad vive exilado em Damasco. E eles escrevem poesias uns para os outros, com referência à ocupação de seu país. Sobre os ataques selvagens. E os Estados Unidos colocaram uma proibição na volta deles ao Iraque. Eles não podem retornar. Estão na lista negra. Portanto, essa cultura produzida pelo mundo árabe é muito interessante – quando as oposições não eram permitidas, os poetas assumiram. Não somente no Iraque, mas também na Síria e no Egito. E a poesia árabe é fabulosa. É cantada por grandes cantores. Eles não as recitam, eles as cantam. E essas canções simplesmente atravessam as fronteiras. Em todos os cafés se canta um poema de Saddi Youssef, atacando a ocupação que aconteceu. Ou Alkabani, anterior a ele, ou Aljouhahiri. Trata-se, portanto, de uma cultura vibrante. E me chateio muito ao ouvir as pessoas dizendo – especialmente quando estou nos Estados Unidos – “Você não acha que os árabes têm um problema, eles não têm uma oposição e dizem sim!” E, eu digo que há uma grande diferença entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por um lado, e o Iraque, por outro, hoje em dia: é que, atualmente, o Iraque tem uma oposição. Essa é a grande diferença; não há oposição nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha. Todos os partidos concordam entre si – até o começo da resistência. E eu disse que há algo que é ainda mais importante do que o nível formal de oposição: há a vida diária das pessoas. O que eles dizem uns para os outros nas ruas, sobre o que eles conversam nos cafés. E digo que, se vocês enviarem jornalistas que possam falar árabe, eles simplesmente sentarão e poderão ouvir as conversas nos cafés do mundo árabe: se encontrará aí uma população com uma enorme consciência política. Muito mais consciente; muito mais do que em qualquer segmento da sociedade americana. Eles se mantêm informados sobre o que acontece, eles estão por dentro daquilo que ocorre no mundo. Eles estão informados sobre tudo o que acontece. Então, eu disse, há comparações na questão relativa à consciência política que é muito melhor no mundo árabe. Portanto, o que há que se concluir a respeito de todo o debate sobre fundamentalismo? Dê uma olhada: os Estados Unidos, após o término da Guerra Fria, estava em uma busca desesperada por um novo inimigo. Por que? Porque, para preservar a sua hegemonia, os grandes impérios precisam de inimigos; não é só com os americanos que isso acontece, foi assim com os britânicos antes deles, com os franceses, alemães e romanos. Todos os impérios têm uma certa característica comum: a) eles precisam de um inimigo; b) eles fingem que o seu único interesse é o interesse universal. Dessa forma, o que está no interesse dos Estados Unidos é a preservação do seu império e isso se torna um interesse universal. E os valores que eles defendem tornam-se valores universais. É a isso que nos opomos: muitos dos valores defendidos não são universais e o 11 de Setembro veio como um presente dos céus para eles. Foi algo muito louco feito pela Al-Qaeda, foi algo dramático e sensacional, mas caiu direto nas mãos da administração do Presidente Bush, que usou esse evento para tentar redefinir o mundo de acordo com a sua própria imagem. E, atualmente, vivemos em um tempo em que o que temos depende do consenso de Washington.
Incidentalmente, a noção de que o mundo islâmico está cheio de pessoas desesperadas para entrar para a Al-Qaeda não faz nenhum sentido; isto nunca se deu e não é o caso atual. Mas os americanos – com sua política de ocupação – estão dirigindo as pessoas nessa direção. As pessoas sentem: “O que mais podemos fazer? Quem mais está lutando?” Todas as alternativas seculares do mundo árabe foram destruídas durante a Guerra Fria, pelos Estados Unidos.
Osama era um amigo íntimo deles, a quem eles treinaram para ir lutar contra os russos no Afeganistão. E, tendo destruído tais vozes, agora eles não encontram ninguém. Isso foi feito por eles sistematicamente. Portanto, ao falarmos sobre fundamentalismo, eu contraargumentaria, dizendo que se trata de um fundamentalismo imperial: a crença de que os Estados Unidos decidem tudo economicamente, politicamente, militarmente….a de que constituem o modelo do mundo. Veja quão profundamente esta visão tem se engendrado em todo o mundo. Líderes, aqueles líderes eleitos nos países do Hemisfério Sul – dos quais se espera que rompam com o consenso neoliberal – começam a tremer diante disso. “Podemos fazê-lo? Eles nos derrubarão!” Porém, eles não podem destruir a todos. E toda a América Latina está revoltada com esse sistema. Este é um laboratório que eles usaram durante muitos anos – durante a Guerra Fria, ditadores militares foram aperfeiçoados na América Latina; a tortura foi aperfeiçoada na América Latina, que havia sido controlada pelas corporações da América Central. E, agora, com a economia neoliberal, houve o colapso da Argentina. A Venezuela tentou encontrar o seu próprio caminho e, agora, a Bolívia explodiu. E o Brasil elegeu o governo para romper com o neoliberalismo. É irônico ouvir Fernando Henrique Cardoso dizer em público “eu gostaria que Lula se parecesse mais com ele mesmo e menos comigo”. Mas isso não é mentira. Assim, a eleição de Lula, as mudanças na Venezuela, os movimentos na Bolívia, no Equador e no México, o que indicam? Indicam que as pessoas não querem viver sob esse tipo de regime em que tudo é determinado pelo dinheiro, tudo é privatizado. Nenhuma provisão do estado, nem social, reduzindo a segurança do estado. E se isso não for fundamentalismo? Uma vez que se produz esse tipo de economia, então você produz uma cultura que tem que defender – e isso enfraquece a democracia e pode até destruí-la. Porque se democracia significa que não há diferença entre o centro e a esquerda, ou entre a direita e o centro, quem quer que tenha sido eleito – e basicamente todos fazem o mesmo, por causa do Mercado livre do fundamentalismo, o qual é reforçado. Logo, as pessoas se aborrecem e perguntam: “Qual é o ponto, afinal?” E isto está acontecendo na Europa – na Grã-Bretanha – onde, cada vez mais, um número menor de pessoas está votando. Então, já não se trata de uma questão de encontrar uma forma diferente, nós temos que encontrar essa forma para o futuro do mundo. E, achar uma forma se dá pelo desafio ao fundamentalismo imperial dos Estados Unidos – não de uma maneira banal – já que eles não podem ser derrotados militarmente, mas politicamente isso pode ser feito. Na minha opinião, não há razão nenhuma pela qual os países do Sul não possam se juntar e começar a trabalhar e a pensar de forma diferente, para desafiálos.
Veja, o Iraque é um pequeno país e provou que desafiou o Exército americano. Certamente, os países do Hemisfério Sul são suficientemente fortes para desafiá-lo política e economicamente. E aí se pode notar que o império já não parece ser tão forte. Quando os americanos que apóiam Bush falam sobre se comparar a Roma, eu lhes digo – porque eu debato muito freqüentemente nos Estados Unidos -: “Bem, vocês podem se comparar a Roma. Não me importa a comparação. Mas lembrem-se de uma coisa: Roma caiu. A segunda coisa que eu acho é que vocês devem aprender com os romanos: quando eles tomaram uma parte do mundo mediterrâneo, eles não esperavam que as pessoas os amassem por isso”.
Obrigado, muito obrigado. Estou muito emocionado. Muito obrigado. Terei muito prazer em responder à suas perguntas.
Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial – Rio de Janeiro – outubro 2003
Tariq Ali (1943 – ) é um renomado escritor paquistanês. Escreve regularmente para o jornal britânico The Guardian e para a revista política britânica New Left Review. Formado em teoria política e filosofia em Oxfort, foi o primeiro estrangeiro eleito presidente do diretório central de estudantes da referida universidade inglesa.