Acaba de estrear o filme “Pro dia nascer feliz”, de João Jardim. O ótimo documentário mostra as péssimas condições do ensino no País. O filme acompanha o sistema educacional brasileiro desde a miséria sertaneja, passando por diversos níveis de pobreza até chegar ao ensino dirigido aos filhos das famílias mais ricas do país. Mostra que em todos esses níveis é difícil ver alguma coisa que possa ser chamada de pedagogia. Ou seja, a formação de indivíduos capazes de desenvolver seus potenciais criativos, profissionais e sociais.  

E uma das grandes estrelas da obra é a menina Valéria Fagundes, moradora de Manari, um dos municípios mais pobres de Pernambuco. Em meio às maiores dificuldades, Valéria lê Vinícius de Moraes, Bandeira e Drummond e escreve belos textos. Sua simpatia e inteligência tornaram a menina a melhor divulgadora do filme. Por isso, tem acompanhado o diretor nos lançamentos e na divulgação da obra por todo o país.    

Foi nessa condição que Valéria foi ao programa da Hebe exibido na segunda-feira, dia 29 de janeiro. A pobre menina agüentou valentemente dividir o sofá com a apresentadora e Bóris Casoy. Só para dar uma amostra do nível da entrevista, em determinado momento, Hebe pergunta como ela pretende fazer faculdade, já que em Manari não há cursos superiores. Valéria responde que pretende ir a Recife. Ao que a apresentadora responde com a pergunta: “Mas, com que dinheiro?”. Valéria apenas sorri, enquanto Hebe emenda: “o governo tem que dar um jeito”.  

Casoy não perde a chance de fazer o discurso chavão dos neoliberais: “Hebe, deixe o governo fora da vida dela, tadinha. Só vai estragar o sucesso de uma menina tão talentosa”. Mas, Hebe quase não dá ouvidos e passa a fazer apelos para a câmera: “Vocês aí de Recife. Vamos ajudar a Valéria a fazer uma universidade. Eu conheço muita gente em Recife que pode apadrinhar a Valéria. Vamos lá, gente…”.    

A isso se resumiu a conversa entre Hebe e Casoy, diante de Valéria e Jardim. Casoy defendendo a selvageria neoliberal. Insinuando que se deve dar uma chance apenas para aqueles que tiverem oportunidade de aparecer numa TV em rede nacional. Deixando de lado o direito que têm todas as crianças e adolescentes a uma escola pública de qualidade. E Hebe, usando o mais mofado discurso patrimonialista, defendendo apadrinhamentos. Quase pedindo a um coronel para patrocinar a menina de Manari 

Divulgação é essencial para garantir uma boa bilheteria para um filme. Ainda mais, se tratando de um documentário brasileiro e com um tema espinhoso. Recorrer à grande mídia é quase uma obrigação. Mas, é preciso avaliar qual é o preço. O maior risco é ver os talentos de Jardim e Valéria serem confundidos com o péssimo nível da televisão brasileira. 

[Por Sérgio Domingues, em 05.02.2007]