“Sou de uma geração de jornalistas dispostos a crer, até a medula, que a tarefa é nivelar por cima. Implicava, esta fé, a fidelidade canina à verdade factual, a qual, pelo que me diz respeito neste instante, me pespega a batucar na Olivetti. Meu pensamento cai das teclas, se isto faz sentido nos dias de hoje é outro assunto. Conta é o fato nu e cru, se bom ou mau cabe ao julgamento de cada um, determinado pelos milhões de verdade, pretensas, aparentes, que cada indivíduo carrega entre o fígado e a alma. Implicava, também, o exercício desabrido do espírito crítico. E ainda, a fiscalização do poder, onde quer que se manifestasse. Sem contar o respeito pela língua, que, como diz o poeta, é nossa pátria. O jornalismo brasileiro empenha-se, há muito tempo, em nivelar por baixo. Em aviltar a língua ao reduzi-la a dialeto elementar, nutrido por uma centena de vocábulos, se tanto. Em trair as regras básicas indispensáveis à comunicação correta. Em omitir, quando não mentir. Os patrões da mídia esfregam as mãos ao passo que seus empregados são as primeiras vítimas de si mesmos; com eles começa o nivelamento pro baixo. Escrevem mal, pensam pior. Até onde vai a hipocrisia e onde começa a ignorância não sei.”
Blog do Mino Carta, em 22/09/2006 – 11:04
As coberturas ocidentais sobre as questões do Oriente Médio
“Acho que na Europa e até mesmo nos Estados Unidos, a cobertura é mais equilibrada. Isso porque eles pelo menos buscam uma diversidade entre os pontos de vista, principalmente sobre as questões israelenses e palestinas. Aqui no Brasil, é um pouco diferente. Vou falar especificamente sobre as grandes redes de televisão. Pelo que vejo, as reportagens reproduzem a visão israelense (e dos Estados Unidos) sobre esses conflitos. O lado árabe fica meio perdido. É difícil ter correspondestes nessas áreas. Além disso, não há uma tradição de se levar especialistas aos estúdios, para explicar ao público sobre as questões políticas, assim como a BBC (British Broadcasting Corporation) sempre faz”.
Jornalista Mohamad Daoud em entrevista a Mariana Duccini, de São Paulo, ao site Comuniquese, em 25.09.2006