Jack London foi um militante socialista norte-americano. Oriundo de família muito modesta, teve vida aventurosa, tendo obtido bastante repercussão com sua obra literária. Vale ressaltar, aliás, que London tem diversos livros sobre animais – numa espécie de ecologia, antes que virasse moda – que denunciam a violência humana sobre os animais. Mostra muito agudamente como sofrem os animais com os desatinos sociais que desumanizam os homens…
Saiu do Partido Socialista em 1916, por sua “falta de ênfase na luta de classes”. O livro O tacão de ferro foi publicado em 1908, pela Editora Macmillan. Em 1937, Leon Trotsky fez um longo comentário sobre o livro, numa carta enviada a Joan London (filha de Jack), que em 1945 converteu-se em artigo publicado no New Internacional, e que figura como posfácio na edição brasileira. Trostky se espanta com a sagacidade da visão política de London, lembrando que o “romancista de 31 anos de idade enxergou muito mais claro e mais longe do que todos os líderes socialdemocratas daquela época juntos. Mas não estamos falando apenas dos reformistas: pode-se dizer com segurança que em 1907 nenhum dos marxistas revolucionários, nem mesmo Lênin e Rosa Luxemburgo imaginaram de maneira tão completa a ameaçadora perspectiva da aliança entre o capital financeiro e a aristocracia trabalhista. Isso basta para determinar o peso específico desse romance.” (p. 262-3).
O livro merece leitura atenta. Não por eventuais aulas de marxismo, pois não é a isso a que se propõe. Há, de fato, um certo didatismo atravessando o texto, mas essa é a parte mais frágil do livro. Trata-se de um marxismo e de um materialismo bastante intuitivos e, portanto, não muito refinados filosófica ou historicamente.
Não obstante, Jack London é extremamente arguto e refinado, sobretudo por seu olhar atento para as contradições gritantes na vida social, além do fosso crescente entre a percepção do mundo e o mundo tal como ele de fato se mostrava.
E isso envolvia pequenos e médios capitalistas, que acreditavam nas virtudes da competição e muitos trabalhadores, que acreditavam que assegurando melhorias para alguns, poderiam reverter o conjunto da situação social. Essa intuição é extraordinária, e deriva não de lampejo de gênio, mas de uma vivência próxima daqueles cuja vida descreve. London apresenta a tragédia prestes a se abater sobre a humanidade, que parece não se dar conta do que ela significaria.
Ao que atenta London? Em primeiro lugar, para o estreitamento brutal da concorrência e para o alerta – feito também aos pequenos capitalistas, à “classe média” no sentido anglo-saxão – de que os monopólios devorariam os pequenos empreendedores, que poderiam até sobreviver, desde que subalternamente. Para ele, o capitalismo – o regime da livre concorrência – estava sendo devorado pela plutocracia monopolista. E os próprios capitalistas não seriam capazes de salvá-lo, pois para concorrer com monopólios, somente tornando-se ainda maior do que eles.
Em seguida, para a acumulação de excedentes a cada dia mais gigantescos, capazes de devorar com eles inclusive os capitalistas que, em tese, os controlavam. A fome de remuneração que tais excedentes impõem aos seus proprietários não tem limites humanos. Assim, mostra como mesmo aqueles que se acreditavam portadores de um mundo livre, destinam-se a ser os servidores do capital que acreditam dominar. Há uma nota de rodapé – longa – que merece ser transcrita, inclusive por trazer um texto de jornal de época: “Rockfeller começou como membro do proletariado e por meio de economia e perspicácia teve sucesso em desenvolver o primeiro monopólio perfeito, a Standard Oil. Não podemos deixar de mencionar essa página notável da história da época, para mostrar como a necessidade que Standard Oil tinha de reinvestir o seu excedente esmagou os pequenos capitalistas e acelerou a falência do sistema capitalista. David Graham Phillips era um escritor radical do período, e a citação, feita por ele, é tirada de uma cópia do Saturday Evening Post (04.10.1902) (…). A citação é esta: ‘Por volta de dez anos atrás, a entrada de capital de Rockefeller era dada como sendo de trinta milhões por uma autoridade confiável. Ele havia atingido o limite de investimentos lucrativos com os lucros da indústria petrolífera. Essas somas enormes em dinheiro proporcionavam mais de dois milhões por mês apenas para John Davison Rockefeller. O problema de reinvestir tornou-se sério. Virou um pesadelo. Os rendimentos do petróleo estavam aumentando cada vez mais e o número de grandes investimentos tornou-se limitado, ainda mais limitado do que hoje. Não foi a avidez por maiores lucros que fez com que os Rockefellers começassem a diversificar a sua indústria petrolífera para outros ramos de atividade. Eles foram obrigados, tragados por essa onde envolvente de riqueza o seu monopólio atraía irresistivelmente como um ímã. Eles desenvolveram um grupo de investidores e investigadores. Dizem que o chefe desse grupo recebia um salário de 124 mil dólares por ano.
A primeira incursão e excursão digna de nota dos Rockefellers foi no negócio ferroviário. Por volta de 1895 eles controlavam um quinto da malha ferroviária do país. O que eles de fato possuem hoje ou, controlam como acionistas majoritários. Eles são poderosos em todas as grandes ferrovias de Nova York, na leste e na oeste, com exceção de uma, em que sua parte é de apenas uns poucos milhões. Estão em quase todas as linhas férreas que partem de Chicago. Dominam vários dos sistemas que se estendem até o Pacífico. São seus votos que fazem o sr. Morgan tão potente, embora, podemos acrescentar, precisam dos miolos dele mais do que ele de seus votos – e a combinação dos dois constitui em grande medida a ‘comunidade de interesses’.
Mas apenas as ferrovias não podem absorver com rapidez suficiente essas grandes torrentes de ouro. Hoje, os US$2.550.000 que John D. Rockefeller ganhava por mês aumentaram para quatro, cinco, seis milhões de dólares mensais, chegando a 75 milhões ao ano. O óleo de iluminação foi se tornando bastante lucrativo e os reinvestimentos dos lucros contribuíam com a quantia irrisória de alguns milhões ao ano.
Os Rockefellers entraram no negócio de gás e eletricidade quando essas indústrias atingiram uma etapa segura de desenvolvimento. E, logo mais, assim que o sol se pôr, uma grande parte do povo americano estará enriquecendo os Rockefellers, não importa que tipo de iluminação ela utilize. Os agricultores passaram a hipotecar suas terras. Diz-se que, há alguns anos, quando uma certa prosperidade permitiu aos agricultores livrarem-se de suas hipotecas, John D. Rockefeller quase chegou às lágrimas: oito milhões, que ele pensava que durante anos renderiam uma boa soma em juros, foram de repente lançados na soleira da sua porta e ali gritavam por um novo destino. Esse inesperado acréscimo às suas preocupações em encontrar um lugar onde investir o dinheiro do seu petróleo para que esse negócio proliferasse cada vez mais, era demais para a equanimidade de um homem que não conseguia digerir…
Os Rockefellers entraram para as minas: ferro, carvão, cobre e chumbo; para outras companhias industriais; para o transporte urbano, nacional, estadual: bonde e trens; para o transporte marítimo de carga e passageiros; para o telégrafo; para o ramo imobiliário: arranha-céus, residências, hotéis e conjuntos comerciais; no ramo de seguros de vida e bancário. Logo, não havia ramos da indústria onde seus milhões não estivessem em ação.
O banco do Rockefellers, o National City Bank, é, de longe, o maior banco dos Estados Unidos. No mundo inteiro perde apenas para o Banco da Inglaterra e o Banco de França. A média de depósitos ultrapassa os cem milhões diários, e o banco domina todo o mercado de Wall Street. Mas não é só; é a cabeça da cadeia de bancos do grupo Rockefeller, cadeia essa que engloba catorze bancos e monopólios na cidade de Nova York, e bancos de grande força e influência em todo o centro financeiro do país.
John D. Rockefeller possui títulos da Standard Oil que valem entre quatrocentos e quinhentos milhões no mercado de ações. Ele possui cem milhões no monopólio do aço, quase tudo em um único sistema ferroviário do oeste, quase a metade em um segundo e assim por diante até onde se pode imaginar. Seu faturamento no ano passado foi de aproximadamente cem milhões de dólares (duvida-se que o faturamento de todos os Rothchilds juntos perfaçam uma soma como essa), e está subindo cada vez mais.” (pp.123-4, itálicos meus, VF)
Mas o mais impressionante do livro está no apodrecimento social que descreve, muito antes do fascismo e da miserabilização contemporânea. Aqui, a sensibilidade de Jack London para o que já vinha ocorrendo converte-se em espécie de ficção científica trágica, por mostrar que possibilidades estavam expostas nas entranhas de tal monopolização plutocrática.
O momento de generalização dos monopólios, do capital financeiro e de expansão imperialista – tal como seria tratado ulteriormente por Hilferding e por Lênin – já se encontra exposto por London com duras pinceladas. A partir de sua experiência, enfatiza os riscos que ela lhe permite entrever: as grandes greves e lutas dos
trabalhadores sendo segmentadas e fragmentadas pelo capital monopolista, capaz de oferecer melhorias de vida a setores parciais dos trabalhadores, de amortecer os sindicatos e torná-los “parceiros” do grande capital. Bairros medianos e isolados conteriam os trabalhadores medianos e cuidadosamente isolados dos demais.
A associação entre essa aristocracia operária (o termo é de London) e o patronato aponta, no livro de London, para a emergência do pior dos mundos. Quanto mais excedente a valorizar, mais tal aristocracia teria a ganhar e mais precisaria reduzir o restante dos trabalhadores a uma massa informe, desprovida de sentido social. Os sindicatos e grupos fortes exploravam os sindicatos fracos e os a cada dia mais numerosos trabalhadores sem sindicatos. Sua ficção apresenta uma luta cerrada dos trabalhadores, derrotados pela traição e pela violência. A liberdade e a política tornavam-se uma ficção. Congresso e Parlamento reuniam os oligarcas ou seus prepostos, capazes de tudo comprar e dispostos a todos os golpes, elaborando listas negras nacionais, armando milícias assassinas e garantindo salvo conduto e liberdade para os ‘traidores’. Um ‘passaporte nacional’ (as carteiras de identidade) foi implantado, impedindo o livre trânsito dos demais trabalhadores.
“enquanto isso, o resto da classe operária era tratado com mais austeridade ainda. Muitos dos pequenos privilégios que tinha foi-lhe retirado, enquanto seu salário e seu padrão de vida diminuíam constantemente. Suas escolas públicas decaíam na mesma proporção. O aumento do número de jovens e de crianças que não saber ler nem escrever era assustador.” (174)
A lenta e violenta consolidação do poder plutocrático, entretanto, não foi de todo mal para todos. Para alguns, a vida seguiu seu curso, e melhorias efetivas se propagavam para os setores melhor remunerados da classe operária, agora transformados em castas superiores: “…em relação às indústrias capitais, tudo prosperava. Os membros das grandes castas operárias estavam contentes e trabalhavam com satisfação. Pela primeira vez na vida [sob a oligarquia plutocrata] conheciam a paz industrial. Não tinham de se preocupar com períodos de queda na produção, com greves, piquetes e com as determinações sindicais. Viviam em casas mais confortáveis e em cidades sublimes – sublimes se comparadas aos lugares imundos e guetos no qual viviam antes. Alimentavam-se melhor, trabalhavam menos, tinham um período de férias maior, o salário era bom, e passaram a ter interesses e prazeres mais variados. E com os seus irmãos menos afortunados, os trabalhadores desfavorecidos, o povo sem vontade do abismo, eles não se importavam. Uma época de egoísmo começava a surgir para a humanidade.” (223)
A grande massa dos trabalhadores, entretanto, perdia o próprio sentido do mundo do trabalho, torna-se um enorme submundo, subnutrido e subhumano, uma massa de manobra disponível para qualquer iniciativa, ora rastejante e submissa, ora raivosa e devastadora, incapaz entretanto de produzir um outro projeto de mundo. Tornavam-se as “feras do abismo”: “Por outro lado, a grande massa desesperada da população, o povo do abismo, estava afundando em uma apatia brutal, satisfeita com a miséria. Sempre que surgiam operários de valor em meio às massas, os oligarcas os transformavam em membros das castas operárias ou
Jack London não acreditava que de tais guetos pudesse nascer um mundo novo. Segundo ele, os oligarcas os nutririam como “macacos e tigres”, impedindo que se modificassem. Macacos dóceis e subhumanos, dispostos a tudo para apanhar a comida; tigres ferozes, capazes de estraçalhar na multidão o que viesse pela frente, o que fosse lançado pelos oligarcas como isca. Os oligarcas “não permitirão que se extingam o macaco e o tigre que vivem dentro delas [as massas do povo do abismo].” (227).
Antecipa longuíssimas lutas de pequenos grupos de revolucionários, um verdadeiro exército subterrâneo e ilegal, que se infiltra no mundo plutocrático
– e aprende com os inimigos – ao mesmo tempo em que se endurece, se enrijece pela infiltração constante de agentes dos inimigos, pela corrupção, pelas traições. Um longo período de desumanização se abate sobre a humanidade e ele não aponta uma maneira única de saída. Ele tinha certeza, entretanto, de que o socialismo era necessário e, ainda que muitos séculos se interponham antes das transformações, elas teriam de vir.
O fascismo e a transformação de massas de trabalhadores regulares em dóceis artífices do massacre de outros trabalhadores, ao mesmo tempo em que os convertia em assassinos tão ferozes quanto impessoais estava anunciado desde muito antes de sua emergência efetiva. London não podia sequer imaginar o fascismo real e, no entanto, ele já estava ali, presente em germe na sociedade norte-americana.
A guerra fria, as infiltrações similares e recíprocas, os espiões e a luta interna entre os grupos, que se contaminavam reciprocamente, com vantagem para os capitalistas, emergem na pena de London muito antes da segunda guerra mundial.
A expansão internacional da miséria e da guetificação de uma enorme parcela dos trabalhadores, necessários como massa ativa, desnecessários como indivíduos e sujeitos de sua própria existência; o reduzido papel da liberdade (restrita a alguns) e o escárnio sobre as instituições políticas já figuram na pena de London, há quase 100 anos.
Também não poderia imaginar o desengajamento contemporâneo do mundo do trabalho através das fraturas expostas daqueles que são considerados por muitos como sobrantes. Continuo a discordar de tal percepção, e o texto de London assinala algo que precisaríamos reter: se as “feras do abismo” são individualmente descartáveis, sua presença como trabalhadores massivos, coletivos, despersonalizados, persistiria sendo necessária.
Este livro não é um livro de história; também não é um livro de teoria. Mas vale muito mais do que muitos livros de historiadores medíocres e do que muitos textos de teoria seca. Vale, sobretudo, pelo que permite entrever e sentir.