Por Renato Pompeu
“Caros Amigos” – edição de fevereiro de 2010


O grande romance O rastro do jaguar (Leya, 2009), do mineiro Murilo Carvalho, lançado pela Leya no Brasil em 2009, tem várias coisas em comum com o romance Um defeito de cor, da também mineira Ana Maria Gonçalves, da Record, de 2006: ambos são os únicos romances brasileiros do século 21 que retomam as alturas de Grande serão:veredas, do também mineiro Guimarães Rosa. Ambos receberam prêmios internacionais importantes: Carvalho,o Prêmio Leya, em Portugal, em 2008 – nada menos de 300 mil euros! -, e Gonçalves o Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, em 2006. E ambos foram praticamente ignorados, pelo menos em sua verdadeira dimensão estética e cultural, pela grande mídia brasileira.
“Talvez tudo isso se explique por outro ponto em comum entre os dois livros: ambos retratam etnias que, se são dominantes na formação da Nação, não são dominantes na grande mídia: os negros, no caso de Gonçalves, e os índios, no caso de Carvalho. Mais: ambos romanceiam, fantasiando livremente, mas baseados em pesquisas muito bem documentadas, a partir da vida das pessoas que realmente existiram: Gonçalves, a mãe africana do abolicionista brasileiro Luís Gama; Carvalho, um índio brasileiro levado em menino para a França pelo sábio Saint-Hilaire, menino que foi educado como francês e que, já adulto, redescobre suas origens indígenas, ao retornar ao Brasil. Finalmente, os dois romances se passam no século 19.
O livro de Murilo Carvalho, jornalista que foi do semanário Movimento, de oposição ao regime militar, e da Folha de São Paulo, levou trinta anos para ser escrito e é uma obra-prima épica de mais de 560 páginas, que retrata a busca pela mítica Terra Sem Males, em meio aos horrores da Guerra do Paraguai. Portugal já reconheceu esse grande autor brasileiro, que lá surge até em anúncios de televisão – resta que seu próprio povo o reconheça como um de seus grandes filhos.