Por Mário Camargo. O Brasil de Lula é negro e pobre. O Brasil de Alckmin é loiro e dono da sua terra. Essa é avaliação que já à primeira vista pode-se fazer da matéria publicada na revista Época de 23 de outubro de 2006. Matéria sobre as eleições, nas páginas 32, 33, 34, 35 e 36, tenta revelar o perfil do eleitor dos dois candidatos. Ate aí uma tentativa interessante. O que impressiona é a edição: a foto e o título. Em página dupla, a matéria abre com duas fotos. À esquerda, (página par menos valorizada) uma foto de uma família de negros.
Três mulheres e um homem – que veste camisa com o símbolo do SBT – e uma criança de colo. Na parede da casa simples está escrito em vermelho: “Eu voto Lula 13 PT”. Na página da direita, (mais nobre) a foto com 19 crianças, quase todas loiras, acompanhadas de duas mulheres e uma adolescente – nenhum homem adulto – possivelmente na frente de uma escola. Algumas crianças seguram balões de festa, com a marca de uma cooperativa de crédito. Abaixo da foto da “família de Lula” o título “O Brasil de Lula”, com a palavra Lula escrita em vermelho e embaixo da foto da “família de Alckmin” o título: “e o de Alckmin” em azul.
Na linguagem popular quando alguém diz que está no vermelho é porque a situação financeira não é boa. Quando está tudo bem costuma-se dizer que está tudo azul. (25.10.2006) Se o Brasil de Lula é pobre, negro e sofrido, o Brasil de Alckmin é branco e feliz. É isso que o título e as fotos querem mostrar. A tentativa de identificar o público eleitor de Lula, buscando saber como são os moradores da cidade de Central do Maranhão, onde o presidente teve grande vantagem de votos e de buscar saber como são os moradores de Arroio do Padre, Rio Grande do Sul, onde Alckmin foi o mais votado é interessante. Mas o tratamento dado à matéria é decepcionante. Demonstra preconceito e a defesa, sem pudor, da campanha de Alckmin. A matéria pretende demonstrar que o norte e o nordeste do país têm preferência por Lula. As pesquisas apontam esse resultado. Mas no norte e no nordeste existem brancos, negros, índios, pobres e ricos. Não apenas negros miseráveis. (25.10.2006)