Por Fatima Lacerda

Certas datas precisam ser lembradas, para que as lições da história não
sejam esquecidas. Sobretudo as de triste memória. O Holocausto, o 11 de
Setembro – Assassinato de Salvador Allende, o Golpe Militar no Brasil – “31
de março ou 1º de Abril?” – foram momentos de tormenta que destruíram
gerações de lideranças, pensadores, artistas e impuseram à humanidade
décadas de retrocesso, além da necessidade de reconstruir valores básicos da
civilidade como a democracia, o respeito às diferenças, o direito de pensar
e de se organizar com liberdade.

Há 44 anos, o Brasil amanheceu cinzento. Com o Golpe Militar, que derrubou o
governo democrático de João Goulart, inauguram-se os “Anos de Chumbo”. A
ditadura durou de 1964 a 1985, ano que serve de referência oficial para o
processo de redemocratização, com a eleição (indireta) do presidente
Tancredo Neves, o primeiro civil desde a queda da Jango, resultado de uma
conciliação entre os partidos de oposição à ditadura.

Mais relevância, no processo de lutas que conduziu à reconquista das
liberdades democráticas, teriam outros marcos, como a Lei da Anistia, em
1979, permitindo a volta dos exilados; a vitoriosa campanha das oposições na
maior parte dos estados da federação; a campanha das Diretas Já, reunindo
milhões de pessoas nas ruas, sendo a mais expressiva a Passeata da
Candelária, em abril de 1984, quando mais de um milhão de pessoas foi para
as ruas exigir eleições diretas para a presidência da República. Aliás,
Tancredo, o candidato da conciliação, morreu antes de tomar posse, assumindo
em seu lugar o vice José Sarney, antigo correligionário dos generais do
golpe.

Na opinião do cientista político e professor da Unicamp Caio Navarro de
Toledo, “o intuito do movimento, ocorrido em abril de 1964, foi estancar o
fervilhar de idéias da época. As ligas camponesas lutavam contra as
expulsões da terra e defendiam a reforma agrária, vista pelos conservadores
como o início da comunização do país. A instituição da propriedade privada
estava sendo questionada. A ascensão dos militares ao poder foi o coroamento
das tentativas da direita contra a democracia. Os protagonistas do golpe
foram os setores conservadores e as forças militares, apoiadas por agências
e centrais de inteligência norte-americanas”.

Em entrevista à Revista IHU On Line (Instituto Humanitas Unisinos), o
economista Flávio Koutzii, ex-preso político no Brasil e na Argentina,
resgata quatro décadas de lutas no campo das esquerdas, desde 1964, e o
papel das forças conservadores de direita, no mesmo período. “Desde a
década de 1960 – diz ele – quando eu saí do país, tivemos um ciclo da lutas
pela liberdade e contra ditadura. O segundo ciclo, que me toca
particularmente, é o das ditaduras sangrentas vividas também em outros
países da América Latina. Já na década de 1980, tanto no Brasil quanto na
Argentina e, mais adiante no Chile e também Uruguai, vimos e protagonizamos
a decadência das ditaduras, a reconstrução do processo democrático e do
Estado de direito. No nosso caso, vivemos, singularmente com mais sucesso e
maiores resultados, uma reconstrução do campo popular, democrático e de
esquerda. E, dentro desse episódio, nascia o PT, em fevereiro de 1980.” O
PT, na época, representava um desafio à tradição política conservadora, ao
aglutinar trabalhadores organizados, movimentos sociais, militantes que
sobreviveram ao golpe.

Em 1990 as esquerdas vivenciam um outro tipo de derrota, no campo político e
ideológico, conjugada com a ascensão das políticas neoliberais. Koutzii, que
se mantém nos quadros do PT, chama atenção para o papel desempenhado pela
direita no Brasil, na atualidade, que se empenha em destruir “não apenas a
imagem de um partido (no caso, o PT), mas sobretudo o campo popular, a
credibilidade social de um projeto mais progressista e mais popular”.

Apesar do processo de redemocratização, as principais reformas de base
desejadas e interrompidas desde a queda de Goulart, a exemplo da reforma
agrária, urbana e educacional, até hoje não aconteceram. Para o cientista
político Caio Navarro de Toledo “uma democracia com ampla participação
popular, ainda hoje, é intolerável para as classes dominantes”. O Golpe do
64 mudou os rumos do Brasil. O latifúndio e a presença do capital
estrangeiro, ameaçando a soberania nacional, em áreas estratégicas, como no
controle das reservas de petróleo e gás, seguem desafiando a organização e a
resistência popular, assim como as contra-reformas ditadas pela direita, em
especial no campo da educação, da saúde e das políticas de segurança, com a
criminalização dos movimentos sociais.

Fonte: Agência de Notícias Petroleiras