Por Sheila Jacob
Confira a entrevista com Mouzar Benedito, autor do livro João do Rio, 45. A história aborda os anos da Ditadura Militar no Brasil, e se passa em uma rua do bairro Vila Madalena, de São Paulo. A narradora é a própria casa situada na rua João do Rio, 45, a que o título faz referência.
[Leia sobre o livro em nossa página].
BoletimNPC: Primeiro, fale um pouco da sua trajetória no jornalismo: onde e quando se formou? Por que veículos passou?
Mouzar Benedito: Comecei na imprensa alternativa. Era formado em Geografia, pela USP, e trabalhava como orientador social no Sesc de São Paulo. Estava, por curiosidade, estudando chinês e tupi, no início de 1974, e resolvi entrar na faculdade de jornalismo (Cásper Líbero) porque via na profissão um canal de luta contra a ditadura, numa época em que a imprensa alternativa começava a se firmar. Ainda na faculdade, ajudei a criar o Versus e a colaborar no Pasquim e outros jornais. Ajudei também a criar o
BoletimNPC: Quando começou a escrever, e por que essa guinada para a literatura?
Eu nunca tinha pensado em escrever livros. Em 1983, quando tomou posse a primeira turma de deputados eleitos pelo PT (havia alguns antes, que ajudaram a fundar o partido, mas foram eleitos pelo MDB), fui ser assessor de um deputado na Assembléia Legislativa de São Paulo. Comecei a achar o trabalho chato demais e inútil. Fui me irritando com aquele teatro de mau gosto, e um dia pedi demissão. O deputado foi legal, insistiu para que eu arrumasse outro emprego primeiro, depois ele me demitiria. Não topei, exigi ser demitido, e fiquei meses desempregado, matando cachorro a grito.
No dia em que saí da Assembléia, senti um alívio enorme. Em casa, não conseguia dormir, fiquei bebendo e falando bobagens. Meia-noite, foi todo mundo dormir e eu não tinha o que fazer. Resolvi escrever uma matéria sobre o Barão de Itararé pro Pasquim. Fiz (saiu na página central) e terminei por volta das três da manhã, sem sono. Então fiquei escrevendo umas histórias até amanhecer. Nas duas noites seguintes, aconteceu a mesma coisa: escrevi matérias da meia-noite às três da manhã (frilas) e em seguida continuei escrevendo minhas historinhas. No final das três noites estava terminado o livro Santa Rita Velha Safada, que só fui publicar em 1987.
O que me estimulou mais a escrever foi trabalhar na TV Record, das 7h da manhã às 15h, o que fiz durante quatro anos! Saía de lá puto da vida, muitas vezes encrencado com algumas pessoas, e com necessidade de extravasar. Chegava em casa e escrevia. Assim escrevi acho que uns dez livros, inclusive esse João do Rio, 45 (acho que foi em 2002 ou 2003).
BoletimNPC: Você pode falar um pouco sobre sua experiência e militância no Em Tempo e outros jornais alternativos?
Quando fundamos o Em Tempo, eu já colaborava em outros jornais de esquerda. Era um tempo em que havia muitos rachas na esquerda, inclusive nos jornais. O Em Tempo surgiu de um racha no Movimento (que estava sendo controlado pelo PCdoB), que, por sua vez, era um racha do Opinião (nacionalista de esquerda, do empresário Fernando Gasparian). E antes de sair o número zero do Em Tempo (formado por uma frente de esquerda), houve um racha de um pessoal que criou o jornal Amanhã.
No início do Em Tempo, era difícil conciliar as tendências. Uma desconfiava da outra, e todos queriam ler todas as
matérias. O jornal foi criado para ser semanal, e o fechamento do número zero, experimental, durou três semanas por causa disso. Havia muitas discussões, um cara via um tom foquista num texto que não tinha nada a ver, outro via um tom trotskista em outra… Depois, tendo que sair semanalmente, pararam com isso, mas eu não agüentava e saí.
Só voltei quando toparam me dar espaço para fazer matérias sobre os presos políticos. Eu estava morando no Rio, onde um grupo do MR-8 dominava a sucursal. Eles censuravam matérias, não mandavam para SP as matérias que não lhes convinha. O MR-8 tentava dar um golpe no jornal e expulsar as outras tendências. Mas uma matéria minha que eles não mandaram para SP acabou sendo o estopim para o MR-8 ser expulso do jornal. E foi havendo brigas etc, até que o jornal acabou dominado por uma tendência: o pessoal que hoje está na Democracia Socialista, parte no PT e parte no PSOL.
BoletimNPC: Partindo para o livro João do Rio, 45, por que escolher jornalistas como figuras centrais do seu livro? Você parece considerar a profissão como um exemplo, no passado, de luta contra a ditadura – ainda que muitos tenham sido coniventes. Qual sua opinião sobre o papel da imprensa alternativa naquele contexto?
Eu me inspirei em experiências reais. Cada personagem surgiu de alguns exemplos de pessoas que conheci, o que não significa que um personagem seja exatamente uma pessoa conhecida; pode ser a soma de várias, com algumas licenças literárias. A imprensa alternativa teve uma importância enorme, não só na derrubada da ditadura, mas também na mudança de todo o jornalismo brasileiro. Até o Estadão, jornal mais conservador que existia, em termos de linguagem, foi influenciado pelo Pasquim, por exemplo. Pipocaram jornais militantes no Brasil inteiro. Varadouro, no Acre; Posição, no Espírito Santo; Boca do Inferno, na Bahia; De Fato, em Minas; Coojornal, no Rio Grande do Sul etc, etc, etc. Além disso, tinha os jornais feministas, dos homossexuais masculinos, o anarquista Inimigo do Rei e outros.
BoletimNPC: Valadares revela que havia escolhido o jornalismo como profissão para lutar contra a Ditadura Militar. Agora, os jornalistas estudam para aparecer na televisão… É essa a visão que você tem do jornalismo atualmente?
Infelizmente, na grande maioria dos casos, é. A gente achava que ia mudar o mundo fazendo jornais revolucionários, era uma baita ingenuidade, mas acho que valia. Mas não é só no jornalismo que acontece isso. As pessoas que queriam fazer teatro muitas vezes imaginavam que criariam um grupo teatral na periferia e iniciariam ali um foco revolucionário. Hoje, o que atrai grande parte dessas pessoas são as novelas.
BoletimNPC: Com o desenrolar da história, vemos um decréscimo das gargalhadas, reuniões até tarde, festas, conversas e os causos contados por Valadares. Seria um pouco da desilusão com os rumos que o Brasil tomou?
Sim, acredito que é isso. O mundo – e o Brasil dentro dele – foi ficando careta, chato, individualista (isso é o que acho pior), sem perspectivas de mudanças revolucionárias… O próprio fim do livro, que não vou dizer aqui qual é, representa o fim de uma era.