Sete perguntas sobre a chuva no Rio
1- Quando acabou a escravidão (no famoso 13 de maio) para onde foram mandados os escravos agora libertos?
2 – Quem inventou as favelas no Rio, no Brasil, na América Latina, no mundo?
3 – Se tivesse sido feita, desde há 120 anos atrás, a Reforma Agrária, quantos milhões de pessoas morariam no campo ao invés dos morros ou lixões do Rio?
4 – Por que ¼ da população do Rio “quer” morar em favelas?
5 – Quais alternativas foram apresentadas, nos últimos 50 anos para deixar a favela? Qual plano de construções populares, construídas a menos de um quilômetro da favela a ser removida? Qual o valor da mensalidade a ser paga até resgatar o total do valor da casa em 30 anos? Qual a relação deste valor com o salário do morador removido?
6 – Por que as pessoas “escolhem” morar em barracos em cima de barrancos ou na beira de córregos poluídos e em situação de risco?
7 – Por que as pessoas das favelas teimam em não querer mudar de lugar de moradia?
Para refletir e agir
Para refletir sobre estas e outras perguntas que ainda precisam ser feitas, o BoletimNPC organizou esta série de artigos, reportagens e entrevistas sobre as previstas chuvas que caíram no Rio de Janeiro no final de abril. Refletir sobre a tragédia é urgente e necessário. A imprensa popular e alternativa terá a responsabilidade nesta década de cobrir as mudanças que ocorrerão no Rio de Janeiro nos anos que antecedem a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Cobrir, principalmente, a forma como estas mudanças afetarão a vida das classes trabalhadora.
1- RIO Chuvas e desabamentos trazem de volta fantasma de remoção
[Por Claudia Santiago] Decreto da Prefeitura do Rio permite remover moradores à força.
A vida não vai ser nada fácil, ou melhor, vai ser mais difícil ainda, para quem mora em favelas no Rio de Janeiro. É que o temporal que desabou sobre a cidade nos primeiros dias de abril deu novo gás aos defensores da remoção dos pobres das áreas valorizadas da cidade. É como se fosse a reprise de um filme que não valesse a pena ser visto de novo.
A televisão e os jornais criaram o colchão macio em que o discurso das autoridades pudesse se acomodar facilmente e passasse a ser repetido na
s ruas do Rio. Os pobres moradores dos locais afetados foram responsabilizados pela tragédia. Levaram a culpa também os governantes que levaram algum tipo de beneficiamento a estas comunidades. O jornal carioca O Globo abre a sua lista com o nome de Leonel Brizola.
Para o historiador Guilherme Marques Soninho (IPPUR-UFRJ) culpar as vítimas, quando acontecem tragédias, é sempre fácil. “É o discurso que as classes dominantes gostam. O Globo adora esses discursos. No editorial do Globo de hoje (08.04), eles fazem uma forte defesa das remoções forçadas. O decreto do prefeito Eduardo Paes diz que as famílias que residem em áreas de riscos poderão ser removidas à força. Mas o decreto podia dizer também que vão ser construídas novas e boas casas para essas famílias. Mas isso nem o decreto nem o Globo dizem. Deveria ser considerado crime culpar as vítimas dessas tragédias”, afirma Soninho em entrevista à jornalista Sheila Jacob.
2- RIO Direito à cidade para os pobres
[Por Maria Lúcia Pontes] As fortes chuvas que assolaram o Estado nos últimos dias, além de produzir danos irreparáveis para centenas de famílias, que ainda enterram seus mortos, colocaram mais uma vez o direito de morar dos pobres no banco dos réus, em declarações reiteradas do Prefeito do Rio de Janeiro. [10.04.2010]
3- RIO Chuvas e hipocrisia
[Por Paulo Alentejano] Nestas horas em que centenas de pessoas morrem ou ficam desabrigadas em função do desabamento de encostas, enchente e transbordamento de rios, proliferam na mídia textos e entrevistas de “especialistas” que buscam apontar as causas ”naturais” e “antrópicas” que explicariam tais “tragédias”. Alguns destes textos e entrevistas são mais sérios, outros mais oportunistas. Uns mais pontuais, outros mais abrangentes. Alguns mais contundentes na crítica aos governantes de plantão, outros mais benevolentes. Mas, poucos vão a fundo na análise do conjunto de questões que estão envolvidos nesta complexa problemática. [10.04.2010]
Entrevistas:
4 – RIO – Entrevista “Deveria ser considerado crime culpar as vítimas dessas tragédias” – diz o historiador Guilherme Marques sobre as enchentes no Rio
[Por Sheila Jacob] Moradores de favelas e periferia do Rio e de Niterói foram duramente atingidos pelas enchentes no início do mês de abril. Até o dia 7 de abril, o saldo era de 133 mortos no Estado do Rio, além de centenas de feridos e pessoas desaparecidas. O governador do Rio, Sérgio Cabral, chegou a culpar os moradores dos locais de risco pela tragédia. Mas, para o historiador Guilherme Marques, uma das principais causas deste infeliz quadro é a falta de uma política habitacional decente na cidade, que possa atender a toda a população, oferecendo moradias com boas condições, localizadas em área com infra-estrutura urbana e transportes públicos de qualidade. Para ele, “deveria ser considerado crime culpar as vítimas dessas tragédias”. [8/04/10]
5 – RIO – Entrevista Professor da UFMT cita experiência de Santos
[Por Tatiana Lima] José Domingues Godói Filho é geólogo e professor da Universidade Federal do Mato Grosso. No momento, faz doutorado no IPPUR-UFRJ. Ele conversou por telefone com a repórter Tatiana Lima, para o BoletimNPC.
6 – RIO – Entrevista “A tragédia estava anunciada”, afirma arquiteto
[Por Sheila Jacob] O arquiteto Canagé Vilhena considera que já era “anunciada” toda essa tragédia que ocorreu no Rio e chocou o Brasil inteiro, causando centenas de mortos e feridos. Isso porque, segundo ele, não apenas o Rio de Janeiro mas também e principalmente as grandes cidades, como São Paulo, não possuem uma política urbana correta e eficaz que garanta tanto a “função social da propriedade” prevista na Constituição de 1988 quanto as “funções sociais da cidade”, estas previstas no Plano Diretor do Rio de 1992. Segundo o arquiteto, ambos os princípios nunca foram implementados porque “esse não é o dos grandes empresários do mercado imobiliário, porque mexe com o tabu da propriedade privada”. [10.04.2010]
7 – RIO – Entrevista Para OAB regularização e urbanização garantem qualidade de vida
[Por Sheila Jacob] Rafael Mitchell, presidente da Comissão de Direitos Urbanísticos da OAB, analisa que um dos principais problemas é a ausência de políticas públicas no município do Rio que sejam concretas e duradouras. [10.04.2010]
8 – RIO – Reportagem Vida e conversas no Morro do Borel após o desastre das chuvas
[Por Ana Lúcia Vaz (Renajorp) e Gizele Martins (NPC)] É verdade que construir na encosta de um morro é sempre uma opção de risco. Aliás, morar no Rio de Janeiro é uma opção de risco. Mas imagine a confusão se o governador decidisse dizer que quem morre de bala perdida ou acidente de trânsito – bem mais provável do que por desabaento de encosta – morreu por escolher o risco! [10.04.2010]
9 – RIO – Depoimento: O que pensam os moradores da Vila Autódromo, ameaçados com remoção
[Por Jane Nascimento] É nas favelas que está a maior exploração.