Por Tatiana Lima* (NPC)

Na sala de casa, sentada no sofá estampado, num domingo de inverno, no dia 16 de agosto, estava Maria (nome fictício). Brasileira, moradora de favela, faxineira aposentada e mãe de dois filhos. Um de 10 anos, outro de 29 anos. Um, estudante do 3º ano do ensino fundamental; outro traficante.

Maria, sempre risonha, foi contando a história de vida, luta, crime, castigo e medo que viveu nos últimos anos. Como tantas mães, ela viu o filho mais velho desistir de estudar, não conseguir trabalho e se envolver com o tráfico de drogas. Isso ainda antes de completar 21 anos. Desde o primeiro dia, a cada ação da polícia no morro, o coração disparava. “Mas fazer o quê? A gente fala, mas adianta?”, indaga Maria, que já sabe a resposta.

 

Batidas na porta

Numa terça-feira, de abril de 2003, Maria acordou com batidas na porta de casa. Lá estavam eles: os policiais. Revistaram a casa e saíram. Entretanto, o dia estava só começando. Maria foi chamada pelos vizinhos: corre que pegaram teu filho.  Ela correu para a quadra. De cabeça baixa, o filho mais velho olhava a mãe e balbuciava: – Mãe, fica calma. Foi junto para delegacia. Queria notícia do filho. Também queria entender o que estava acontecendo. Maria não é burra. Sabe muito bem que o filho é traficante e já esperava o dia em que a delegacia seria o local de encontro com o filho, na melhor das hipóteses. Mas o filho sempre foi “café pequeno”.

Acontece que, através de uma denúncia feita por um sequestrador relâmpago preso no dia anterior daquela ação da policia, o filho foi acusado de ter realizado um sequestro seguido de morte. Ela sabia que só depois de vinte dias poderia ver o filho, mas todo dia tentava mesmo assim.

 A tortura e calvário

Se não fosse mãe, Maria conta que não teria reconhecido o filho. Os braços estavam muito roxos. O rosto inchado. O filho não se mexia muito. As dores não deixavam. Tentou evitar falar muito. Até que a mãe suplicou por uma palavra. Falando um pouco enrolado, o filho respondeu que agora estava bem. Contou que tinha sido muito “judiado”, mas que um policial ficou com pena e deu para ele pomada de arnica, remédio e um chá para aliviar as dores.

O problema é que a pena do policial só chegou depois de 16 dias de tortura. Após ele ter ficado por dois dias preso, amarrado num pau, de cócoras, com um saco plástico na cabeça, levando choques até sangrar e perder os sentidos várias vezes.O saco só saiu da cabeça quando desmaiou e acordou com água jogada no corpo, já desamarrado e posto no chão frio. Foi quando percebeu que tinha perdido um pedaço da língua.  Por isso, a resistência em falar. Não queria que a mãe se preocupasse muito. Mas estava tão “quebrado”, que desistiu de esconder qualquer coisa.

Maria continuou contando coisas, contratou um advogado. Pagou propina para o filho ter um pouco de conforto, como colchonete e televisão. O filho foi a júri popular. Além de ser acusado do sequestro seguido de morte, tentaram ainda colocar mais outros dois homicídios nas costas dele. Também foi acusado de resistência à prisão e porte de armas.

No julgamento, a juíza perguntou se o réu declarava-se culpado ou inocente. A resposta veio rápida e firme: 

– Culpado de tráfico. Culpado de porte de arma. Culpado de resistênc
ia à prisão, senhora. Mas não sequestrei, não matei ninguém. Nunca.

 Juri incenta a vítima

O Júri popular foi unânime. Ficou provado que o filho de Maria não teve nenhum envolvimento em nenhum dos crimes de homicídio. Saiu do julgamento preso para pagar pelo que fez: tráfico. 

Por três anos e meio cumpriu pena em Bangu. O filho de Maria já está solto. Com bom comportamento, cumpriu 1/6 da pena. Saiu da prisão, mas não quis voltar para o morro onde nasceu, foi criado e se tornou traficante. Nos dois anos e meio de prisão não aprendeu nada. Não recebeu sequer um curso profissionalizante.

 

A volta para o tráfico

Saiu da cela do sistema penitenciário de Bangu, ficou duas semanas junto da mãe e voltou para a cela do tráfico em outro morro. A mãe já desistiu. Para ela não tem como o filho sair do tráfico. O filho não deve nada. Continua a ser mais um “café pequeno”. Mas ela pergunta: – Ele vai sair pra onde?

*Tatiana Lima é jornalista