Caro leitor de cartas,
Sou um leitor voraz de sua revista. Eu a levo para a cama todas as semanas, com a melhor das intenções. Espero ansiosamente pela próxima edição. Quando a revista brilha na banca, sei que vocês entrevistaram o melhor líder desde a rainha Vitória: Fernando Henrique Cardoso.
Dado que sua tarefa na The Economist é ler as cartas, talvez você não tenha tido tempo de ler sobre acontecimentos recentes no Brasil. Um importante aliado político do presidente Lula, Renan Calheiros, foi alvo de acusações múltiplas. A mídia fez seu trabalho. Expôs a vida pessoal e política de Renan. Embora ele negue autenticidade às acusações, deixou de ser o presidente do Congresso. O escândalo começou quando Renan foi acusado de ter uma repórter como ex-amante, e de ter tido uma filha com a jornalista, e de ter usado formas “pouco ortodoxas” para sustentá-las.
De acordo com a edição de abril de 2000 de uma revista brasileira chamada “Caros Amigos”, um caso similar aconteceu com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Quando ele era senador, de acordo com a revista, FHC teve um filho com uma jornalista, uma repórter da TV Globo que eventualmente foi transferida para Barcelona, na Espanha. A reportagem nunca foi desmentida. Mas a mídia brasileira nunca perseguiu o caso, como fez recentemente com o senador Calheiros e “sua” repórter.
Por isso, nós brasileiros estamos confusos: o senador Fernando Henrique se tornou ministro da Fazenda, foi eleito duas vezes presidente da República mas a mídia brasileira nunca fez a ele uma pergunta simples: quem providenciou a transferência da repórter e do filho deles para a Europa? Quem pagou as contas? Considerando que a The Economist tem livre acesso ao nosso querido ex-presidente, conto com a revista para fazer a ele uma pergunta dura. Pelo menos uma vez.
Saudações,
Publicado em 18 de outubro de 2007
Uma versão editada da carta reproduzida acima foi enviada ao jornal britânico “The Independent”, com o título “Um segredo do tamanho do Brasil“.