Agência Notícias do Planalto: Kjeld, qual foi o cenário que a delegação internacional encontrou ao chegar no Líbano? 
Kjeld Jakobsen:
A três quilômetros apenas após a fronteira da Síria com o Líbano já encontramos o primeiro fato. No dia anterior havia sido bombardeada uma pequena ponte sobre um riacho e nessa ação, que aconteceu às vésperas de nossa chegada, tinham morrido 12 pessoas. E na mesma manhã em que nós chegamos havia sido bombardeada outra ponte semelhante em uma outra estrada próxima dali e que seria outra possibilidade de entrada para o Líbano. O mais grave que eu tive a oportunidade de ver pessoalmente foi o que aconteceu nos subúrbios da cidade de Beirute. Eu avalio que só nessa área mais de dez mil residências e apartamentos foram destruídos, assim como toda a infra-estrutura, a energia elétrica. Foram derramados 15 mil toneladas de petróleo no Mar Mediterrâneo, devido ao bombardeio de uma refinaria no sul do país. Portanto, isso nos leva a concluir que o ataque o ataque israelense não foi apenas contra um grupo político dentro do Líbano, no caso o Hezbollah. Na verdade foi um ataque a todo o povo libanês.

ANP: E qual a reação da sociedade civil libanesa diante dessa ofensiva dos israelenses? 
Kjeld Jakobsen:
Ao contrário do que eles esperavam, que era dividir politicamente a população em função das diferentes religiões e origens que já chegou a gerar conflitos no passado, desta vez aconteceu o oposto. Gerou-se uma união muito grande na população libanesa contra a invasão e em apoio à resistência coordenada pelo Hezbollah. Mesmo que ele tenha base em uma parcela da população xiita, que por sua vez propaga uma religião específica, ele é um partido político. Possui parlamentares e ministros, mas é também um partido armado e que foi reconhecido pelo conjunto da população como o defensor do Líbano.

ANP: Os EUA desempenharam um papel polêmico na discussão do cessar-fogo e tentaram por algumas vezes impedir que ele se concretizasse. Sabe-se também que Israel recebe armamento do EUA. Como você avalia essa atuação do governo de George W. Bush no conflito? 
Kjeld Jakobsen:
Os Estados Unidos claramente querem promover um novo desenho geopolítico no Oriente Médio. O ataque ao Iraque está relacionado com isso, assim como a pressão sobre o Irã para impedir que ele desenvolva tecnologia nuclear. No caso, Israel é um instrumento dos norte-americanos para pressionar os países da região. Em particular dois agrupamentos políticos: o Hammas, na Palestina; e o Hezbollah, no Líbano. Mas por intermédio disso, eles [EUA] pretendem também, atingir a Síria. A interferência norte-americana no processo é claramente um dos fatores de insegurança, de prejuízo à paz na região.

ANP: Kjeld, você vê perspectivas de paz para a região? 
Kjeld Jakobsen:
O desejo do povo libanês, do Hezbollah, enfim, dos diversos partidos, com quem nós falamos, com os governos com os quais nos reunimos, todos querem a paz. Mas querem também a preservação da integridade nacional, de sua soberania, sem interferência. Na verdade quem atacou foi Israel, portanto quem tem que manifestar vontade de fazer a paz é Israel.

ANP: O que o Brasil pode fazer para contribuir no processo de paz desta guerra?
 Kjeld Jakobsen:
O governo brasileiro foi muito claro no começo, no seu posicionamento condenando o ataque, a invasão. Agora acho que tem duas tarefas por diante. A primeira é contribuir – na maneira que for possível – na reconstrução, principalmente voltada à população mais pobre, que acaba sempre sendo esquecida pelas agências internacional. A segunda tarefa é contribuir politicamente. Os Estados nacionais não estão conseguindo preservar a relação entre os povos, assegurando um processo de paz. Portanto é um momento em que a sociedade civil tem que intervir pressionando os respectivos governos e estando presente inclusive no local. Esse era o sentido de nossa viagem.

Você acabou de ouvir Kjeld Jakobsen, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Aliança Social Continental. Ele esteve no Líbano como integrante delegação internacional da paz.

De São Paulo, da Agência Notícias do Planalto, Beatriz Pasqualino