Documentarista desde 1984, o cineasta Joel Zito de Araújo teve forte atuação no movimento sindical nos anos 80, em São Paulo e Belo Horizonte. Ele fez uma palestra durante o segundo dia da III Conferência Bienal da Associação para o Estudo da Diáspora Africana no Mundo (ASWAD), no dia 6 de outubro, no Rio de Janeiro. Lembrou histórias sobre a questão racial e o movimento sindical e falou sobre projetos ligados a estes temas. Respeitado entre o movimentos negro por seus filmes, criticou a “idéia marxista de que o mais importante é a classe, e não a raça”, e disse que tem intenções de explorar a subjetividade colonizada em um novo projeto que, segundo prevê, ainda deve demorar para sair.
Para Joel, o importante é tocar em questões que ainda não foram devidamente exploradas. “Uma amiga me disse para fazer um filme sobre Chiquinha Gonzaga, inclusive porque dava para obter financiamento mais facilmente, mas eu penso que insistir nas histórias da escravidão pode reforçar a subalternidade dos negros”, alertou, destacando o “pacto de relação de poder existente em não tocar na questão racial e negar a negritude”. Ele citou diversas histórias do sindicalismo brasileiro para apontar o tabu existente em relação ao tema e achou significativo o fato de seu filme “As Filhas do Vento” ter sido classificado pela revista ISTOÉ como “panfletário”.
Ele reforçou sua intenção de explorar preconceitos, como o de que a miscigenação veio para acabar com a raça negra e que, neste sentido, ser mestiço é ser subalterno e apenas uma fase de “passagem”. Joel sustenta: “O mestiço não se vê como um grupo. Ele tem a consciência – ou melhor, a inconsciência de que é parte de um processo de branqueamento”. Por isso, argumenta, “não pretendo trabalhar a ação, mas a alma do negro. Não a história heróica, mas as dores que continuam no presente”.
(Por Gustavo Barreto)