Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.

E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem.


Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

Neste poema, lançado na revista cultural moçambicana Msaho, Noémia de Sousa fala sobre a predominância dos discursos produzidos por “gentes estranhas” que lançaram “seus olhos cheios doutros mundos” sobre o continente africano. A repetição da imagem de um continente repleto “de mistérios profundos/ de delírios e feitiçarias” serviu para reproduzir preconceitos sobre a cultura e tradições daquele povo. Os movimentos de resistência se fortaleceram quando os próprios africanos passaram a tomar a palavra, a cantar sua terra e a questionar a violência colonial. Após anos de guerras de libertação, em 25 de junho de 1975 foi comemorada a independência do país.