A novela “Bang-Bang” estreou no dia 03/10 e está sendo alvo de protestos dos setores envolvidos no referendo sobre o desarmamento. Tanto os defensores do SIM, quanto os partidários do NÃO acusam a novela de parcialidade. Os primeiros alegam que uma novela baseada no faroeste americano é uma defesa explícita da manutenção do comércio de armas. Os segundos destacam falas e posturas de personagens como uma condenação ao direito de adquirir armas legalmente.
Os defensores do SIM têm toda razão em reclamar. Afinal, o que não faltam no novo produto global são armas de todo o tipo. Mas, os partidários do NÃO poderiam deixar de citar a seguinte cena, ocorrida no capítulo do dia 4 de outubro, em que o personagem Javier Bolívar, interpretado por Genésio de Barros, diz para o filho: “Eu já te falei o que eu penso dessa história de revólver, de tiro, de violência. Isso não é bonito. Eu falo por experiência própria, filho. Há muitos anos, quando nós lutávamos para reaver as nossas terras, eu tive a ilusão de que as armas eram o verdadeiro caminho para a justiça. Eu estava errado. Com o tempo, eu aprendi que “hay que endurecer, sí, mas com ternura’”.
Então, quem está certo? É a Globo, ora. Lançou uma novela em pleno calor da discussão e o capítulo de estréia teve 36 pontos de média no ibope da Folha Online. A novela anterior estreou com média de 31 pontos. Muitos podem alegar que a emissora dá todos os sinais de que é partidária do SIM. Afinal, seu primeiro time de estrelas está na campanha pelo fim do comércio de armas. Por outro lado, o time político da própria Globo está muito mais alinhado com os setores conservadores que defendem o NÃO.
Acontece que ao parecer ser partidária do SIM, a Globo também tem chance de parecer politicamente correta. Ao mesmo tempo, o referendo não altera em nada as condições sociais e econômicas da sociedade brasileira. Uma realidade injusta e violenta que a própria Globo ajudou a construir e quer manter. Portanto, não há muito a perder. Ganhando o SIM, a emissora pode fazer pose de empresa que tem “responsabilidade social”. Vencendo o NÃO, a violência ganha mais uma justificativa superficial. As pessoas se matam na periferia e nas favelas porque continuam a comprar armas.
Enfim, as contradições entre os personagens da novela global mostram apenas os limites do referendo e a posição confortável dos verdadeiros responsáveis pela violência no País. Enquanto partidários do SIM e do NÃO duelam ferozmente, os ricos apreciam o espetáculo e os pobres continuarão a morrer.
(Por Sérgio Domingues)