
[Por Sheila Jacob] Todos nos sentimos um pouco órfãos com a notícia da morte do escritor português José Saramago, ocorrida na manhã do dia 18 de junho. Dentre os seus livros mais conhecidos estão Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Cegueira. Este último foi adaptado para o cinema, chegando às telas sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles. O escritor foi ainda vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, e do Prêmio Camões, em 1995, o mais importante da literatura de língua portuguesa. Em suas obras, tratava de grandes temas: religião, morte, solidão, cegueira e lucidez coletivas. O verdadeiro protagonista, contudo, sempre foi o povo: em sua ficção dava lugar à voz de trabalhadores, camponeses, prostitutas, gente pobre, enfim, a “todos os nomes”, principalmente aqueles silenciados pela História oficial.
Além de sua inigualável presença na literatura portuguesa e universal, Saramago foi um contundente homem político, adotando posições em defesa dos trabalhadores de todo o mundo. Militante do Partido Comunista Português desde 1969, foi um dos construtores da Revolução dos Cravos de 25 de Abril, que marcou a derrota do fascismo em Portugal. Também voltou os olhos para o Brasil, denunciando, em 1997, o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido um ano antes. Saramago foi autor do prefácio do livro/cd Terra, lançado para relembrar a chacina contra os militantes sem-terra e marcar a importância da luta pela Reforma Agrária. A publicação reuniu, além de seu texto, fotografias de Sebastião Salgado e músicas de Chico Buarque.
O escritor defendia em seus livros e na sua vida pública os princípios da igualdade e da solidariedade, reafirmados em entrevista concedida ao repórter Edney Silvestre. Por fim, declarou: “Parece que todos gostariam que eu passasse para o capitalismo, depois do desastre do comunismo conforme ele foi posto em prática. Lamento desapontá-los. No meu entender, ser comunista é um estado de espírito. Nunca renunciarei a isso.”