Não posso adiar a palavra

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
            em toda a terra
            e em todos os homens

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
           amaldiçoavam cada existência nossa

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!

Sobre o poeta: Hélder Proença se destacou na literatura guineense desde cedo, com seus poemas anticolonialistas e de afirmação da identidade nacional, que acompanharam a sua atividade política. Os textos dessa fase foram reunidos no volume Não Posso Adiar a Palavra, editado apenas em 1982.

O poeta foi morto por militares e homens armados recentemente, no dia 5 de junho deste ano. Outras três pessoas morreram, incluindo Baciro Dabó, candidato presidencial à próxima eleição de 28 de junho. A justificativa foi abortar uma tentativa de golpe de estado que estaria sendo liderado por Proença. O país passa por um clima de instabilidade política desde o assassinato do então presidente de Guiné Bissau Nino Vieira, em março deste ano.