Na edição do Jornal Nacional de 30.06.2006, uma reportagem aborda a TV digital . Afinal, o governo Lula havia acabado de definir a preferência pelo padrão japonês na implantação dessa tecnologia no País. Assim, que tal explicar aos caros telespectadores o que seria essa nova forma de transmitir programas televisivos?

A reportagem com o nome de “A TV digital no Japão”, foi feita pela correspondente da emissora na Ásia, Sônia Bridi. A jornalista foi ao Japão e explicou que lá “o sistema já existe há três anos e há três meses a TV digital está nos celulares”. Claro que a reportagem ficou no nível tecnológico. Melhor qualidade da imagem e possibilidade de utilizar serviços seriam algumas das vantagens. Para exemplificar a repórter entra num táxi e afirma: “Na transmissão analógica, a que a gente recebe em casa no Brasil, se a gente tenta assistir televisão com o carro andando, a imagem fica cheia de chuviscos, sai do ar. Com a transmissão digital não. É como se fosse uma televisão parada e com uma boa antena. A imagem é sempre nítida”.

E mostra, toda contente, uma minúscula televisão aninhada na palma de sua mão. E tem mais. Logo depois Sonia entra num automóvel modernoso e avisa que no banco de trás dos carros japoneses os “passageiros podem assistir o seu programa preferido e com um detalhe: além da imagem de alta qualidade, o som também é transmitido em cinco canais “.

Muito bem! Depois dessa reportagem, a população brasileira já poderia se considerar bastante informada sobre a tevê digital no Japão. Só não ficou sabendo que a escolha do governo brasileiro tem implicações muito maiores do que a qualidade da imagem. O público não ficou sabendo, por exemplo, que seria possível a opção por um padrão que poderia triplicar o número de canais à disposição do público. Nem que a nova tecnologia poderia abrir espaço para emissoras comunitárias, associativas, sindicais, partidárias etc. Também não foi informado que ficou de fora a possibilidade de ser implantado um canal de retorno. Ou seja, uma tecnologia que permitiria uma forma de comunicação entre os telespectadores, como já acontece na internet, só que muito mais acessível e barata. Tudo isso utilizando a tecnologia que já vem sendo desenvolvida nas universidades públicas brasileiras há alguns anos.

Nada disso foi dito na reportagem. Afinal, a escolha do padrão japonês implica manter e ampliar o atual monopólio da transmissão televisiva. Então por que não comemorá-la? Afinal, a TV digital vai melhorar a vida de todos os brasileiros que andam por aí com uma televisão que cabe na palma da mão e têm um automóvel com televisor no banco traseiro.

Por Sérgio Domingues