Em 17 de abril de 1996, 19 trabalhadores rurais foram executados pela polícia do Pará. Esta chacina ficou conhecida como o massacre de Eldorado dos Carajás. Em homem aos que lutam pela terra, a poesia de Pedro Tierra.
A pedagogia dos aços
de Pedro Tierra
Candelária,
Carandiru,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás…
A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia…
Há cem anos Canudos,
Contestado,
Caldeirão…
A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia…
Há uma nação de homens
excluídos da nação
Há uma nação de homens
excluídos da vida
Há uma nação de homens
calados,
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de homens
combatendo depois das cercas.
Há uma nação de homens
sem rosto,
soterrados na lama,
sem nome
soterrados no silêncio
Eles rondam o arame
das cercas
alumiados pela fogueira
dos acampamentos.
Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
urna bomba que pulsa:
sonho da terra livre.
sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha.
A vida vale um sonho?
A vida vale tão pouco
do lado de fora da cerca…
A terra vale um sonho?
A terra vale infinitas
reservas de crueldade,
do lado de dentro da cerca.
Hoje, o silêncio pesa
como os olhos de uma criança
depois da fuzilaria.
Candelária,
Carandiru,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vasilha das palavras…
Se calarmos,
as pedras gritarão…