No canal público Vive TV um novo modo de fazer comunicação é colocado
Por Mario Camargo e Raquel Júnia
Boletim NPC – O que a Vive TV entende por comunicação libertadora?
Blanca Eekhout – Fundamentalmente resgatar a comunicação, dizemos que o modelo de comunicação imposto impede que efetivamente possamos nos comunicar. Um grupo muito reduzido da sociedade, que responde a interesses econômicos, se viu no direito de representar as grandes maiorias através dos meios, isso é uma representação da massa que se sobrepõe ao sujeito da comunicação. Então, o nosso papel desde Vive é efetivamente conseguir que os sujeitos da comunicação não sejam substituídos pelo fetiche midiático.
Você comentou que o espaço midiático tomou o lugar do espaço público…
De alguma maneira o cenário midiático substituiu o espaço público. Um grupo muito reduzido de jornalistas, políticos, intelectuais e artistas, que são os especialistas convocados pelos donos dos meios, se dão o direito de dizer o que expressam como se fosse uma opinião pública. A realidade começa a ser uma referência que em muitos casos não é considerada. No caso, por exemplo, dessa guerra de extermínio contra o povo iraquiano, a verdade não teve nenhuma importância, o importante é a mentira midiática. Então, creio que é fundamental a idéia de recuperar a comunicação como um espaço para o encontro verdadeiro. O modelo dominante nos leva ao desencontro, à violência, ao terror, ao medo. Permanentemente todas as notícias estão ligadas justamente a que tenhamos medo dos outros, à estigmatização dos árabes, dos latinos. Ou somos terroristas, ou somos traficantes ou delinqüentes. Há uma permanente desqualificação e estigmatização do outro.
Como a TV pública venezuelana busca um modelo estético para romper com esse modelo capitalista de televisão?
No estado venezuelano há dois canais públicos, um é o Venezuelano de Televisión, que se encarrega mais do informativo e da opinião e carrega muito do modelo estético dominante, está muito ligado à batalha midiática que é essa rixa política permanente: fala governo, fala oposição. Nós, na Vive, estamos ligados à participação protagonista do povo. E o povo que não tem espaço porque não é o especialista, nem é político reconhecido, é esse povo que nós estamos incluindo como sujeito ativo na comunicação. O modelo não é só dar-lhes participação ou que seja protagonista, mas que aprenda a usar a ferramenta comunicacional, que possa entender o mecanismo de poder que se estabelece a partir do uso da câmera, que ele possa construir seu discurso a partir de sua perspectiva e de sua vida, de sua realidade e dos interesses do coletivo no qual está inserido. Por isso as comunidades indígenas produzem materiais extraordinários que nunca tínhamos tido a possibilidade de ver. Não é somente porque não tinham espaço na tela da TV, mas a sua visão de mundo, a forma de narrar e contar, a partir do momento que eles têm a ferramenta nas mãos é algo que temos agora, com esse espaço público, a possibilidade de ver. É de extraordinária riqueza. É a comunicação como direito igual a ter acesso à escrita. Você pode escrever acerca de García Márquez, escrever uma carta, um boletim de sua fábrica, da mesma forma nas câmeras, esse é um instrumento comunicacional ao que todos temos direito e pode servir também para transmitir minha luta, para mostrar minha cultura, para dizer como eu como. Há programas em Vive da revolução campesina, que é sobre a comida, desde como se cultiva o alimento, até o momento a colheita e o momento que se prepara para compartilhá-la. Ent] ]>